Redação –
Uma Casa de Axé de Campo Grande denunciou um possível caso de intolerância e racismo religioso após uma abordagem realizada por policiais civis na segunda-feira (20). Segundo a instituição, agentes armados abordaram a dirigente religiosa e frequentadores do templo, apontaram armas durante a ação e entraram no espaço religioso sem apresentar mandado judicial.
A denúncia foi feita pelo Ilè Ajunsun Àse Oju Osun e pela Tenda de Umbanda Cacique Ubirajara, entidades vinculadas à Associação Brasileira dos Religiosos das Tradições de Matrizes Africana, Afro-Brasileira e Indígenas (ABL Afro Brasil Legaliza).
Conforme nota divulgada pelas instituições, a abordagem ocorreu quando a ialorixá Janaína Gonçalves Guimarães, conhecida como Iya Janaína de Obaluaê, chegava ao templo acompanhada de filhos de santo, todos vestidos com roupas brancas e trajes tradicionais da religião. Segundo o relato, policiais civis interceptaram o veículo, apontaram armas de fogo para os ocupantes e, posteriormente, entraram na Casa de Axé.
De acordo com a instituição, os policiais informaram que atendiam a uma denúncia de maus-tratos a animais. Durante a fiscalização, no entanto, teriam encontrado apenas cães e gatos saudáveis, alimentados e mantidos no local.
Em nota pública, a Casa de Axé afirmou que não se opõe à realização de fiscalizações, mas defendeu que qualquer diligência deve respeitar os limites da legislação e não pode ser motivada por discriminação religiosa.
A entidade também mencionou que o episódio ocorreu dias após a participação da ialorixá em uma manifestação pública contra a intolerância religiosa, realizada em 12 de julho. Segundo a instituição, desde então, ela e integrantes da comunidade passaram a relatar episódios de constrangimento, discriminação e intimidação. A defesa ressalta, entretanto, que não há comprovação de que os dois fatos estejam relacionados.
O advogado Gialyson Corrêa, que representa a Casa de Axé, afirmou que a proximidade entre os episódios justifica uma investigação independente.
“Não se pode afirmar, antes da conclusão das investigações, que exista uma relação direta entre a manifestação do dia 12 e a abordagem do dia 20. No entanto, a proximidade temporal entre os fatos, somada aos relatos de intimidação e discriminação ocorridos após o protesto, exige uma apuração séria, independente e transparente”, declarou.
O advogado também destacou que o Supremo Tribunal Federal (STF) reconhece a constitucionalidade do sacrifício ritual de animais em religiões de matriz africana, desde que realizado sem crueldade, e que essa prática não pode ser automaticamente associada a maus-tratos.
Na manifestação pública, as instituições solicitaram a apuração da conduta dos policiais envolvidos, esclarecimentos sobre a origem da denúncia de maus-tratos, a apresentação dos fundamentos jurídicos que embasaram a entrada no templo e a adoção de medidas para prevenir novos episódios de discriminação contra comunidades de matriz africana.
As entidades informaram ainda que imagens da abordagem foram preservadas e serão encaminhadas às autoridades competentes para auxiliar nas investigações.
A reportagem procurou a Polícia Civil de Mato Grosso do Sul para comentar o caso, mas, até a publicação desta matéria, não havia recebido resposta. O espaço permanece aberto para manifestação da instituição.



