Eleições: Dourados corre risco de perder representatividade política nas esferas de poder

Atualmente, o município é representado por 4 deputados estaduais, 2 deputados federais e vice-governador; tem também uma senadora e um deputado federal nascidos em Dourados, mas com domicílio eleitoral em Campo Grande
Juliel Batista –
As eleições de 2026 colocam Dourados novamente no centro das atenções de Mato Grosso do Sul. Com nomes tradicionais, parlamentares que buscam a renovação dos mandatos e novas candidaturas promissoras buscando espaço, o município vive a expectativa de manter, ampliar ou mesmo diminuir o tamanho de sua representação no Governo do Estado, na Assembleia Legislativa, na Câmara dos Deputados e no Senado Federal.
Para traçar um panorama do cenário, a Folha de Dourados ouviu especialistas e lideranças que conhecem a fundo a política local e estadual, que analisaram a força das candidaturas, a composição das chapas, as estruturas partidárias e a conjuntura política de Mato Grosso do Sul. As avaliações apontam para uma eleição marcada por chapas competitivas e por uma divisão importante dos votos entre nomes com diferentes bases eleitorais.
No caso dos deputados estaduais e federais, a análise exige atenção especial. Diferentemente das disputas majoritárias, nas eleições proporcionais não basta observar a votação individual de cada candidato. O desempenho das legendas e das federações, o quociente eleitoral e a distribuição das sobras também interferem diretamente na definição das cadeiras.
Assembleia Legislativa: quatro representantes e uma disputa aberta
Atualmente, Dourados possui quatro deputados estaduais: Renato Câmara (Republicanos), Lia Nogueira (PSDB), Zé Teixeira (PL) e Gleice Jane (PT). A cidade também era representada na Assembleia Legislativa por Neno Razuk (PL), que teve o mandato cassado no meio do ano pela justiça eleitoral.
Entre os nomes que disputam novamente uma cadeira, Zé Teixeira aparece nas avaliações ouvidas como um candidato muito forte e com possibilidade de ser um dos mais votados do Estado. Parlamentar estadual desde 1994, ele venceu sucessivas eleições ao longo de sua trajetória e chega ao pleito de 2026 com uma estrutura política construída durante décadas.
As fontes consultadas também apontam que o reforço de grupos tradicionais da política douradense, como lideranças que orbitavam nas famílias Razuk e Machado, ampliou o cacife eleitoral de Zé Teixeira. A combinação entre conhecimento do eleitorado, histórico eleitoral e alianças é apontada como um dos elementos que podem favorecer sua campanha.
Outro nome que ganhou espaço no cenário estadual é Tiago Botelho (PT). Ex-candidato ao Senado em 2022 e candidato à Prefeitura de Dourados em 2024, ele vem ampliando sua presença política e, segundo as avaliações colhidas, passou a ser considerado um dos nomes competitivos na disputa pela Assembleia.
Dentro do PT, a eleição também passa pelo desempenho de Gleice Jane. A deputada busca a reeleição apoiada por sua corrente, a Articulação de Esquerda (AE), e mantém uma base partidária construída a partir de sua atuação política e parlamentar.
Entre os analistas ouvidos, há duas leituras principais sobre o desempenho petista. Uma parte considera possível que os petistas douradenses conquistem duas cadeiras, enquanto outra trabalha com um cenário em que apenas um, entre Gleice Jane e Tiago Botelho tenha êxito neste domingo. A avaliação predominante, contudo, é de que ambos chegaram competitivos no fim da disputa.

