O irmão de Ritchie Glaycon Rodrigues Viana, de 27 anos, afirmou aos peritos responsáveis pelo exame de sanidade mental que chegou a alertar a mãe sobre o comportamento do investigado antes do crime. “Eu falei com ela para tomar atitude, senão ele ia matá-la”, declarou. As declarações constam no laudo pericial que a Record Minas teve acesso.
O depoimento integra o laudo que concluiu que o homem apresentava um quadro psicótico no momento em que matou e decapitou a própria mãe, Jussara Maria Rodrigues, em Belo Horizonte.
Segundo o irmão, o comportamento de Ritchie mudou completamente após ele retornar de Portugal, onde viveu por cerca de seis anos. “Ele voltou totalmente diferente de Portugal. Parecia que estava em outro mundo. Parecia disperso, como se não reconhecesse o lugar, apesar de ter passado a infância aqui”, relatou.
Ainda conforme o depoimento, a mãe dizia que o filho afirmava estar doente desde o período em que morava no exterior e tentava convencê-lo a buscar tratamento, mas ele recusava atendimento médico. “Minha mãe falava que marcou no posto de saúde, mas ele não quis ir”, disse.
O irmão também contou que o investigado passou a apresentar comportamento agressivo dentro de casa, principalmente após conflitos envolvendo dinheiro. Segundo ele, Ritchie dizia que Jussara “não era mãe dele, era apenas a genitora”, já havia agredido a vítima fisicamente e permanecia isolado no quarto durante boa parte do tempo. Antes da mudança para Portugal, porém, o relacionamento entre mãe e filho era considerado tranquilo. “Ele não era assim não. Antes de ir para Portugal, era fácil de lidar com ele”, afirmou.
No relato aos peritos, o irmão também descreveu episódios que demonstrariam o agravamento do quadro comportamental. Segundo ele, durante uma discussão, Ritchie queimou a Bíblia da mãe e a provocou dizendo: “Eu quero ver o seu Deus te salvar”. Apesar das preocupações, Jussara acreditava que o filho estava doente e que conseguiria ajudá-lo.
O laudo de sanidade mental concluiu que Ritchie não apresenta dependência de álcool ou drogas, mas sofre de um quadro psicótico (CID-10 F29). Para os peritos, a doença mental comprometeu totalmente sua capacidade de compreender o caráter ilícito dos atos e de agir conforme esse entendimento no momento do crime.
As conclusões do exame também encontram respaldo em declarações dadas pelo próprio investigado durante a audiência de custódia e registradas no processo. Em um dos trechos, ele afirmou que via a mãe como “um robô mal programado” e justificou o assassinato dizendo que tentava cumprir um objetivo para “salvar a mim e a minha geração”.
Em outro momento, ao explicar por que cantava durante o deslocamento para a delegacia, declarou: “Eu crio minhas próprias músicas. Eu estava cantando no caminho para a delegacia. A pergunta seria: ‘Por que não cantar, se eu já estava sendo preso mesmo?’. Eu tenho talento para arte, gastronomia e música”.
De acordo com os autos, o investigado também fez outras declarações desconexas ao longo do depoimento, compatíveis com o quadro psiquiátrico apontado pelos especialistas.
Relembre o crime
O crime ocorreu na manhã de 22 de junho, no bairro Cachoeirinha, na região Nordeste de Belo Horizonte. Familiares estranharam a falta de contato com Jussara Maria Rodrigues e acionaram a Polícia Militar. Como ninguém atendia à porta do apartamento, os militares arrombaram a entrada e encontraram a mulher morta. O filho dela estava no imóvel, confessou o assassinato e indicou onde o corpo estava.
A vítima foi encontrada decapitada e com diversas perfurações provocadas por faca. Após a perícia da Polícia Civil, o corpo foi encaminhado ao Instituto Médico-Legal (IML). O suspeito foi preso em flagrante e levado ao Hospital Odilon Behrens, onde permaneceu sob escolta policial.
Desde os primeiros dias da investigação, familiares relataram que o jovem apresentava comportamento compatível com esquizofrenia, embora não houvesse, até então, um diagnóstico formal anexado ao processo. Eles afirmaram que ele se recusava a fazer acompanhamento médico. Posteriormente, durante a audiência de custódia, o próprio investigado declarou ter sido diagnosticado com esquizofrenia em 2020, quando morava em Portugal, mas disse que interrompeu o tratamento e deixou de tomar a medicação após retornar ao Brasil.
Diante desses indícios, a Justiça autorizou a realização do exame de sanidade mental, solicitado pela Polícia Civil, justamente para avaliar se o investigado tinha capacidade de compreender o caráter ilícito dos atos praticados no momento do crime. O laudo agora confirma que, na avaliação dos peritos, ele estava em um quadro psicótico que comprometeu completamente seu discernimento.
A motivação do homicídio continua sendo investigada pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). Vizinhos relataram que mãe e filho haviam discutido recentemente por questões relacionadas ao apartamento onde moravam, mas a Polícia Civil ainda apura as circunstâncias e o que levou ao assassinato.
(Informações R7)




