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‘Minha história em Dourados’: Entre relatos felizes, Adiles fala sobre a morte de Weimar Torres

Folha de Dourados está republicando as personalidades enfocadas no livro “Minha História em Dourados”, lançado na memorável noite de 24 de abril de 2024 na Casa Lys, com a presença de mais de cem pessoas. Nessa semana, relembramos o legado de ADILES DO AMARAL TORRES. A edição especial do projeto, celebrando os 90 anos de nossa cidade está em fase final produção e será lançado neste semestre, no Clube Social de Dourados.

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“Dirigir o jornal ‘O Progresso’ foi uma profecia de infância”

Douradense “da gema”

Meu pai era viúvo e minha mãe também. Minha mãe tinha uma filha e um filho: a Nilda, que morreu com catorze anos, afogada no rio Dourados e o Eduardo, o Dadai. Meu pai tinha o Celso e o Miguel.

Ele chegou aqui em 1930, vindo de Palmeira das Missões. Eu nasci em Dourados, no dia 29 de dezembro de 1933. Sou a única filha dos dois. Meu pai era agrimensor; quando ele chegou aqui, o Seu “Vadu” (não me lembro do nome exato) o ajudou a demarcar a cidade de Dourados.

Meu pai trabalhava muito na demarcação de terrenos, chácaras, trabalhava o dia inteiro fora. E era meio líder aqui, todo mundo era amigo, ele gostava muito de falar sobre política e tal. Foi vereador uma vez só, em Dourados. Às vezes ia fazer medição em Cuiabá, em Corumbá. Chegou a ser diretor do Departamento de Terras em Cuiabá, quando o estado era uno.

Infância e estudo

Tive uma infância muito boa. Gostava muito de fazer teatro. A Blanche, minha filha, puxou a mim. Eu escrevia peças de teatro, de balé, ensaiava balé com as meninas e apresentava. O meu pai mandou até fazer um palquinho no fundo da nossa casa, e eu cobrava, na época, quinhentos réis o ingresso. Enchia de gente; esse dinheiro eu dava para a Igreja Católica, para os padres.

A primeira escola pública onde estudei era da Dona Antônia de Mattos, Dona Tonica. Fiz em Dourados o curso primário: o primeiro, o segundo, o terceiro, quarto e quinto anos. Daí fui para o internato, no Colégio das Irmãs, em Campo Grande, onde fiz o ginásio e o colegial.

Quando eu ia fazer quinze anos, conheci o Weimar [Torres] e parei de estudar. Não fui mais pro internato. Anos depois, período em que meus filhos já estavam grandinhos, criou-se, em Dourados, a Socigran (hoje, Unigran); então, eu fiz o curso de Direito.

Namoro e casamento

O Weimar se formou em Direito no Rio de Janeiro. Lá ele trabalhava na Mate Laranjeira. Trabalhava o dia inteiro e estudava à noite. Naquela época era obrigatório os estudantes de Direito irem de terno e gravata. Ele era um menino que não tinha boas condições financeiras. Tinha um terninho só. Ele me falou que, quando o terno estava meio sujo, ele ia na lavanderia, ficava só com a roupa íntima, estudando num quartinho, enquanto lavavam o terno a seco.

 Com o dinheiro que ele recebia do trabalho, pagava um quartinho e a comida… chegou a passar fome. Já formado, veio a Dourados para fazer um serviço de advocacia.

Foi o primeiro advogado a estabelecer moradia aqui em Dourados. Veio para cá e a gente acabou se conhecendo na saída da igreja. Casei-me com dezessete anos. Eu ia fazer quinze, quando nos conhecemos.

Meu pai era muito enérgico, né? Imagina! Ele estava fazendo medição, e, quando voltou, o Weimar me disse: “Vou falar com o teu pai”. Falei: “Pelo amor de Deus, não!” Ele afirmou: “Vou”. Aí ele disse pro meu pai: “Eu quero ficar noivo da sua filha”. “Você está louco? Ela não tem nem quinze anos. É uma criança, ainda”, meu pai falou. “Não, mas se for preciso esperar vinte anos, eu espero”. Então, o Weimar chegava lá em casa: sentávamos o meu pai, a minha mãe, eu e ele, não tinha esse negócio de abraço, beijo, nada.

