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Praças vazias, árvores insuficientes: a crise do encontro humano em Dourados

Reinaldo de Mattos Corrêa –

No fim da tarde, em muitos bairros de Dourados, o concreto parece dominar até o horizonte. Praças espalhadas pela cidade exibem bancos vazios, brinquedos castigados pelo sol e extensões de cimento incapazes de acolher permanência humana durante grande parte do dia. Em diversas áreas públicas, a arborização surge de forma tímida, insuficiente para produzir sombra ampla e conforto térmico. O resultado aparece na rotina urbana: espaços concebidos para convivência acabam funcionando apenas como locais de passagem rápida sob temperaturas elevadas.

A paisagem revela um paradoxo inquietante. Em vez de cumprir função climática e social, parte da vegetação urbana passou a ocupar papel meramente ornamental. Pequenas árvores decorativas, muitas vezes inadequadas para gerar sombra consistente, convivem com extensões largas de concreto que acumulam calor ao longo do dia. Caminhar por determinadas praças de Dourados significa atravessar áreas expostas ao sol intenso, sem proteção adequada para crianças, idosos ou trabalhadores que buscam descanso. O espaço público deixa de convidar ao encontro quando o próprio ambiente expulsa a permanência humana.

Especialistas em urbanismo apontam que cidades de clima quente necessitam de planejamento baseado em conforto térmico, arborização densa e superfícies capazes de reduzir a retenção de calor. Em Dourados, entretanto, muitas praças seguem lógica inversa: excesso de concreto, poucas árvores de copa ampla e ausência de soluções ecológicas. Em diversos pontos, calçadas tradicionais poderiam dar lugar a modelos ecológicos, com materiais drenantes e áreas permeáveis capazes de reduzir temperatura, melhorar absorção da água da chuva e tornar o ambiente mais agradável para circulação e convivência.

A crise das praças não envolve apenas estética urbana. Existe uma transformação profunda no modo como a cidade produz convivência. Quando espaços públicos se tornam quentes, áridos e desconfortáveis, desaparece também a permanência espontânea das pessoas. Crianças deixam de brincar ao ar livre, idosos evitam caminhadas e vizinhos perdem oportunidades cotidianas de encontro. A praça, historicamente concebida como território democrático de convivência popular, passa a funcionar como cenário vazio, incapaz de estimular vida comunitária.

Em muitos bairros douradenses, a ausência de sombra adequada revela uma concepção limitada sobre natureza urbana. Árvores não representam apenas decoração paisagística; elas funcionam como infraestrutura climática, elemento de saúde pública e instrumento de humanização das cidades. Uma praça arborizada reduz temperatura, melhora qualidade do ar e cria sensação de acolhimento coletivo. Sem cobertura vegetal robusta, o espaço urbano endurece física e emocionalmente. O concreto aquece o ambiente enquanto o isolamento esfria as relações humanas.

No centro dessa discussão emerge uma pergunta perturbadora: que tipo de sociedade constrói praças onde existe paisagem, mas falta abrigo para o corpo humano permanecer? A questão ultrapassa arquitetura ou jardinagem. Existe uma escolha política e cultural na maneira como cidades tratam o espaço coletivo. Ambientes urbanos incapazes de oferecer sombra, descanso e convivência revelam uma lógica que prioriza circulação rápida em vez de permanência, consumo em vez de encontro, aparência em vez de experiência humana concreta.

Dourados cresce, expande bairros e amplia avenidas, porém parte das áreas públicas continua distante das necessidades reais da população. Recuperar o valor das praças exige mais do que instalar bancos ou trocar luminárias. Significa compreender que cidades saudáveis dependem de árvores amplas, calçadas ecológicas, espaços permeáveis e ambientes capazes de acolher pessoas durante o calor intenso do Mato Grosso do Sul. Uma praça viva não nasce apenas do cimento; nasce da sombra, da permanência e da possibilidade humana de permanecer diante do outro sem pressa para partir.

*Reinaldo de Mattos Corrêa

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