Índia

Um povo e sua ilha: quem são os humanos mais isolados do planeta

25/11/2018 15h32

Um povo e sua ilha: quem são os humanos mais isolados do planeta

Por: Folha de Dourados
 
 
 Desde a década de 1990, o governo indiano proíbe o acesso à ilha - © Christian Caron - Creative Commons
Desde a década de 1990, o governo indiano proíbe o acesso à ilha - © Christian Caron - Creative Commons
 
Arte R7Arte R7

Os sentineleses vivem há mais de 55 mil anos em uma ilha, no território indiano, sem nenhum contato com outras comunidades

Não se sabe praticamente quase nada sobre eles. As únicas imagens que existem foram tiradas de longe. A língua que eles falam não foi catalogada e não há sequer estimativa de quantas pessoas habitam a ilha de Sentinela do Norte, no arquipélago de Andamão e Nicobar, no leste da Índia, a mais de 1.350 quilômetros do continente.

A comunidade internacional sequer sabe como eles se referem a si mesmos, mas o grupo de 50 a 90 pessoas ficou conhecido como Sentineleses, por conta do nome da ilha.

É o povo mais isolado do mundo. Desde a década de 1990, o governo indiano proíbe o acesso à ilha e faz apenas missões de reconhecimento à distância.

Eles estão ali há 55 mil anos sem contato com o mundo exterior. Até mesmo o idioma e o modo de vida são completamente diferentes dos povos indígenas que habitam as outras ilhas do arquipélago, como os Jarawa.

"Eles sequer têm outras comunidades tribais como vizinhos", explica Sophie Grig, porta-voz da ONG Survival Internacional, que cuida dos direitos desses povos.

A origem dessas pessoas também é desconhecida, contudo acredita-se que eles são descendentes diretos dos primeiros humanos que viviam no continente africano.

Os sentineleses usam adornos feitos de palha e instrumentos feitos de madeira, pedra e até mesmo ferro.

Mantendo o isolamento

A ONG avalia que manter esse isolamento do resto mundo é essencial para que os sentineleses continuem vivos. Por passarem tanto tempo afastados, o organismo deles não é preparado para lidar com doenças simples como a gripe ou o sarampo.

"90% das tribos ameríndias morreram após o contato com os europeus, principalmente de doenças. Outras foram eliminadas por completo", lembra Grig.

Para evitar a presença de visitantes indesejados, a Survival Internacional trabalha em parceria com o governo indiano. A organização acredita que a comunidade tem o direito de se manter isolada, se assim deseja.

O acesso à ilha é terminantemente proibido e o governo faz apenas missões de reconhecimento com barcos em uma distância que as flechas dos ilhéus não alcancem.

"Por ser a tribo mais isolada do mundo, as consequências [de um contato com pessoas de fora da ilha] para os Sentineleses provavelmente serão devastadoras", garante Grig.

Morte de missionário

Nesta semana, os sentineleses voltaram a ser notícia no mundo depois que um missionário-aventureiro dos Estados Unidos tentou se aproximar deles e foi morto a flechadas.

Johan Allen Chau entrou ilegalmente na ilha, depois de subornar pescadores locais e foi morto a flechadas pelos sentineleses.

Grig acredita que Chau sabia do perigo que corria e da ameaça que representava para a população local. "Mesmo a busca mais rápida do Google teria dito a ele tanto os riscos para si mesmo quanto para a comunidade", conta.

Já se sabe que o missionário visitava o arquipélago de Andamão e Nicobar constantemente desde 2015. Seu corpo foi deixado na praia e o governo indiano está tentando executar uma operação de resgate.

Tentativas de contato

No entanto, esta não foi a primeira tentativa de contato com esses aborígenes isolados do resto do mundo.

Existem registros desse povo desde o século 18. No final dos anos 1800, o britânico 'Responsável dos Andamaneses', MV Portman, conseguiu atracar na ilha. Ele sequestrou seis nativos e os levou para outras ilhas.

Dois idosos morreram logo depois, muito provavelmente por terem contraído doenças para as quais seu sistema imunológico não tinha defesas.

Já as crianças foram devolvidas à ilha com presentes. Porém, elas também contraíram doenças e as espalharam para a ilha, dizimando parte da população, na ocasião.

Novas tentativas um século depois

Já na década de 1970, quando a ilha já estava sob controle indiano, as expedições para entrar em contato com os sentineleses continuaram.

Na maioria das vezes, os estrangeiros eram recebidos com uma chuva de flechas pelos nativos.

Certa vez, os representantes do governo enviaram um porco e algumas bonecas. O animal foi morto e enterrado na praia ao lado dos presentes.

Somente em 1991, um grupo conseguiu se aproximar e deixar cocos de presente sem receber como resposta uma reação agressiva dos sentineleses.

Ainda assim, em 1996, o governo indiano decidiu proibir o acesso à ilha, após perceber que um contato forçado com os aborígenes poderia ter consequências desastrosas para eles. Enquanto vivem sem contato com outros povos na ilha, a saúde deles continua forte.

Terremoto na Indonésia

Em 2004, um terremoto muito forte atingiu a Indonésia. Nessa ocasião, o governo indiano enviou um helicóptero para prestar ajuda.

A aeronave foi recebida a flechas pela população. Desta tentativa de aproximação surgiu uma das fotos mais marcantes desse povo: um homem atirando uma flecha contra o helicóptero que sobrevoava a ilha.

Dois anos depois, dois pescadores se aproximaram ilegalmente da ilha. Eles foram mortos a flechadas, assim como o missionário norte-americano.

O governo indiano até tentou recuperar os corpos deles, mas os sentineleses não permitiram a aproximação. Há uma nova operação em andamento atualmente para tentar resgatar o corpo do missionário Chau.

 

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