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Flávio Bolsonaro vai aos EUA em busca de Trump e agenda positiva em meio a crise

Leandro Prazeres, da BBC News Brasil em Brasília –

O senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), deverá chegar a Washington na terça-feira (26/5) para uma possível reunião com o presidente Donald Trump.

O encontro, ainda não confirmado oficialmente, deverá ocorrer sob a sombra da crise que abalou sua pré-campanha nos últimos dias e sob o olhar atento do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A crise na campanha foi deflagrada pela revelação feita pelo site The Intercept Brasil de que Flávio pediu dinheiro de Vorcaro para financiar a cinebiografia de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Flávio nega ter cometido qualquer irregularidade.

A expectativa de interlocutores do senador é que a viagem ocorra entre terça-feira (26/5) e quinta-feira (28/5), embora ainda não haja confirmação oficial de que o encontro com Trump vá acontecer.

Nos bastidores, assessores e parlamentares próximos ao senador afirmam que o convite a Flávio teria sido feito pela Casa Branca após contatos intermediados pelo ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que vive nos Estados Unidos desde o ano passado.

A BBC News Brasil entrou em contato com a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil e a Casa Branca, mas não obteve retorno.

Enquanto a comitiva de Flávio Bolsonaro se prepara para o possível encontro com Trump, o presidente Lula, que também é pré-candidato à Presidência, adota cautela diante de um encontro cujo resultado, que segundo um alto oficial do governo, pode ser imprevisível.

Apesar da recente aproximação entre o petista e Trump, parte do governo Lula expressa desconfiança sobre se o governo norte-americano vai manter sua neutralidade ao longo das eleições deste ano.

Um interlocutor do presidente Lula afirmou à BBC News Brasil em caráter reservado que a gestão do petista não pretende criar obstáculos à eventual visita de Flávio a Trump ou cobrar explicações da Casa Branca sobre o evento.

A avaliação de interlocutores do governo Lula é de que a ida de Flávio a Washington é uma tentativa da sua pré-campanha de mudar o foco das suspeitas sobre seu vínculo com Vorcaro e produzir alguma agenda positiva. Apesar disso, o governo deverá acompanhar o encontro à distância e avaliar os sinais enviados por Trump durante e após a reunião.

Só então, a BBC News Brasil apurou, o governo vai estudar se adotará algum posicionamento.

A crise de Flávio

A crise que abalou a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro começou na semana passada, depois que o portal The Intercept divulgou mensagens e um áudio do senador para Daniel Vorcaro em que ele chama o banqueiro de “irmão” e pede dinheiro para o suposto financiamento do filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro.

Documentos apontam que pelo menos R$ 61 milhões foram transferidos de uma empresa ligada a Vorcaro para a produtora do filme.

Inicialmente, Flávio Bolsonaro negou qualquer envolvimento com Vorcaro. Depois, contudo, ele admitiu ter pedido o dinheiro e defendeu a tese de que não cometeu nenhuma irregularidade.

Segundo ele, o pedido fez parte do trabalho de captação de investidores privados para o filme e que, à época, novembro de 2025, ele não teria conhecimento das suspeitas sobre Vorcaro.

“É preciso separar os inocentes dos bandidos. No nosso caso, o que aconteceu foi um filho, procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai”, disse Flávio em uma nota divulgada na quarta-feira (13/05)”, disse Flávio em nota.

Depois disso, porém, o The Intercept Brasil divulgou que Flávio se encontrou com Vorcaro pessoalmente, no início deste ano, dias depois de ele ter sido colocado em liberdade pela Justiça brasileira. Na ocasião, as acusações de fraudes financeiras contra Vorcaro já eram conhecidas.

Em resposta, Flávio disse que sua ida à casa de Vorcaro, em São Paulo, foi uma tentativa de dar um “ponto final” à negociação de patrocínio do filme.

“Ele não poderia sair da cidade de São Paulo, e eu fui sim ao encontro dele para botar um ponto final nessa história, dizer que se ele tivesse me avisado que a situação era grave como essa, eu já teria ido atrás de outro investidor há muito mais tempo e o filme não correria risco”, disse Flávio.

Após essas revelações, a Polícia Federal passou a investigar a possibilidade de que os repasses feitos por empresas ligadas a Vorcaro tinham como objetivo financiar despesas do ex-deputado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. O ex-parlamentar, no entanto, negou ter se beneficiado direta ou indiretamente de recursos oriundos de Vorcaro ou de empresas vinculadas a ele.

