Mino Carta

Mino Carta: O caso Battisti, do asilo à extradição

25/12/2018 09h22

Mino Carta: O caso Battisti, do asilo à extradição

Por: Folha de Dourados
 
 
Mino Carta - Foto: Carta CapitalMino Carta - Foto: Carta Capital

Mino Carta*

Não tenho a mais pálida intenção de decifrar as razões jurídicas do STF para autorizar a extradição de Cesare Battisti, ele deveria ter sido recambiado para a Itália há muito tempo. Por esta corte estrela da tevê tenho profundo desprezo: é a primeira responsável pelo golpe de 2016 e suas consequências, até a transformação da demência em forma de governo.

Quero dizer apenas que o caso Battisti é altamente representativo da ignorância e do primitivismo do País. Antes de mais nada, é inaceitável que a opinião de um punhado de pseudointelectuais franceses se sobreponha à sentença de um Estado Democrático de Direito. Mas há algo pior: a estupidez clamorosa de uma dita esquerda brasileira disposta a acreditar que Battisti é comparável a quem se engajou na luta armada contra a ditadura.

Não dissertarei a respeito das diferenças entre a resistência argentina e uruguaia e a nativa, tampouco evocarei a distância acabrunhadora entre o que se deu lá e aqui no pós-ditadura. A dita esquerda brasileira engoliu uma lei da anistia imposta pelos ditadores, os quais, aliás, ameaçam tornar-se heróis, se já não são celebrados como tais, com seus torturadores, algozes, esbirros.

Volto a Battisti. Preso por três vezes como ladrãozinho do arrabalde, na quarta encontrou em um companheiro de cela um terrorista do PAC, Proletários Armados para o Comunismo, e descobriu uma espécie de justificativas para as suas estripulias.

Diz Armando Spataro, procurador-chefe de Turim, em recente entrevista ao La Repubblica: "Battisti é um assassino da pior extração, foi executor material do homicídio do marechal (suboficial dos carabinieri) Santoro e do agente Campagna, e participou de mais dois assassinatos, de Pierluigi Torregiani e Luigi Sabbadin".

Condenado à revelia, fugiu por rotas diversas até buscar na França a proteção da Lei Mitterrand, tão hipócrita quanto quem a promulgou, para contar ao cabo com o lobby de figuras secundárias, como Fred Vargas e Bernard-Henry Levy. Diante dos pedidos de extradição encaminhados pela Itália, refugiou-se no Brasil com a provável ajuda da polícia francesa.

Passou uma temporada na Papuda e finalmente recebeu asilo por determinação de Lula a 31 de dezembro de 2010, último dia do segundo mandato. O presidente sofrera as pressões de vários apaniguados, Luís Eduardo Greenhalgh, José Dirceu e Eduardo Suplicy à frente, e até de manifestações populares pela libertação de Battisti.

"Foi uma ofensa à nossa democracia", afirma hoje Spataro na entrevista ao La Repubblica. Houve, na esteira do apoio ao terrorista, professores universitários, escassamente afeitos ao conhecimento da história contemporânea, prontos a propalar que nos anos de chumbo a Itália foi governada pela extrema-direita e contra esta se deu o desafio das Brigadas Vermelhas e outros grupos de menor expressão. Ocorre que houve terrorismo de esquerda e de direita.

Por exemplo, o atentado de Bolonha, que matou 89 inocentes, foi obra de saudosos do fascismo. A península viveu então anos de grande tensão, mas sem se afastar dos valores e princípios inscritos na sua impecável Constituição, a repressão ao terrorismo, enfim vencedora sob o comando do general Dalla Chiesa, foi conduzida sem recursos a medidas especiais que demandassem a alteração da Carta. Foi uma lição inesquecível para as polícias de todo o mundo.

Na década de 70, o país caminhou, ao contrário do que se propalava por aqui, no sentido da esquerda. Nas eleições de 1976, o PDC teve 36% dos votos e o PC 34%, e em seguida Aldo Moro e Enrico Berlinguer começaram a cogitar de uma aliança que se chamou de compromisso histórico. O PC era dissidente de Moscou havia 20 anos, condenava abertamente o terrorismo e, como dizia Eugenio Scalfari, um dos grandes do jornalismo italiano, era de fato um partido social-democrata na acepção correta.

Infiltradas pela CIA, as Brigadas sequestraram Moro em 1978 e o mataram dois meses depois. A perspectiva do tal compromisso deixou de assombrar os EUA. Tais fatos estão nos livros, mas, entre outras coisas, a esquerda brasileira não gosta de ler.

Frequentei o assunto Battisti muitas vezes e agora, mais do nunca, parece-me indicativo da parvoíce e do atraso nativos. Certo é que, na Itália dos anos de chumbo e na de hoje, o inquisidor Moro teria sido removido de Curitiba por uma Alta Corte que cumpre à perfeição o seu papel de poder independente e democrático, sem alarde e com a devida energia.

*Opinião publicada originalmente na Carta Capital

 

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