27/06/2018 09h05

Parada LGBT+ em Dourados: histórias de lutas, diagnósticos e proposições

Por: Folha de Dourados
 
 
Cleiton Zóia Münchow Cleiton Zóia Münchow

(*) Por Cleiton Zóia Münchow

Este texto é o primeiro resultado escrito de uma pesquisa, em fase inicial, sobre a história do movimento LGBT+ em Dourados. Ele foi produzido com a finalidade de auxiliar na orientação dos processos de produção do mês do orgulho LGBT+ que se encontra em curso, não o apresento como um texto dos coletivos, pois isso não seria verdadeiro, nunca votamos ou pensamos em uma função representativa para ele. Nada disso, entretanto, o torna menos importante para os processos desencadeados pelo coletivo da Parada, seu nascimento se deve a necessidade de saber da história das lutas da população LGBT+ de Dourados, nele me esforcei por resgatar as reivindicações dessa população em suas manifestações públicas. Assim, o texto encontra-se dividido em quatro partes: 1. A violência nossa de cada dia; 2. O trabalho da Associação de Gays, Lésbicas e Transgêneros de Dourados-MS; 3. Atuação dos Coletivos e os últimos questionamentos; 4. O que queremos.

  1. A violência nossa de cada dia

Viadinho! Baleia! Bichona! Essas foram as palavras que três homens gritaram a J., jovem de 18 anos, que, às 8h da manhã, só queria seguir sua caminhada em direção ao curso de Assistente Administrativo, ele contou que não revidou por estar sozinho e ter medo de apanhar. M., 17 anos, num dia de sábado, às 9h30, foi perseguido por um homem que, além de gritar coisas como "eu não quero viado na minha quebrada", tentou acertá-lo com uma garrafa de vidro na cabeça, para se defender ele necessitou entrar em luta corporal, teve sua roupa rasgada, felizmente, neste que M. descreve como momento de pânico, ele e as amigas foram ajudados pela população, esta não foi a única agressão sofrida pelo jovem, em frente a uma loja de açaí um homem de moto ficou o sondando e gritando, repetidamente, a palavra "Viado!". A sistematicidade e antiguidade dessas perseguições podem muito bem ser ilustradas se lembrarmos do caso de Cidinha, uma das 7 travestis assassinadas pelo maníaco das travestis entre 1997 e 1998 aqui na cidade I Caminhando pela avenida Weimar Gonçalves Torres, em 2015, um rapaz de 23 anos foi cercado por um grupo de pessoas e agredido por duas delas, colocaram uma "arma em sua testa, dizendo que (...) o matariam e jogariam seu corpo no rio Dourados", "a vítima ainda foi arrastada pelos cabelos e agredida a pauladas. Além das agressões, consta no boletim que o rapaz era chamado de "veado, gay, imundícia e bandido"II Nas escolas de Dourados também somos alvo de agressões, basta pensar nas duas meninas lésbicas e no menino trans que, ainda em 2015, denunciaram as ofensas a que eram submetidos por parte de uma colega em pleno ambiente escolar III. Nos ambientes comercias também estamos sujeitos ao risco, em 2016 três homens estavam comendo numa lanchonete na rua Cuiabá quando foram interrompidos pela homofobia de 4 pessoas que os agrediram com socos e chutes, armada, uma dessas pessoas, efetuou dois disparos que, felizmente, não fizeram vítimas [IV]([iv] http://www.superpride.com.br/2016/05/casal-gay-e-expulso-de-lanchonete-a-tiros-em-dourados-mato-grosso-do-sul.html). Pelo descrito, é preciso dizer que, de fato, estamos ilhados no interior de nossa própria cidade. Em 2018 o Grupo Gay da Bahia já contabilizou pelo menos 153 assassinatos homotransfóbicas no Brasil V.

No ano de 2017, em Mato Grosso Sul, como pode ser lido no Relatório de Assassinatos LGBT, tivemos 2,95 mortes por milhão de habitantes, esses números tornam o estado a região mais violenta do Centro-Oeste relativamente às pessoas LGBT´s, merece destaque o fato do Centro-Oeste, no Relatório supracitado, ter ficado em segundo lugar entre as regiões mais violentas para a população LGBT no Brasil - há uma guerra em curso VI.