Desde a revelação dos contatos entre Flávio e Vorcaro, no entanto, pesquisas como as da Atlas/Intel e do Datafolha apontam queda nas intenções de voto de Bolsonaro e crescimento de Lula.

A mais recente, divulgada pelo Datafolha, aponta que uma queda de 45% para 43% de Bolsonaro contra um crescimento de 45% para 47% de Lula. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais.

A crise fez com que o comando da pré-campanha de Flávio Bolsonaro trocasse o seu marqueteiro, Marcello Lopes. Em seu lugar, entrou o publicitário Eduardo Fischer.

Inversão de papéis e atenção

Presidente dos EUA Donald Trump
Reuters

O encontro entre o senador e Trump deverá acontecer três semanas depois de Lula ser recebido pelo presidente norte-americano na Casa Branca, no dia 7 de maio.

Na ocasião, segundo pesquisas de intenção de voto, era Lula quem vinha em viés de baixa e a oposição alegava que sua ida a Washington tinha o objetivo de garantir uma agenda positiva ao cenário em que Flávio Bolsonaro liderava, numericamente, as simulações para segundo turno.

A reunião entre Lula e Trump tinha previsão de durar uma hora, acabou se alongando por três e terminou sem entrevista coletiva ou anúncios de acordos. Apesar disso, Lula classificou o encontro como positivo.

“Olha para a minha fisionomia. Você acha que eu estou otimista, ou pessimista? Eu estou muito otimista”, disse Lula a jornalistas após o encontro.

Trump também avaliou o encontro positivamente. “Tivemos uma ótima reunião com o presidente do Brasil. Fazemos muito comércio e vamos ampliar esse comércio. Falamos sobre tarifas. Falamos também que eles gostariam de algum alívio nas tarifas. Mas foi uma reunião muito boa. Ele é um bom homem. É um sujeito inteligente”, disse Trump a repórteres em Washington.

A BBC News Brasil apurou que o governo Lula, a princípio, não vê o encontro entre Flávio e Trump como um problema ou uma ingerência do governo Trump no processo eleitoral brasileiro.

Um interlocutor do presidente disse, no entanto, que será necessário avaliar o resultado da reunião para fazer uma análise mais precisa sobre a disposição de Trump ou de parte de seu governo de interferir nas eleições deste ano.

Há alguns dias, integrantes do governo Lula vinham afirmando em caráter reservado que não descartavam a possibilidade de algum tipo de tentativa de interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras.

Segundo eles, a imposição do tarifaço de 50% a produtos brasileiros em julho do ano passado e a vinculação da medida ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF) já era uma demonstração de que o governo Trump teria os meios e a disposição de interferir na política doméstica brasileira.

Eles afirmam, contudo, que após a aproximação entre Trump e Lula e a queda de parte das tarifas, os contatos entre os dois nos últimos meses eram uma forma de dificultar a atuação de uma suposta ala mais radical dentro do governo Trump ligada a bolsonaristas como o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o jornalista Paulo Figueiredo, ambos vivendo nos Estados Unidos.

Lula e Trump dando um aperto de mão e sorrindo para a câmera
Ricardo Stuckert

A avaliação de parte do governo Lula é de que apesar do tom amistoso do encontro mantido entre os dois em maio, isso não significa, porém, que o Palácio do Planalto veja neutralidade absoluta nos Estados Unidos e que setores do governo norte-americano prefeririam um governo brasileiro mais alinhado a Washington, especialmente em temas como China, minerais críticos, big techs e política externa.

Auxiliares do presidente Lula avaliam, porém, que há dúvidas sobre até que ponto Flávio e seus aliados explorariam um apoio explícito de Trump na campanha brasileira. A razão, segundo ele, é que Trump teria uma alta rejeição em parte da opinião pública brasileira.

Além disso, existiria a avaliação na direita brasileira de que o tarifaço imposto por Trump ao Brasil no ano passado ajudou a aumentar, ainda que temporariamente, a popularidade de Lula.

Na avaliação desse integrante do governo, um gesto de Trump poderia animar setores da direita, mas também dar munição ao discurso de defesa da soberania nacional e de crítica ao alinhamento automático com os Estados Unidos feito por Lula durante o tarifaço.

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