08/10/2018 12h58

#ELENAO, Lídia sim! Por que ela tem que estar pelada?

 
 
Cleiton Zóia Münchow Cleiton Zóia Münchow
 

Independentemente do resultado das eleições teremos que lidar com a presença do fascismo no interior de uma sociedade delirante. Deliram-se cristos salvadores para todos os lados, poucos porém desconfiam que deliram. Lídia delirou de forma ativa ao produzir uma obra que não a transforma somente em artista, a obra de Lídia leva a artista ao ato de tornar-se obra de arte. Esse ato encontra-se, por exemplo, no livro que, sob o nome de Maria Tereza Trindade, escreveu para falar de Lídia Baís, tornando-a, assim, personagem da sua própria obra. Esse mesmo movimento foi feito por ela em seus quadros, num deles Lídia pintou-se ao lado de Jesus Cristo na Santa Ceia, foi nele que ela buscou sua salvação. O Cristo de Lídia não empunhava armas, mas amor. Devota de São Franscisco de Assis, ela amava os animais. Para o escândalo de uma Campo Grande sem luz elétrica, ela pintou uma Virgem nua com uma Cruz. Lídia re(e)&istiu sob um domínio tirânico familiar produzido no interior de uma sociedade patriarcal e, por isso mesmo, independentemente do resultado das eleições, Lídia nos interessa. Nela encontramos a potência presente no movimento de mulheres ocorrido no dia 29, a obra de Lídia é um antídoto para o fascismo estruturado no patriarcalismo delirante, Lídia cura sem milagre, talvez este seja o verdadeiro sentido de ser "uma freira solta no mundo", Lídia, como todo ser humano, teve suas fraquezas, mas nunca foi uma fraquejada.

Quem me apresentou Lídia Baís foi uma amiga, Fernanda Reis. Antes de conhece-la eu já havia sido informado de sua existência, as pessoas me falavam dela como se antecipassem um bom encontro: "você que gosta de estudar feminismo, que se interessa por história das mulheres, que atua nos movimentos sociais, que gosta de arte e se interessa por religiões, precisa conhecer a Fernanda". Claro que essas palavras não vieram em conjunto, mas assim formuladas sintetizam uma experiência que se repetiu até que o dia fatídico acontecesse, conheci a Fernanda e logo entendi porque ela era apaixonada por Lídia Baís: Fernanda se interessava por tudo aquilo a respeito do qual me falaram as pessoas que diziam que eu ira dela gostar. E no outro dia, na solidão minoritária de um migrante, recebi no meu trabalho o presente que ela havia me prometido, uma cópia do livro escrito por Lídia. A dedicatória que ela escreveu na capa aumentou, ainda mais, meu desejo por conhecer a artista: "Para Cleiton. Espero que você se delicie com esta linda, louca e apaixonante mulher. Cada vez que leio e releio essa pequena obra, descubro um mundo novo. Não repare os "rabiscos", pois tenho o hábito de dialogar com minhas leituras. Com carinho. Fernanda Reis. P.s: a próxima leitura será meu livro".

Naquela ocasião a ideia do livro, que a borda a vida e a obra de Lídia Baís, ainda era somente um sonho, passados cinco anos ele se transformou em realidade e, amanhã, às 20h, no Casulo, teremos a oportunidade de nos deixarmos contagiar pela potência dessas duas mulheres que sentiram no próprio corpo o peso do patriarcado instaurado em Mato Grosso do Sul. Encontramo-nos em um momento de extremo perigo para todas as pessoas que primam pela liberdade, mas, especialmente, as liberdades minoritárias encontram-se em risco. Lídia, por meio da arte, resistiu a todas às prisões que lhe impuseram, ela soube transformar os preconceitos em arte e, talvez pela sua extemporaneidade, ou talvez porque nosso estado siga dominado pelo patriarcado e por pessoas que desejam relegar as minorias em ilhas distantes da vida pública do estado, é que Lídia segue atual, aliás, mais do que atual, Lídia é aquilo que Nietzsche chamaria de intempestiva.

Amanhã teremos a possibilidade de nos fortalecermos com as potências dessas duas mulheres, mas não só delas, pois do evento também participarão duas outras importantes mulheres que (re)existem aos discursos dominantes do poder que procura diminuir nossas potências minoritárias, Rebecca Loise e Karina Vicelli são mulheres que não se calam, mulheres que não aceitam o lugar que a sociedade tenta impor a elas, ambas, como Fernanda e Lídia, não aceitam nada menos do que a liberdade como forma de vida. Quando comecei a colaborar na organização do evento, uma amiga, depois de olhar a capa do livro LÍDIA BAÍS: ARTE VIDA E METAMORFOSE, me perguntou a razão de existir uma mulher nua na capa, ao que respondi perguntando: por qual razão deveria ela estar vestida? Lídia faz o corpo da mulher escapar à sexualização imposta como natural ao corpo feminino, os corpos nus que aparecem em seus quadros são um grande não a todo olhar que procura capturar o corpo feminino no dispositivo da sexualidade. A artista, seu corpo e sua arte são um grande sim à vida e, por consequência, antecipadores da #elenão que mobilizou uma multidão de mulheres a saírem às ruas do Mato Grosso do Sul, do Brasil e do Mundo. Lídia segue viva e não podemos deixa-la morrer!

Prof. Me.Cleiton Zóia Münchow - Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia de Mato Grosso do Sul -Campus/Dourados - Endereço: R. Filinto Müeller, 1790 - Jardim Santa Maria, Dourados - MS, CEP: 79833-20. Telefone:(67) 3410-8500 Cel: (67)81500924 - Lattes:

 

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