Alain de Botton

Alain de Botton: 'Estar confinado em casa é um incentivo para pensar'

Suíço radicado em Londres diz que ‘silêncio é um momento em que a mente pode se organizar e se entender’ e propõe uma filosofia para os nossos tempos em onze passos

29/03/2020 09h11 - Por: Folha de Dourados

 
Alain de Botton propõe que pratique-se o exercício de deitar e pensar na vida - Foto: DivulgaçãoAlain de Botton propõe que pratique-se o exercício de deitar e pensar na vida - Foto: Divulgação

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Em sua "filosofia da vida cotidiana", o escritor suíço Alain de Botton vem pregando o que chama de "viagens no sofá". Propõe que, em meio à pandemia de coronavírus e sob quarentena, pratique-se o exercício de deitar e pensar na vida. A prática do pensamento em silêncio, segundo ele, "cria um momento em que a mente pode se organizar e entender a si mesma".

Autor de best-sellers sobre assuntos tão diversos quanto interpretação de notícias, amor e religião, o filósofo fundou, há pouco mais de dez anos, uma escola para ensinar suas teorias, a School of Life, em Londres, onde mora. Lá, cursos e até terapia on-line reverberam o pensamento do autor de "A arquitetura da felicidade", "O curso do amor" ou "Religião para ateus".

Não poderia fugir à sua mira a filosofia em torno do isolamento social, uma medida defendida pela Organização Mundial da Saúde para lidar com a propagação do coronavírus. Para ele, estar confinado em casa é um incentivo para pensar: "Em termos físicos, não vamos percorrer grandes distâncias, mas estamos atravessando quilômetros de território mental. E, ao fim, somos sutilmente diferentes: uma versão um pouco mais completa, mais visionária, corajosa e imaginativa da pessoa que sabíamos ser antes".

Por que é tão difícil estar em isolamento?

O filósofo e matemático francês Blaise Pascal tem um aforismo famoso: "A única causa da infelicidade do homem é que ele não pode ficar quieto em seu quarto". Por que ele diz isso? Porque estamos sempre tentando escapar de nós mesmos. A ideia de Pascal desafia uma de nossas crenças mais queridas: a de que devemos sempre ir a novos lugares para sentir e descobrir coisas novas e valiosas. Mas e se, de fato, já tivermos um tesouro dentro de nós mesmos? E se nossos próprios cérebros já tiverem acumulado um número suficiente de experiências interessantes para durar dez vidas?

É possível pensar em benefícios emocionais a partir do isolamento?

O primeiro benefício de estar confinado é o incentivo para pensar. Poucos de nós exercitam o tipo de pensamento solitário que pode restaurar o espírito. Isso porque as novas ideias que poderiam surgir dessas viagens no sofá podem ameaçar nosso status mental. Se levarmos a sério uma nova ideia, talvez tenhamos que abandonar um relacionamento, deixar um emprego, repensar nossa sexualidade ou quebrar um hábito. Um período de pensamento em silêncio no quarto é um momento em que a mente pode se organizar e se entender. Medos, ressentimentos e esperanças se tornam mais fáceis de nomear. Ficamos com menos medo do conteúdo de nossas próprias mentes — e menos ressentidos, mais calmos e claros sobre nossa direção. Começamos, em passos vacilantes, a nos conhecer um pouco melhor.

Quais são os sentimentos negativos que o isolamento pode trazer à tona?

Poderíamos nos desesperar, confinados, acreditando que tudo de interessante está agora em outro lugar, que nada fascinante, profundo ou amável pode nos acontecer. Mas isso não é necessariamente verdade. Em termos físicos, dificilmente vamos percorrer grandes distâncias, mas estamos atravessando quilômetros de território mental. E, ao fim, somos sutilmente diferentes: uma versão um pouco mais completa, mais visionária, corajosa e imaginativa da pessoa que sabíamos ser antes. Viemos de uma espécie que, em apenas algumas centenas de milhares de anos, alcançou uma compreensão deslumbrante da existência, construiu algumas máquinas estupendas e aprendeu a pensar em si mesma como responsável. Precisamos aceitar a possibilidade de nos sentirmos, de madrugada, um pouco assustados.

Como o ser humano será transformado por essa crise? Sairemos diferentes disso?

Nós vamos — um dia — recuperar nossas liberdades. O mundo será nosso para vagarmos mais uma vez. Durante períodos de confinamento, além dos inconvenientes óbvios, podemos apreciar um pouco do que nos é concedido quando perdemos nossas liberdades costumeiras. Não pode ser coincidência que muitos dos maiores pensadores do mundo tenham passado uma quantidade incomum de tempo sozinhos em seus quartos. O silêncio nos dá a oportunidade de apreciar grande parte do que geralmente vemos sem nunca perceber adequadamente, e entender o que sentimos. Não fomos trancados: ganhamos o privilégio de poder pensar, de viajar por uma gama de continentes desconhecidos.

O senhor poderia especular sobre como seria esse novo mundo?

Um dia, a crise que assola o mundo e nossas mentes será história. Mas não será esquecida facilmente. Teremos a sensação de que havia um mundo antes e outro que veio depois. O contraste será espantoso e confuso. Não está em nossas mãos a chance de evitar a crise, mas depende muito de nós determinar o que a crise pode significar. Como na vida pessoal, os colapsos têm a capacidade de levar a avanços. Que avanços podem vir? Já podemos nos perguntar como idealmente queremos que o mundo seja depois.

Como lidar com o medo em meio a tantas incertezas?

Nem sempre precisamos lidar. Uma das coisas sábias nas crianças é que não têm vergonha de explodir em lágrimas, talvez porque tenham um senso mais exato e menos orgulhoso de seu lugar: sabem que são seres pequenos num reino hostil e imprevisível, que não podem controlar, que seus poderes de compreensão são limitados e que há muito para se sentir angustiado, melancólico e confuso. Por que não, em alguns momentos, se permitir cair no choro?

Por que aceitar a falta de controle sobre o mundo parece tão difícil?

Infelizmente, essa sabedoria tende a se perder à medida que envelhecemos. Somos ensinados a evitar ser, a todo custo, o bebê chorão. Começamos a associar maturidade a invulnerabilidade e competência. Imaginamos que é sensato acreditar que somos infalíveis e no comando do que está acontecendo. Mas essa é, obviamente, a altura do perigo. Perceber que não podemos mais lidar é parte da verdadeira resistência. Devemos nos esforçar para manter algo do bebê chorão, ou seja, pessoas que se lembram intimamente de sua suscetibilidade a mágoa e sofrimento. Momentos de perda de coragem pertencem a uma vida corajosa. Não existe maturidade sem uma negociação adequada com o bebê, e não existe um adulto que não anseie por ser consolado como uma criança pequena. (O Globo)

 

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