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Outro ‘Super El Niño’ está se formando, e cientistas buscam solução controversa para enfraquecê-lo

Um Super El Niño está se formando e pode ser o mais intenso em décadas, ameaçando provocar um aumento dramático de eventos climáticos extremos e mortais. Mas e se houvesse uma maneira de os seres humanos reduzirem os impactos devastadores dos El Niños mais severos ao escurecer temporariamente a luz do Sol?

Essa é a questão investigada por um grupo de cientistas em um novo estudo publicado nesta quarta-feira (8) na revista científica Science Advances.

O El Niño é um padrão climático natural que se origina no oceano Pacífico tropical e normalmente eleva as temperaturas globais e intensifica eventos climáticos extremos. Seus efeitos são agravados pelas mudanças climáticas causadas pela ação humana, que aumentam a temperatura média do planeta e tornam os anos de El Niño cada vez mais extremos, com consequências devastadoras para vidas humanas e economias ao redor do mundo.

O estudo, liderado por cientistas da Instituição Scripps de Oceanografia, analisou se uma técnica altamente controversa conhecida como geoengenharia solar poderia ser usada para amenizar o calor extremo, os incêndios e outros impactos associados ao El Niño.

Especificamente, os pesquisadores examinaram o chamado “clareamento de nuvens marinhas” (marine cloud brightening), um método que consiste em pulverizar partículas nas nuvens sobre os oceanos para refletir parte da luz solar de volta ao espaço, reduzindo o aquecimento da Terra.

Os cientistas não puderam realizar experimentos reais de geoengenharia devido ao risco de “consequências desastrosas não intencionais”. Em vez disso, recorreram a um “experimento natural”, conforme explicaram em comunicado divulgado junto ao estudo.

Os incêndios florestais do chamado “Verão Negro” da Austrália, entre 2019 e 2020, queimaram dezenas de milhões de hectares e contribuíram para a morte de centenas de pessoas. Eles também produziram enormes plumas de fumaça repletas de partículas refletoras da luz solar, que se misturaram às nuvens sobre o Oceano Pacífico.

Pesquisas anteriores mostraram que essas nuvens extremamente refletivas devolveram mais energia solar ao espaço e resfriaram o Pacífico, contribuindo para o surgimento posterior de um evento La Niña, fenômeno oposto ao El Niño que tende a reduzir as temperaturas globais.

Os pesquisadores isolaram os efeitos do clareamento das nuvens causados pelos incêndios australianos e utilizaram modelos climáticos para simular o impacto de um evento semelhante antes de dois episódios historicamente fortes de El Niño: um iniciado em 1997 e outro em 2015.

Eles descobriram que o clareamento direcionado das nuvens marinhas poderia reduzir os impactos do El Niño e ampliar em cerca de 40% os efeitos de resfriamento e de redução de chuvas associados ao La Niña. Segundo o estudo, quanto mais cedo a técnica for aplicada durante o desenvolvimento do El Niño, mais eficaz ela tende a ser.

Técnica divide opiniões
A geoengenharia é um tema altamente controverso. Alguns especialistas acreditam que ela é perigosa demais para sequer ser considerada, devido ao enorme número de possíveis efeitos colaterais indesejados. Eles também alertam que a técnica poderia precisar ser mantida indefinidamente para evitar um possível “choque de interrupção” — um aumento abrupto e catastrófico das temperaturas caso a geoengenharia seja iniciada e depois interrompida.

No entanto, a proposta avaliada neste estudo é diferente, afirmou Kate Ricke, autora da pesquisa e cientista climática da Scripps Oceanography e da Escola de Política Global e Estratégia da Universidade da Califórnia em San Diego.

Segundo ela, a ideia seria usar a geoengenharia como uma ferramenta temporária para enfrentar eventos sazonais ou plurianuais específicos que têm alta probabilidade de causar grandes danos.

“Não é algo ao qual você estaria permanentemente comprometido”, disse.

Ricke ressaltou que o estudo não defende a aplicação da geoengenharia.

“Trata-se apenas de uma prova de conceito. A única coisa que demonstramos é que vale a pena estudar essa possibilidade mais profundamente”, afirmou.

Possíveis desvantagens
Os próprios pesquisadores reconhecem várias limitações. O El Niño é um fenômeno extremamente complexo e, embora provoque trilhões de dólares em perdas econômicas globais, nem todas as regiões sofrem igualmente.

Algumas áreas até dependem de seus efeitos. A Califórnia, por exemplo, utiliza as chuvas intensas associadas ao El Niño para reabastecer reservatórios de água, ainda que essas precipitações também possam causar danos.

Outro ponto importante será entender como a técnica influenciaria a frequência, intensidade e duração de eventos futuros de La Niña, além dos impactos específicos em diferentes regiões do planeta.

“É preciso pensar cuidadosamente sobre as compensações”, disse Ricke. Segundo ela, talvez faça mais sentido considerar a geoengenharia em casos de Super El Niños, quando a maioria das pessoas e regiões tende a ser prejudicada e os eventos extremos mais destrutivos se tornam mais prováveis.

Muitas dúvidas ainda permanecem
James Haywood, professor de ciência atmosférica da Universidade de Exeter e que não participou da pesquisa, afirmou que ainda existem “muitas, muitas perguntas sem resposta” sobre a viabilidade do clareamento de nuvens marinhas como método para controlar o clima.

Entre os desafios está a necessidade de produzir partículas no tamanho e na quantidade corretos para gerar o efeito de resfriamento desejado.

“E também existe a questão: o que acontece se exagerarmos?”, afirmou, mencionando a possibilidade de desencadear um evento de La Niña extremamente intenso, muito mais forte do que qualquer um já registrado.

Eventos de La Niña também podem provocar condições climáticas severas, incluindo chuvas extremas e inundações em partes da Ásia e da Austrália, além de períodos mais secos que o normal em regiões da América do Sul e dos Estados Unidos.

“Estamos muito longe de sermos capazes de implementar tecnologias desse tipo e de saber se elas funcionariam conforme o planejado”, disse.

David Keith, professor de Ciências Geofísicas da Universidade de Chicago, também apontou obstáculos tecnológicos.

“Quase duas décadas após o início das pesquisas, os pulverizadores usados para clareamento de nuvens marinhas ainda possuem taxas de dispersão pelo menos cem vezes menores do que o necessário para uso prático”, afirmou.

Segundo ele, embora a técnica possa ser fisicamente possível, atualmente “a tecnologia simplesmente não existe”.

Questões éticas
Além dos desafios técnicos, especialistas apontam dilemas éticos importantes.

Quem decidiria se o mundo deve adotar uma técnica como essa? E a geoengenharia poderia desviar a atenção dos esforços para reduzir as emissões de gases de efeito estufa responsáveis pelo aquecimento global?

Embora essas questões não façam parte do escopo do estudo, Ricke reconheceu que ainda há muito a ser investigado.

“Precisamos compreender muito mais”, disse. “Mas se existir uma forma de utilizar essa técnica para reduzir os impactos dos El Niños, por que não considerá-la?”

(Informações R7)

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