Por Pedro M. Mastrobuono –
Durante muitos anos da minha infância, a ideia de fraternidade nunca esteve limitada aos vínculos de sangue. Havia um homem cuja chegada era aguardada em nossa casa com a naturalidade reservada aos parentes mais próximos. Quando ele atravessava a porta, não era recebido como um visitante. Era recebido como alguém que sempre pertencera à família.
Chamava-se Gustavo Fernández Saavedra. Para o mundo, viria a ser um dos grandes diplomatas bolivianos, chanceler de seu país em diferentes momentos de sua história e uma das vozes mais respeitadas da integração latino-americana. Para mim, entretanto, ele era simplesmente Toto.
Durante muitos anos sequer compreendi que não existia entre ele e meu pai qualquer parentesco biológico. Tratavam-se por irmãos. Meu irmão querido. Era assim que se chamavam.
Hoje percebo que aquela forma de tratamento dizia muito mais do que qualquer árvore genealógica. Era a expressão de uma fraternidade construída pela vida, pelas ideias, pelas dificuldades compartilhadas e por um sonho comum de América Latina.
Aos poucos fui compreendendo que aquele vínculo não era uma exceção. Fazia parte de uma geração inteira de homens e mulheres que acreditava que nossas fronteiras nacionais eram menores do que nossa comunidade de destino.
Meu pai viveu o exílio depois do golpe militar de 1964. Foi preso diversas vezes antes de deixar o Brasil e reconstruir a vida no Peru. Foi ali que aprofundou uma paixão que o acompanharia pelo resto da existência: a cultura andina.
Falava quéchua fluentemente. Mais do que isso, pensava o mundo também através da cosmovisão dos povos andinos. Hoje sei que as cartas trocadas entre ele e Toto eram escritas em quéchua.
Esse detalhe, aparentemente pequeno, talvez diga mais sobre aqueles homens do que longos discursos sobre integração latino-americana. Eles poderiam ter escolhido o espanhol. Poderiam ter escrito em português.
Escolheram, entretanto, uma das mais antigas línguas vivas da América do Sul. Não era apenas um idioma. Era uma forma de reconhecer que a identidade latino-americana não começava nos Estados nacionais, mas muito antes deles.
Naqueles mesmos anos, José María Arguedas ocupava um lugar central na vida intelectual peruana. Meu pai sempre falou dele com profunda admiração.
Não conservo uma lembrança suficientemente nítida que me permita descrevê-lo pessoalmente, mas essa presença sempre pertenceu à memória de nossa família. Hoje, conhecendo melhor o ambiente acadêmico de Lima daqueles anos e a profunda identificação de meu pai com a cultura quéchua, essa lembrança adquire ainda mais significado. Arguedas talvez tenha sido um dos maiores intérpretes da alma andina.
Recusava a ideia de que o Peru fosse dividido entre dois mundos inconciliáveis. Via na cultura indígena não um vestígio do passado, mas uma força viva, capaz de dialogar com a modernidade sem perder sua identidade.
Meu pai parecia compartilhar dessa mesma convicção. Muito tempo depois, outro testemunho ajudaria a iluminar aquele universo que eu apenas intuía quando criança.
José “Pepe” Mujica recordou publicamente os anos em que jovens uruguaios acolhiam brasileiros perseguidos pela ditadura e descreveu a rede de solidariedade que se formava entre intelectuais, antropólogos, educadores e exilados latino-americanos. Ao fazê-lo, mencionou o ambiente em que Darcy Ribeiro convivia com importantes antropólogos uruguaios e outros pensadores do continente. Seu relato revelou que aqueles encontros não eram episódios isolados.
Existia uma verdadeira comunidade intelectual latino-americana. Uma rede construída menos por instituições do que por pessoas. Menos por tratados diplomáticos do que por confiança. Menos por interesses do que por amizade. Talvez tenha sido essa a primeira forma de integração latino-americana.