Toda essa carga de violência, em diferentes intensidades, faz parte da experiência concreta das pessoas LGBT+, as estatísticas devem ser lidas como índices de uma experiência que se repete em diferentes espaços, instituições e saberes, inclusive em nossa cidade. Cientes da existência das violências e com desejo de conhecerem a própria história enquanto movimento organizado, um coletivo crescente de pessoas organiza-se em torno da produção de uma série de atividades que acontecerão no mês de junho, dentre elas, uma Parada do Orgulho LGBT+. Nossa história e nossas lutas é o tema do evento que acontecerá no dia 30 de junho em Dourados, às 15h30, na Praça Antônio João. Ocupar, Organizar e Resistir é o lema do acontecimento organizado de maneira independente por um coletivo de pessoas que responderam a uma postagem feita Adrian Silva de Paula, criador do evento no Facebook, atualmente o evento da PARADA LGBT+ conta com mais de 1000 pessoas interessadas e confirmadas VII

Com apenas 16 anos esta é a segunda vez que o jovem mobiliza a população LGBT a sair às ruas, em 2017, na presidência do Movimento dos Secundaristas, invocou à população a se manifestar contra o Juiz Waldomiro que pretendia instituir um retrocesso no campo da psicologia alegando que à homossexualidade poderia ser tratada, 302 pessoas confirmaram presença na Passeata LGBT Dourados MS, nas ruas dominou a seguinte frase: homossexualidade não é doença VIII

Em 2016 ele também esteve ligado ao Coletivo Marcelly Tavares que organizou uma atividade pública relativa ao dia 17 de maio que é o Dia Internacional de Combate à Homofobia, data em que a homossexualidade deixou de ser considerada doença, na Praça Antônio João o Coletivo Marcelly Tavares desenvolveu atividades educativas em relação ao respeito às diferenças e a preservação da saúde, cartazes foram produzidos e colados, da roda de conversa, que encerrou a atividade, na nossa memória restam as palavras de um dos participantes da atividade, Johw Correa que, na ocasião, disse que a homofobia surge de uma perspectiva patriarcal, assassina, de silenciamento e invisibilidadeIX.

2. O trabalho da Associação de Gays, Lésbicas e Transgêneros de Dourados-MS

A história das Paradas LGBT+ em nossa cidade relaciona-se à história da Associação de Gays, Lésbicas e Transgêneros de Dourados (AGLTD) fundada no dia 12 de agosto de 2004, juntamente a um coletivo de pessoas, por Cláudia Assumpção. No dia 07 de Setembro do mesmo ano, pela primeira vez na história de Dourados, um grupo LGBT organizado ocupou o espaço público, merece destaque o fato de se tratar de uma das atividades em que mais se cultiva a figura do homem viril, ao som de risinhos e piadinhas Cláudia resistiu. De sua resistência, somada a de muitas outras pessoas, um ano após a fundação da AGLTD, aconteceu a I Parada da Diversidade de DouradosX.

Em 2006 o trabalho continuou e a população do município e região puderam marcar presença na segunda II Parada da Diversidade de Dourados, naquele ano as pessoas saíram às ruas para, conforme Cláudia Assunção, "reivindicar direitos iguais e mostrar para quem ainda esconde sua homossexualidade que o movimento está se organizando e vai lutar por ele também"XI.

A III Parada da Diversidade de Dourados, contando com a presença de 7 mil pessoas, aconteceu em 2007, a luta eleita para o ano foi pelo direito à cultura, governo, educação e assistência social, no mesmo ano a AGLTD colocou em operação um importante trabalho no combate às violências que nos assolam, trata-se do Projeto Cidadania Sem HomofobiaXII.

Em 2008, com o tema "Em cada Diferença há uma Igualdade", a IV Parada da Diversidade levou 14 mil pessoas à Praça Antônio João para assistirem ao show da Rita Cadilac enquanto falavam e ouviam falar sobre "um mundo com direito iguais, sem machismo e homofobia"XIII.

"Prevenção como direito adquirido", no ano de 2009, foi o tema da quinta e última parada ocorrida na cidade[XIV]((http://centraldenoticiasgays.blogspot.com.br/2009/08/5-parada-gay-de-dourados-ms.html). Em 2011 a AGLTD, juntamente com o Centro de Referência em Direitos humanos e combate à homofobia L.G.B.T de Dourados MS e a prefeitura de Dourados, trabalharam na realização da 1ª Conferência Regional da Grande Dourados de Políticas Públicas e Direitos Humanos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (LGBT) o tema central das discussões desse evento foi "Mato Grosso do Sul em Desenvolvimento - da Homofobia à Cidadania"XV.

