Ayaka tinha seis anos quando foi vítima de “upskirting” pela primeira vez.
Seu professor de natação, um homem que visou crianças por mais de uma década, tirou fotos e vídeos ilícitos de seus órgãos genitais.
Ele então compartilhava as imagens em um grupo do Telegram com outros pedófilos, que ficavam tão gratos pelo conteúdo que o chamavam de “Deus”.
O pai de Ayaka, Suzuki — ambos os nomes foram alterados por privacidade — só soube que sua filha havia sido alvo quando a polícia ligou, há dois anos. O rosto e o nome dela apareciam em algumas das imagens, tornando-a facilmente identificável.
“Minha esposa e eu a incentivamos a entrar naquela escola de natação. Pensamos que seria uma experiência divertida para ela”, disse ele à CNN Internacional.
“Sinto vergonha por ter colocado minha filha nessa situação. Sinto raiva do homem que cometeu o crime. Nunca poderei perdoá-lo.”
Ayaka está longe de estar sozinha. Ela é uma das inúmeras vítimas de upskirting e fotografia voyeurística no Japão, um crime que há muito tempo assola o país.
Cartazes de alerta frequentemente se alinham nas estações de trem e prédios públicos no Japão. Todos os smartphones vendidos no país são obrigados a emitir um som de obturador ao tirar fotos e vídeos, uma medida do setor projetada para impedir a fotografia secreta.
Em 2023, o Japão também introduziu uma lei nacional contra o “voyeurismo fotográfico” como parte de uma reforma mais ampla de sua legislação sobre crimes sexuais.
Antes disso, tais casos eram processados sob uma colcha de retalhos de portarias locais que variavam em todo o país.
Apesar dos anos de esforços para coibir o crime, ele continua sendo uma das infrações sexuais mais comuns do Japão.
A polícia fez 9.237 prisões por crimes de voyeurismo em todo o país em 2025, o maior número registrado. As autoridades atribuem parte do aumento à nova lei, que expandiu o escopo das infrações. A onipresença dos smartphones também tornou o crime mais fácil do que nunca de ser praticado e repetido.
Embora os perpetradores tradicionalmente tenham sido adultos, um número crescente são as próprias crianças. Dados da polícia mostram que os casos de voyeurismo relatados envolvendo menores aumentaram quase seis vezes em 2024 em comparação com o ano anterior – e aumentaram novamente em 2025.
“Fiquei chocada ao saber que isso estava acontecendo nas escolas”, disse à CNN Internacional Sumire Nagamori, especialista em segurança cibernética e ativista dos direitos da infância. “O agressor pode ser um colega de classe, e as imagens podem acabar na internet.”
Em salas de chat vistas pela CNN Internacional nas plataformas de mídia social Telegram e Discord, os usuários postam “prévias” de materiais de abuso sexual infantil. Um vídeo anuncia o acesso a um clipe mais longo de um menino de colo sendo abusado por menos de três dólares (cerca de R$ 16, na cotação atual).
Alguns dos usuários dizem que estão dispostos a tirar fotos de seus colegas de classe ou irmãos, alegando que estão no ensino fundamental ou médio.
A CNN Internacional entrou em contato com o Discord e o Telegram para obter uma declaração sobre as nossas descobertas.
O Telegram informou que seus sistemas de moderação removem milhões de conteúdos nocivos todos os meses, incluindo pornografia não consensual.
Também destacou seus “esforços significativos” contra materiais de abuso sexual infantil, removendo mais de 260 mil grupos e canais relacionados apenas em 2026.
O Discord não respondeu.
Nagamori diz que vários fatores estão impulsionando essa tendência preocupante. Os smartphones deram aos jovens acesso constante a câmeras e conteúdos online, tornando mais fácil a propagação de comportamentos de imitação.
“As crianças pequenas estão tendo acesso a dispositivos digitais antes de aprenderem ética ou letramento digital”, disse ela. “Antes de conseguirem distinguir o certo do errado, elas já têm ferramentas que podem ser usadas para prejudicar os outros.”