Renato e Lia enfrentam disputa dentro de uma chapa competitiva
Também fortes na disputa estão Renato Câmara e Lia Nogueira, dois nomes que já possuem bases eleitorais consolidadas em Dourados. As avaliações ouvidas apontam que ambos serão bem votados e estão bem cotados, mas a reeleição dependerá do desempenho de suas chapas.
No caso de Lia, as fontes consultadas avaliam que a deputada deve ampliar a votação obtida em 2022, tanto em Dourados e, principalmente, em outros municípios onde seu mandato foi muito presente, além de Campo Grande.
Novos nomes ampliam o leque de candidaturas
A política de Dourados também está representada por outras lideranças que, embora não apareçam como favoritas nas avaliações consultadas, são nomes consolidados, possuem bases próprias e podem surpreender.
Entre eles estão a vice-prefeita de Dourados, Gianni Nogueira (PL); o ex-vereador Aurélio Bonatto (Avante); a advogada Bárbara Resende (União Brasil); a liderança indígena Fernando Souza (PP); o vereador Sargento Prattes (PL); o Professor Léo (Novo); e o vereador Marcelo Mourão (PL).
As fontes ouvidas ressaltam que nenhum desses nomes deve ser tratado como carta fora do baralho. São candidaturas que podem apresentar votações relevantes e, principalmente em uma eleição proporcional, alterar a distribuição interna das chapas.
O crescimento ou a queda de um candidato pode interferir diretamente nos demais concorrentes da mesma legenda. Por isso, a disputa estadual em Dourados permanece aberta a mudanças até a apuração.
Câmara Federal: Dourados pode ter disputa por espaço
Na Câmara dos Deputados, Dourados conta atualmente com dois representantes com domicílio eleitoral na cidade: Geraldo Resende (União) e Rodolfo Nogueira (PL).
A avaliação predominante entre as fontes ouvidas é de que a manutenção das duas cadeiras é uma tarefa complexa diante da composição das chapas. O cenário, segundo os analistas, é de que Dourados tem chance de manter as duas cadeiras, porque tanto Geraldo como Rodolfo serão muito bem votados. Por outro lado, estão em chapas fortes e podem ficar na suplência.
No caso de Geraldo Resende, sua chapa reúne nomes como Rose Modesto, Carlos Bernardo, Luiz Ovando e Dagoberto Nogueira. A concentração de candidaturas com bases eleitorais distintas torna a disputa interna especialmente relevante.
Do lado do PL, uma das questões apontadas nas análises é a disputa interna entre Rodolfo Nogueira e Marcos Pollon. Pollon atualmente possui domicílio eleitoral em Campo Grande, mas nasceu, estudou, tornou-se advogado em Dourados, onde mantém vínculos familiares, de amizade e políticos. Mara Caseiro também aparece como uma das candidaturas de peso dentro da composição.
Alan Guedes e uma chapa com nomes conhecidos
O ex-prefeito de Dourados Alan Guedes (PP) também tenta uma vaga na Câmara Federal. Naturalmente, bastante conhecido no eleitorado douradense e com experiência no Executivo municipal. Sua liderança não pode ser desprezada.
Isa Marcondes surge com um dos novos polos eleitorais
Entre os nomes que ganharam destaque nas avaliações está a vereadora Isa Marcondes, o novo fenômeno da politica douradense e, apontada pelas fontes consultadas, como uma candidatura com capacidade de alcançar uma votação individual elevada.
Alguns dos interlocutores ouvidos trabalham, inclusive, com a possibilidade de votação próxima de 100 mil votos. Trata-se, porém, de uma projeção de fontes políticas, e não de um resultado confirmado.
A vereadora está em chapa que também reúne nomes de expressão, como Beto Pereira, que busca a reeleição; Roberto Hashioka, deputado estadual que tenta chegar à Câmara Federal; e Jaime Verruck, ex-secretário estadual e nome ligado às administrações de Reinaldo Azambuja e Eduardo Riedel.
A composição torna a disputa interna relevante e faz com que o desempenho de cada candidato tenha impacto sobre o conjunto da chapa.

Esquerda aposta em experiência e renovação
Na Federação Brasil da Esperança (PT-PCdoB-PV) dois nomes de Dourados chamam atenção na disputa pelas 8 cadeiras de MS na Câmara dos Deputados: o vereador Elias Ishy (PT) e o professor universitário Eliel Kaiowá (PT).
Ishy tem trajetória política consolidada no município, com vários mandatos como vereador, e atualmente é primeiro suplente do PT na Câmara Federal. Segundo as fontes ouvidas, sua presença eleitoral em Dourados pode ser um dos principais ativos da Federação na região.
Eliel Kaiowá, por outro lado, representa uma candidatura nova no cenário político e busca ampliar a presença indígena na representação federal.
A dificuldade de Elias e Eliel, apontada pelos analistas, está na composição da Federação, que reúne nomes como a deputada federal Camila Jara (PT), o ex-prefeito de Campo Grande Marquinhos Trad (PV) e homem forte de Vander Loubet, o engenheiro Sandro Omar.
Mesmo diante desse cenário, Elias Ishy é citado como um candidato com capacidade de apresentar desempenho expressivo e alterar a configuração final da bancada.