Antes de existir como projeto político, ela já existia como experiência humana. Existia nas casas. Nas conversas. Nas universidades. Nas cartas. Nas refeições compartilhadas. Na hospitalidade oferecida aos perseguidos. Na circulação de livros. Na convivência entre homens que acreditavam pertencer a um mesmo destino continental.
Nesse universo, Darcy Ribeiro ocupa um lugar singular. Costumamos lembrá-lo como antropólogo, educador, senador, ministro ou escritor. Tudo isso é verdadeiro. Mas talvez sua maior contribuição tenha sido outra. Darcy compreendeu que uma civilização não se constrói apenas por ideias. Constrói-se por amizades capazes de transformar ideias em instituições.
Há intelectuais cuja principal obra são os livros que escreveram. Darcy pertenceu à rara categoria daqueles cuja maior obra talvez tenha sido as instituições que ajudou a criar. Universidades. Centros de pesquisa. Museus. Projetos educacionais. Espaços destinados a continuar produzindo pensamento quando ele próprio já não estivesse presente. Talvez por isso sua obra continue tão atual. Ela nunca separou conhecimento e responsabilidade.
Enquanto relembro essas histórias de minha infância, percebo que elas deixaram de ser apenas lembranças familiares. Transformaram-se em parte da história da América Latina.
Quando criança, eu acreditava que Toto era simplesmente um tio. Hoje compreendo que ele representava muito mais do que isso. Representava uma geração que acreditava que a amizade também podia ser uma forma de fazer política. Que a cultura podia aproximar povos. Que a educação podia unir países. Que uma língua indígena podia tornar-se o idioma da fraternidade entre um brasileiro e um boliviano.
Talvez tenha sido essa convivência que me levou, muitos anos depois, a compreender de maneira ainda mais profunda o pensamento de Darcy Ribeiro.
Ao longo dos últimos anos, tive o privilégio de participar da criação do Distrito Acadêmico e Científico Latino-Americano, reunindo universidades como USP, Unicamp, Unesp e o Memorial da América Latina em torno de um projeto comum. Paralelamente, nasceu o Centro de Ensino Superior Darcy Ribeiro, do qual tenho a honra de ser sócio-fundador e primeiro reitor.
Muitas vezes me perguntam por que insistir na construção de novas instituições. Hoje acredito conhecer a resposta. Porque foi exatamente isso que aprendi observando aqueles homens.
Darcy, Arguedas, Toto e tantos outros compreenderam que a integração latino-americana não poderia sobreviver apenas como discurso. Ela precisava adquirir forma. Precisava tornar-se universidade. Precisava tornar-se pesquisa. Precisava tornar-se intercâmbio. Precisava tornar-se convivência. Precisava tornar-se futuro.
Quando penso em meu pai e em Toto, já não vejo apenas dois grandes amigos. Vejo duas biografias que recusaram permitir que as fronteiras nacionais fossem maiores do que a fraternidade humana.
Talvez essa seja a verdadeira integração latino-americana. Não aquela que começa nos tratados internacionais. Mas aquela que começa quando um brasileiro escreve uma carta em quéchua para um boliviano e recebe a resposta na mesma língua.
Todo o restante talvez seja apenas consequência.
(*) Pedro Machado Mastrobuono é presidente da Fundação Memorial da América Latina, pós-doutor em Antropologia Social e foi agraciado com a Comenda Câmara Cascudo do Senado Federal por sua trajetória na proteção ao patrimônio cultural nacional. Ex-presidente do IBRAM -Instituto Brasileiro de Museus, além de sócio fundador e ex-presidente do Instituto Alfredo Volpi de Arte Moderna. É doutor honoris causa da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Idealizador do “Distrito Acadêmico e Científico Latino-Americano”, com a cooperação entre USP, Unicamp e a Unesp, bem como do “Centro de Ensino Superior Darcy Ribeiro”, sócio – fundador e primeiro reitor.