Todo o trabalho da ONG, atualmente, encontra-se paralisado, em 2012 ela perdeu sua sede própria. O Centro de Referência em Direitos humanos e combate à homofobia L.G.B.T de Dourados MS, uma das conquistas da AGLTD no ano 20017, encontra-se desativado, o projeto de uma casa de passagem para portadores de HIV/AIDS não saiu da gaveta da escrivaninha de Claudia Assunção que, apesar de tudo, segue trabalhando na luta contra as violências que atingem a população LGBT+ e outras minorias, o reconhecimento de seu trabalho é patente, no começo do ano Cláudia Assunção recebeu um prêmio da Subsecretaria de Políticas Públicas LGBT.

3. Atuação dos Coletivos e os últimos questionamentos

Outros três coletivos também movimentaram a reflexão da cidade em torno das questões LGBT+ ao longo destes anos, a partir de 2013 surgiram o Coletivo OlharesXVI e o Coletivo de Discussões Feministas Satine, o primeiro esteve diretamente envolvido na Marcha Feliciano não nos representaXVII, ambos, juntamente com a Marcha Mundial da Mulheres, produziram uma Carta aberta aos vereadores de Dourados XVIII e levaram, mais uma vez, a população de Dourados às ruas para Marchar contra as declarações homofóbicas feitas pelo vereador Sérgio Nogueira em 2014. A Carta foi lida no lançamento do Programa Dourados sem Homofobia. Tratava-se de uma importante campanha proposta pela Secretaria de Assistência Social, foram confeccionadas 5.000 cartilhas que, coincidentemente, depois das declarações do vereador, não foram entregues. De parte do discurso do vereador, nos parece oportuno reatualizar alguns questionamentos colocados pelos Coletivos aos Vereadores da Câmara Municipal de Dourados: "Qual de vocês terá coragem de propor leis municipais de combate à homofobia? Qual de vocês destinará verba para políticas públicas a favor da diversidade e dos direitos humanos?"XIX

Em 2015 - mesmo ano em que A Rede Apolo (Rede de Homens Gays e Lésbicas de Mato Grosso do Sul) convida a comunidade de Dourados para uma roda de diálogos sobre "Cidadania LGBT" e para eleger seu delegado no município – foi dada aquela que pode ser considerada a primeira resposta às questões que pretendemos atualizar: nossos edis suprimiram os pontos relativos a sexualidade e gênero do Plano Municipal de Educação.

4. O que queremos?

Como pode ser observado na leitura da Carta Aberta aos Vereadores de Dourados, somos uma multidão, em 2012 o IBGE registrou "mais 60 mil casais homoafetivos (isso os declarados, claro). Essas pessoas, nós, os anormais, nossas famílias e amigos, nós votamos. E nós não nos esqueceremos dos nossos opressores, nós nos lembraremos daqueles que incitaram o ódio e daqueles que silenciaram diante do nosso sofrimento"XX.

Desde 2005 o Mato Grosso do Sul conta com a Lei Estadual 3.157/2005 para dispor sobre as medidas de combate à discriminação devido à orientação sexual e identidade de gênero. O estado já fez consultas à população por meio de conferências LGBT´s, ou seja, já têm consciência de nossas demandas enquanto população LGBT+. Em 2016 tivemos eleições municipais, resta saber como nossos vereadores têm respondido às questões colocadas em 2014 pelo Coletivo Olhares, Coletivo de Discussões Feministas Satine e pela Marcha Mundial de Mulheres? A Parada LGBT+, a ocorrer no dia 30 de junho de 2018, não é uma atividade isolada, ela é a festa que encerra um ciclo de trabalhos que serão desenvolvidos ao longo do mês, atividades de ativismo, debates, colóquio de memória, mostra de cinema, tudo isso movimentará o nosso mês. Um dos objetivos do coletivo da organização é o de que a população LGBT+, habitantes das muitas ilhas existentes em Dourados, ative a memória de suas lutas para resistir ao tempo presente. Neste processo de construção algumas reivindicações foram percebidas, a população LGBT+ de Dourados se articula em torno das seguintes pautas:

  • Casas de passagem/acolhimento para LGBT+ e pessoas portadoras de HIV/AIDS;

  • Fim da violência Lgbtfóbica;

  • Representatividade política;

-Disseminação de uma cultura despatologizante a respeito dos gêneros e sexualidades dissidentes;

-Igualdade de direitos no acesso à saúde, educação, cultura e emprego.

