Paulo Marcos Esselin – Professor Titular aposentado
Neste início do período pré-eleitoral, assistimos diariamente a uma sucessão de discursos e impropérios de candidatos em busca de votos. Alguns chegam ao ponto de transformar categorias funcionais em supostas classes sociais. Há pouco tempo ouvimos a expressão “classe dos políticos”. Agora surgiu outra: “classe dos vereadores”. Daqui a pouco, talvez inventem até um novo modo de produção.
Esses são justamente aqueles que pretendem representar a população no Senado, na Câmara dos Deputados, na Assembleia Legislativa e no Governo do Estado.
Convém lembrar que vereador, deputado, senador, governador e presidente da República não constituem classes sociais. São funções públicas temporárias exercidas no âmbito do Estado. O ocupante desses cargos pode ser empresário, trabalhador, profissional liberal, servidor público ou produtor rural. A condição funcional não altera sua posição de classe.
Sob a perspectiva da Sociologia, as classes sociais são definidas pela relação dos indivíduos com os meios de produção — terras, indústrias, empresas, máquinas e capital — e não pelo cargo político que eventualmente ocupam.
A mais recente inovação conceitual partiu de um jornalista, que criou a curiosa expressão “coronelismo por tempo de serviço”. Segundo essa lógica, qualquer pessoa com sessenta e quatro anos de vida pública automaticamente se transformaria em “coronel”, independentemente de sua trajetória política, de suas posições ideológicas ou das causas que tenha defendido.
Vale recordar a conhecida advertência atribuída ao escritor H. L. Mencken: “Para cada problema complexo existe uma solução simples, clara e errada.”
Historicamente, o coronelismo possui significado bastante definido. Refere-se ao sistema político característico da República Velha, baseado no poder concentrado de grandes proprietários rurais que controlavam a economia local, influenciavam eleições e exerciam forte domínio político e social sobre suas regiões.
Esses chamados “coronéis” mantinham sua influência por meio do clientelismo, do empreguismo, do compadrio, do favoritismo político, da barganha eleitoral e, em muitos casos, da violência. As populações indígenas, os negros e os trabalhadores rurais conhecem bem essa realidade histórica.
Foi justamente nesse contexto que o jornalista publicou um vídeo nas redes sociais atribuindo a condição de “coronéis” ao falecido advogado Nelson Trad e ao seu filho, o advogado e professor universitário Fabio Trad.
Ambos construíram suas trajetórias como profissionais liberais e professores universitários, não sendo historicamente identificados como integrantes da elite fundiária que caracterizou o coronelismo clássico.
A declaração surgiu após entrevista concedida por Fabio Trad, então pré-candidato ao Governo do Estado, na qual afirmou ser necessário retirar do poder grupos políticos que, segundo sua avaliação, ainda preservariam práticas, costumes e estruturas associadas ao coronelismo, especialmente ligadas à concentração fundiária e ao exercício tradicional do poder político.
Em resposta, o jornalista sustentou que os verdadeiros “coronéis” seriam membros da família Trad, argumentando que Nelson Trad exerceu atividades políticas por longo período, desde a década de 1960, enquanto o atual governador possuiria trajetória política mais recente.
Entretanto, a trajetória de Nelson Trad merece ser analisada em seu contexto histórico: “Quando integrou a chapa de Antônio Mendes Canale como candidato a vice-prefeito de Campo Grande, não possuía vínculos com o latifúndio ou com a política rural tradicional. Ao contrário, participava da defesa das Reformas de Base propostas pelo governo de João Goulart, entre elas a Reforma Agrária.”
Importante destacar que: “em razão de sua atuação política e da defesa de trabalhadores rurais e camponeses, foi preso, perseguido e teve seus direitos políticos cassados após o golpe civil-militar de 1964, retornando à atividade política apenas com a redemocratização.”
Durante mais de duas décadas enfrentou as consequências da repressão política. Entre suas atuações profissionais está a defesa do padre Francisco Jentel, reconhecido por sua atuação em favor de camponeses e povos indígenas na região do Araguaia.
Já em relação ao governador Eduardo Riedel, sua trajetória pública possui origem distinta. Sua trajetória pública está profundamente vinculada à representação institucional do agronegócio. Antes de ingressar na administração estadual, presidiu o Sindicato Rural de Maracaju, posteriormente a Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul) e integrou a direção da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
Foi durante sua gestão na Famasul que ocorreu o episódio conhecido como “Leilão da Resistência”, realizado em meio aos conflitos fundiários envolvendo produtores rurais e comunidades indígenas em Mato Grosso do Sul. O evento gerou ampla repercussão nacional e intensa controvérsia, pois foi apresentado como iniciativa destinada à arrecadação de recursos para fortalecer a reação de produtores rurais diante dos processos de demarcação de terras indígenas. À época, críticos sustentaram que os recursos poderiam estimular a contratação de segurança privada armada e a intensificação dos conflitos, enquanto representantes do setor rural defenderam tratar-se de uma mobilização em defesa do direito de propriedade.
“Independentemente das interpretações políticas sobre aquele episódio, trata-se de um marco relevante para compreender a origem política do atual governador e sua identificação histórica com os interesses organizados do setor agropecuário.”
Essa vinculação também se manifesta no debate sobre as prioridades orçamentárias do Estado. Segundo dados das leis orçamentárias e dos demonstrativos fiscais, as renúncias de receitas tributárias destinadas principalmente ao setor do agronegócio alcançam aproximadamente R$ 11,95 bilhões, montante superior ao orçamento conjunto destinado a áreas essenciais como saúde, educação e segurança pública, que gira em torno de R$ 9 bilhões. Trata-se de um dado que alimenta o debate público acerca das prioridades fiscais adotadas pelo Estado e da distribuição dos recursos públicos.
Neste debate público, é legítimo discutir o peso político do agronegócio, das políticas de incentivos fiscais, da concentração fundiária e da influência econômica exercida por determinados setores sobre as decisões do Estado. Da mesma forma, é legítimo questionar a distribuição dos recursos públicos e seus impactos sobre áreas essenciais como saúde, educação e segurança pública, desde que tais discussões estejam fundamentadas em dados objetivos. Ao final, cabe ao eleitor avaliar os argumentos apresentados por cada lado e formar seu próprio juízo.
Encerro lembrando uma frase de George Orwell que continua atual:
“A função do jornalista é publicar aquilo que desagrada o poder; o resto é propaganda.”