Senado: Dourados também está no centro da disputa
Na eleição para o Senado, duas cadeiras estarão em disputa nessas eleições. Dourados aparece diretamente no cenário por meio de Soraya Thronicke (PSB), que nasceu na cidade e possui raízes familiares no município.
Pesquisas divulgadas ao longo da campanha mostram uma disputa concentrada entre diferentes grupos políticos. Levantamento do Instituto Ranking Brasil Inteligência 27 e 30 de setembro, ouvindo 2.000 moradores com 16 anos ou mais, distribuídos em 30 municípios do Estado, apontou Reinaldo Azambuja (PL) com 30% e Capitão Contar (PL) com 24%, enquanto Vander Loubet (PT) apareceu com 20% e Soraya Thronicke com 9% no consolidado de primeiro e segundo votos.
Os números mostram a presença de quatro candidaturas competitivas em diferentes campos políticos, mas pesquisas são retratos de determinado momento e não representam o resultado da eleição.
Para Soraya, a ligação histórica com Dourados é um elemento importante de sua trajetória. As fontes ouvidas lembram ainda que, em 2018, ela contrariou as expectativas iniciais e terminou eleita para o Senado, mostrando que campanhas majoritárias podem sofrer alterações significativas ao longo da disputa.
Governo: Barbosinha leva Dourados para a chapa de Riedel
Na disputa pelo Governo de Mato Grosso do Sul, Dourados possui representação direta na chapa governista por meio do atual vice-governador Barbosinha (PSD), que concorre novamente ao cargo ao lado do governador Eduardo Riedel (PP).
O desempenho apresentado nas pesquisas coloca a chapa de Riedel e Barbosinha em uma posição numericamente confortável às vésperas do pleito. Algumas das pessoas ouvidas projetam inclusive uma possibilidade de definição ainda no primeiro turno, mas esse tipo de projeção permanece condicionado ao comportamento do eleitorado até o dia da votação.
Do outro lado, o douradense nato, Jeferson Bezerra, candidato ao Governo pelo Agir, enfrenta conjuntura adversa as suas pretensões e sabe disse. Sem estrutura de campanha trabalha para fortalecer seu partido, tendo em vistas as eleições municipais de 2028.

Dourados entre tradição, renovação e disputa proporcional
O desenho das eleições de 2026 mostra que Dourados chega ao pleito com uma combinação de nomes tradicionais e candidaturas que buscam ampliar espaço político.
Na Assembleia Legislativa, a cidade tenta preservar a representação que hoje chega a quatro deputados titulares, embora a composição possa mudar a partir do resultado das urnas. No cenário federal, a disputa apresenta maior concentração de candidaturas fortes dentro das mesmas chapas, tornando a manutenção de duas cadeiras uma tarefa eleitoralmente complexa.
No Senado, a presença de Soraya Thronicke mantém Dourados diretamente inserida na disputa majoritária, enquanto no Governo do Estado Barbosinha representa a cidade na chapa que encabeça as pesquisas mais recentes.
Mais do que uma disputa entre nomes, entretanto, o resultado de 2026 deverá revelar o peso atual de Dourados na política sul-mato-grossense. A cidade possui eleitorado, lideranças e estruturas suficientes para produzir votações relevantes, mas também enfrenta o desafio de dividir seus votos entre um número elevado de candidaturas de outras praças.
Com chapas competitivas, nomes conhecidos em todo o Estado e novas lideranças tentando ampliar seu espaço, a eleição deverá definir não apenas quem ocupará as cadeiras a partir de 2027, mas também quais grupos políticos terão maior capacidade de articulação e representação a partir de Dourados.



