Imagem panorâmica do distrito, próximo a uma das lavras - Foto Saul Schramm
(Extração de minério gera lucros, empregos e infraestrutura, mas ainda é grande ameaça à saúde das pessoas e da natureza)
Edson Moraes (*) –
"A tristeza tomou a margem,
Pela ganância sem coração,
Homens, mulheres e crianças
Sofrem no abandono da nação.
As chatas descem o Paraguai,
Levando riqueza para além,
Mas derrubam a terra que resta
E não deixam futuro a ninguém"
O Grupo Acaba gravou esta composição de um de seus membros e intérpretes fundadores, Moacir Lacerda. "SOS Porto Esperança", o título da canção, é um apelo atual e revelador, que expõe as faces antagônicas de uma mesma moeda no custo-benefício do progresso. Um pequeno e acolhedor distrito de Corumbá, com pouco mais de 800 habitantes e às margens do Rio Paraguai, atravessado pelos trilhos da antiga Ferrovia da NOB (Noroste do Brasil), Porto Esperança vive ilhada entre a euforia dos lucros gerados pelas mineradoras e os impactos negativos decorrentes de uma atividade sem o controle adequado.
Corumbá e Ladário formam o principal polo extrativo de ferro e manganês de Mato Grosso do Sul. Abrigam a maior reserva nacional de manganês de alto teor e o terceiro maior depósito de ferro do Brasil, em especial nas minas do Maciço do Urucum. A região também se destaca na extração de calcário, dolomito, mármore, areia e argila. Corumbá tem a 23ª produção mineral no País. Juntos, os dois municípios respondem por cerca de 75% de toda a arrecadação da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM) no Estado.
PRÓS E CONTRAS - Os números positivos impressionam. Em 2025 Corumbá liderou o ranking estadual de arrecadação (royalties) no setor, faturando R$ 28,16 milhões, enquanto Ladário arrecadou R$ 8,16 milhões, atraindo aportes bilionários, com o setor movimentando bilhões em Valor de Produção Mineral (VPM). Estas indústrias geram cerca de 3.000 empregos diretos e milhares de vagas indiretas em setores como logística, manutenção e transporte hidroviário. Herdeira da Mineração Corumbaense Reunida, a LHG Mining é a maior empregadora: mais de 2.700 postos de trabalho.
Tudo isso, entretanto, não compensa os prejuízos e sequer ameniza problemas de saúde, ambientais, de mobilidade e acessibilidade nas áreas de lavra na região do Pantanal. Comunidades, o rico e frágil ecossistema e a malha viária, com suas estradas e pontes, são duramente atingidos. O tráfego pesado, a poeira mineral e a poluição do ar e da água deixaram de ser uma ameaça e se transformaram em eventos concretos de ameaças à saúde humana, à biodiversidade e aos recursos hídricos.
Conforme os relatos de moradores, textos e imagens de diversas reportagens, o pó avermelhado invade casas e localidades ribeirinhas, causando doenças como a asma, bronkite, rinite, irritação nos olhos e dermatites. Distúrbios do sono são associados ao barulho ininterrupto das máquinas e caminhões, assim como especialistas advertem sobre o risco de contaminação por partículas mineais na água que é consumida pelas comunidades.
Até mesmo o rebaixamento do lençol freático e o assoreamento de cursos d’água do Pantanal constam das preocupações. "A rotina dos moradores do distrito de Porto Esperança, em Corumbá, mudou nos últimos anos após a chegada de uma estrada. A obra acabou com o isolamento da comunidade, mas trouxe aumento no fluxo de caminhões de minério, o que tem assustado moradores por causa da poeira e do barulho constantes", observa o site G1, da Rede Globo.
O texto acrescernta: "Em um dos trechos da comunidade, nem mesmo a grade instalada consegue impedir a entrada do barulho e da poeira nas casas. Diante da situação, a Associação de Moradores de Porto Esperança denunciou o caso ao Ministério Público Estadual e Federal. Imagens anexadas à denúncia mostram móveis e eletrodomésticos cobertos por pó de minério, além da estrada tomada por caminhões. Após a denúncia, caminhões-pipa passaram a molhar a estrada para reduzir a poeira. Ainda assim, moradores afirmam que o problema do barulho e do tráfego intenso continua".
AUDIÊNCIA - No dia 11 deste mês o drama foi debatido durante audiência pública em Corumbá, realizada pelo Imasul (Instituto de Meio Ambiente ), órgão do governo estadua. Com o Centro de Convenções do Pantanal superlotado, o evento abordou os impactos ambientais e sociais do projeto de expansão do terminal privativo Gregório Curvo, que opera em Porto Esperança há 47 anos.
Mediado pelo presidente do Instituto, André Barros de Araújo, o evento reuniu diretores da LHG Mining e da Amplo Engenharia, além de ambientalistas, pesquisadores e lideranças regionais. A empresa garantiu reforço nas medidas de prevenção de danos e proteção das pessoas e da natureza. As ações incluem programas de controle de ruído, vibrações e velocidade, manutenção dos veículos, implantação de cortina arbórea, monitoramento da qualidade do ar e da fumaça preta, aspersão de vias e de pilhas de minério.
Também foi anunciada a execução do Plano de Recuperação de Áreas Degradadas. Contudo, segundo o músico e co-fundador do Grupo Acaba, Moacir Lacerda, natural de Porto Esperança e com frequência vai ao distrito, ainda é cedo para crer que as medidas anunciadas resultarão em efetivas garantias. Ele defende o desenvolvimento, "desde que tenha como razão, suporte e destino a sustentabilidade do Homem e do meio ambiente. Sem isto, restam ao porto e ao bioma que o emoldura o apelo e a advertência na canção do Acaba:
"Será outra Mariana perdida?
Será mais um lugar a acabar?
Socorro pedem os ribeirinhos,
Clamam aos homens e ao mar.
Clamam aos deuses do Pantanal,
À memória de um tempo melhor,
Quando havia fartura e alegria,
E a esperança era maior".
(*) Jornalista e escritor –
Uma área de lavra com produtos minerais para transporte – ReproduçãoO governo estadual fez pontes e a estrada até Porto Esperança – Foto Saul SchrammCaminhões transpordando minério: uma rotina diária – Foto Saul Schramm
Moacir Lacerda, do Grupo Acaba: música, protesto e apelo – Instagram