Na clínica de Daisuke Nakamura, onde o psicoterapeuta nomeado pelo tribunal atende pessoas condenadas por crimes de voyeurismo, um número crescente de pacientes é menor de idade.
“Quando abri esta clínica, há 15 anos, a maioria dos meus clientes eram homens de meia-idade”, disse ele à CNN Internacional. “Agora, vejo mais alunos do ensino fundamental, médio e universitários.”
Alguns são ainda mais jovens.
“Meus clientes mais jovens têm 13 ou 14 anos, e ocasionalmente entram alunos do ensino fundamental”, disse ele.
Essa tendência surge no momento em que especialistas alertam que o arcabouço jurídico do Japão tem lutado para acompanhar a realidade do abuso sexual digital.
‘Eu era incapaz de me conter’
De acordo com a lei atual, o material de abuso sexual infantil é geralmente processado sob a Lei de Pornografia Infantil do Japão.
Mas os críticos dizem que ainda existem lacunas — a lei só se aplica quando a genitália da criança está visível, o que significa que algumas formas de conteúdo de abuso sexual podem ficar fora de seu escopo.
Especialistas disseram à CNN Internacional que essas brechas podem resultar em penalidades significativamente mais leves para os infratores.
O Japão também está implementando um novo registro de criminosos sexuais que permite que empregadores em profissões voltadas para crianças, como escolas, verifiquem se os candidatos a emprego foram condenados por crimes de abuso sexual infantil. Mas, ao contrário dos Estados Unidos, o público não pode acessar esse banco de dados.
Para entender melhor o que leva um jovem a cometer esses crimes, a CNN Internacional passou meses procurando por ex-infratores dispostos a falar sobre sua experiência. Kimura, agora com 19 anos, é um dos que aceitou falar. Ele também pediu para usar um pseudônimo.
Kimura diz que seu fascínio pelo upskirting começou aos 15 anos, com pornografia retratando cenários encenados. Depois de meses assistindo, ele quis tentar por si mesmo.
Aos 17 anos, ele conta que escolheu sua primeira vítima: uma garota que andava em uma escada rolante na plataforma de um trem.
“Depois de fazer isso sem ser pego, e sentir aquela onda de excitação depois, eu quis sentir isso de novo”, disse ele à CNN Internacional.
Ao longo do ano seguinte, ele visou mais cerca de 30 vítimas. Ele disse que só parou quando a polícia o encontrou invadindo uma propriedade privada enquanto tentava roubar a calcinha de alguém em um varal.
“Se eu não tivesse sido pego na época, poderia ter estuprado alguém dentro de um ano ou dois”, admitiu.
Desde então, Kimura passou por programas obrigatórios de prevenção ao crime e reeducação, dizendo que se arrepende profundamente do que fez.
“Sinto muito… Consigo viver uma vida normal agora, mas sinto que tenho que garantir que nunca esquecerei o que fiz”, disse ele.
O instrutor de natação de Ayaka foi condenado a quatro anos de prisão após ser considerado culpado de fotografar secretamente várias crianças vítimas. Com metade dessa pena já cumprida, Suzuki teme o dia em que ele será libertado.
“As pessoas dizem que o Japão é muito seguro, mas agora eu me pergunto quantos desses crimes estão acontecendo em lugares que não vemos”, disse ele.
Para os perpetradores, o upskirting é um crime cometido em segundos, muitas vezes sem que ninguém perceba. Mas para as inúmeras vítimas que ele viola, deixa uma cicatriz digital permanente — uma cicatriz que Suzuki teme que assombrará Ayaka por anos.
“Enquanto os culpados podem expiar seus crimes, minha filha terá que conviver com esses vídeos pelo resto da vida”, disse ele.
“Acredito que as crianças são um tesouro não apenas para este país, mas para todos. Por isso, vejo como nosso trabalho descobrir como protegê-las”, disse ele.
(Informações R7)