Fundação de “O Progresso”

O pai do Weimar fundou o Jornal “O Progresso” em Ponta Porã, em 1921/22; o Weimar não tinha nem nascido. Quando ele já estava crescido, o pai mostrava os jornais antigos e falava: “Olha, meu filho, é o Jornal ‘O Progresso’, que eu fundei aqui em Ponta Porã, mas tive de parar”. Isso porque o pai do Weimar também era advogado, formado no Nordeste, e teve de parar com o jornal, pois havia sido nomeado promotor – seria incompatível dirigir um jornal e exercer o Ministério Público.

 Então, Weimar disse para o pai: “No dia em que eu me formar, vou reviver ‘O Progresso’ em Ponta Porã”.  No entanto, ele veio para Dourados, a gente se conheceu, ele gostou da cidade e acabou ficando e retomando “O Progresso” aqui. Assim, com muita dificuldade, no dia 21 de abril de 1951, a marca “O Progresso” se iniciava em Dourados.

A morte de Weimar Torres

Certa ocasião, o Weimar foi convidado a candidatar-se a vereador, e acabou aceitando. Naquele tempo, os vereadores não eram remunerados, porque a cidade era pequena, não tinha remuneração. Depois convidaram-no para ser deputado estadual. Foi. Depois para federal. Foi. E, então, quando ele era deputado federal, nós nos mudamos para Brasília.

A gente só vinha para Dourados nas férias. A June e a Blanche já estudavam em uma escola pequenininha, lá em Brasília. Certa noite, no ano de 1969, quando Weimar retornava de Dourados para Brasília, o avião em que ele estava caiu em Londrina.

Eu estava com as crianças em Brasília, acompanhada de uma colaboradora que eu havia levado de Dourados para me ajudar lá. Recebi um telefonema, à meia-noite, dizendo que havia acontecido o acidente, que Weimar havia falecido. Fiquei num desespero louco, porque ele tinha sido o único homem da minha vida, o primeiro e único namorado.

 Ele tinha uma premonição de que ia morrer cedo. Naquela época já havia um voo, uma vez por semana, aqui. Na volta de Dourados para Brasília, na hora em que o avião estava levantando voo [na escala em Londrina], gritaram: “Fogo!”; o Weimar arrancou a janela de emergência e pulou. No momento em que ele pulou, a hélice bateu em sua cabeça, e ele morreu. Os outros passageiros morreram queimados.

'Minha história em Dourados': Entre relatos felizes, Adiles fala sobre a morte de Weimar Torres
O casal Adiles e Weimar Torres, ladeado por June e Weimar Júnior (Nico); Blanche está no colo da mãe
'Minha história em Dourados': Entre relatos felizes, Adiles fala sobre a morte de Weimar Torres
Adiles entre as filhas Blanche e June; ao fundo, reprodução da primeira capa de O Progresso, em Dourados
'Minha história em Dourados': Entre relatos felizes, Adiles fala sobre a morte de Weimar Torres

Profecia concretizada

Eu me lembro dos primeiros médicos da minha época: doutor Camilo Ermelino da Silva, um médico muito bom, e o doutor Nelson de Araújo. Os dois eram tão legais que, se a pessoa não tinha condições de pagar, não pagava, e era igualmente atendida. Tinha ainda o Seu Mandacaru, que dava remédio natural e muita gente se curava. Um dia, ele estava almoçando lá em casa, eu tinha uns dez, onze anos, ele olhou bem pra mim e falou: “Essa menina tem uma missão bem importante na vida”. Mas eu não sabia qual seria.

Depois que o Weimar morreu e fiquei responsável pelo jornal, meu pai disse: “Você lembra do que seu Mandacaru, falou”? Falei: “Lembro”. “Aí: é isso”, ele afirmou. Felizmente, nessa missão, sempre contei com o apoio e dedicação de minhas filhas, June e Blanche, e, depois, com o do meu esposo, o advogado Carlos Alberto Farnesi, com quem me casei, dezesseis anos depois da morte do Weimar, no ano de 1985.

Crescimento vertiginoso

Dourados está crescendo muito. Muito mesmo. Quando a gente sai nos bairros por aí, a gente nota a diferença. É porque Dourados tem vários fatores que contribuem para isso. É uma Cidade Universitária, tem terras férteis, e muitos municípios convergem para cá. Dourados é uma cidade que tem grande futuro, confirmando a manchete de “O Progresso” em sua primeira edição: “Vertiginosa! É a marcha de Dourados para o progresso!”

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