O atendimento dessas demandas fundamentais passa pela realização de uma Audiência Pública sobre a população LGBT+ que vive em Dourados, criação de uma Lei Municipal de combate às discriminações às quais estamos submetidos, pela reativação do Centro de Referência em Direitos humanos e combate à homofobia L.G.B.T de Dourados MS, pela reativação de um Conselho Municipal LGBT+ e da Associação de Gays, Lésbicas e Transgêneros de Dourados, esses são os equipamentos necessários para operacionalizar políticas afirmativas eficazes no fortalecimento da potência dessa multidão que habita a cidade com cultura, arte, filosofia, literatura, história, arquitetura, medicina, trabalhando, mendigando, se prostituindo, frequentando templos religiosos e acreditando em Deus, ou não acreditando em nada e existindo como ateus, nos bancos escolares, nas salas dos professores, varrendo o pátio da escola, escrevendo para jornais, cuidando de flores, bebendo nos bares, atuando no teatro, agindo na política, sentadas na praça, caminhando no shopping, atuando em protestos, etc. Por palavras diversas, estamos em todos os lugares e, com diferentes cores, tamanhos, crenças, valores e posições sociais, constituímos uma multidão que é a vida da cidade.

[i] https://www.douradosagora.com.br/noticias/brasil/matador-de-travesti-vai-a-julgamento

[ii] http://www.diariodigital.com.br/policia/homossexual-e-espancado-por-dupla-na-madrugada-de-natal-em-dourados/139212/

[iii] http://www.progresso.com.br/caderno-a/policia/em-dourados-confusao-entre-alunas-por-homofobia-acaba-em-delegacia

[iv] http://www.superpride.com.br/2016/05/casal-gay-e-expulso-de-lanchonete-a-tiros-em-dourados-mato-grosso-do-sul.html

[v] https://homofobiamata.files.wordpress.com/2018/05/ggb-mapa-20182.jpg

[vi] https://homofobiamata.files.wordpress.com/2017/12/relatorio-2081.pdf

[vii] https://www.facebook.com/1368582336575911/photos/gm.2080344152247382/1369194843181327/?type=3&theater

[viii] https://www.youtube.com/watch?v=e2B8uatwnAw

[ix] https://www.facebook.com/cleiton.munchow/videos/1148124501905289/UzpfSTIwNjE2NDgwMTc0NTAzMjk6MjA4MDQ2NzMyODkwMTczMQ/

[x] http://www.douradosnews.com.br/dourados/i-parada-da-diversidade-de-dourados-sera-na-sexta-feira-50173df990a552/243649/

[xi] http://www.dourados.ms.gov.br/index.php/ii-parada-da-diversidade-promete-agitar-dourados-neste-sabado/

[xii] http://www.perfilnews.com.br/bolsao/parada-gay-de-dourados-acontece-dia-14-de-dezembro

[xiii] http://www.douradosagora.com.br/noticias/entretenimento/cancelada-acao-social-parada-gay-e-mantida

[xiv] (http://centraldenoticiasgays.blogspot.com.br/2009/08/5-parada-gay-de-dourados-ms.html

[xv] http://www.douranews.com.br/index.php/dourados/item/26536-associa%C3%A7%C3%A3o-de-gays-aproveita-confer%C3%AAncia-para-criticar-homofobia

[xvi] https://www.facebook.com/ColetivoOlhares/

[xvii] https://www.youtube.com/watch?v=VwxUwSuSqVg

[xviii] https://www.facebook.com/events/1507186599521776/permalink/1507873412786428/

[xix] https://www.facebook.com/events/1507186599521776/permalink/1507873412786428/

[xx] https://www.facebook.com/events/1507186599521776/permalink/1507873412786428/

(*) É professor de filosofia no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFMS) e membro do Colegiado do Curso de Informática para internet na mesma instituição, mestre em filosofia moderna e contemporânea pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), licenciado em filosofia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), pesquisador do grupo de pesquisa Educação Profissional, Inovação & Interdisciplinaridade (EDUPI) e do Rizoma: coletivo de experimentações indisciplinares, membro do Coletivo Arrasto. Atualmente participa do Coletivo da Parada LGBT+ e, junto ao coletivo, trabalha na organização da próxima PARADA DO ORGULHO LGBT+ INDEPENDENTE de DOURADOS-MS (https://www.facebook.com/events/2061648017450329/)

 

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