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Anuário da Violência em MS: uma análise dos dados e perspectivas para o Estado

Anuário da Violência em MS: uma análise dos dados e perspectivas para o Estado
O sinal “X” feito com batom vermelho (ou qualquer outro material) na palma da mão ou em um pedaço de papel, o que for mais fácil, permite que a pessoa treinada reconheça que aquela mulher foi vítima de violência doméstica e, assim, acione a Polícia Militar./MarcelloCasalJr

Juliel Batista –

Dados revelados no Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2023 mostram números preocupantes da violência em Mato Grosso do Sul, com um aumento significativo de violências, contra as minorias no Estado.

Para isso, é fundamental compreender esses dados, à partir de uma análise ampla, para as melhorias de políticas públicas na garantia de melhores condições de vida, para a população de MS.

Como vimos no quadro acima, índices como racismo, homofobia/transfobia, crimes contra LGBTQIA+, estupro e estupro de vulnerável, tiveram um aumento condiderável em apenas 1 ano.

Neste sentido, a Folha de Dourados conversou com o Antropólogo, João Victor Rossi, que fez um panorama sobre os índices de violência no Estado, as razões e o como MS pode melhorar para superar esses tristes índices.

O Antropólogo, elenca o quanto “as mortes e violências assustam pela materialização dos fatos e não pela existência em si”.

Confira a entrevista:

Folha de Dourados: Nessa semana saiu o anuário de 2022 sobre a violência pública, seja no âmbito nacional e em MS. Nesse sentido, gostaria de lhe perguntar, como você enxergou os dados divulgados?

João Victor Rossi: A princípio precisamos nos questionar sobre os motivos que causam espanto e curiosidades quando pesquisas apontam para a realidade do Estado. Os interesses em compreender os fenômenos referentes às violências em diferentes esferas são despertados quando vítimas viram números em estatísticas, aqui temos o primeiro ponto. Por que os números chocam? Embora o Mato Grosso do Sul seja um estado jovem, não podemos perder de vista as memórias e as causas que o tornaram um território prometido como o futuro do país, como é cantado em seu hino. Assim, interpretando a partir dos símbolos que constroem a identidade do Brasil e, por conseguinte do nosso Estado, a combinação entre “ordem e progresso” sempre esteve atrelada à economia. Precisamos colocar em perspectiva a importância dos dados do Anuário de Segurança Pública de 2023 e analisá-los com cautela, pois ainda não temos políticas públicas com grande eficácia e nem a busca por registros próximos à grande demanda que há diariamente.

Pensando sobre os dados e Dourados, no que tange aos povos indígenas principalmente, qual é a sua análise?

Os dados trazem a impressão do que há muito tempo os povos indígenas se referem a “fim do mundo”, nos distanciando por um momento da literalidade e do peso que há nesta afirmação, gostaria de apontar a rejeição aos diferentes modos de reprodução social como uma, mas não única inimiga dos povos indígenas. Os interesses capitalistas ignoram a natureza e a subjetividade como partes importantes (e integrantes) da vida social e colocam em jogo a sobrevivência quando escolhem o lucro. Olhemos para a pandemia que alastrou o mundo em 2020. Em Dourados, as indústrias e frigoríficos que cercam a cidade foram responsáveis por números alarmantes de casos e consequentemente de óbitos, sem esquecer também da exploração de mão-de-obra que traz consigo consequências graves às comunidades. Tenho percebido os números e estatísticas como a reprodução das políticas de morte que inviabilizam determinadas vidas em detrimento de outras. Não podemos somente nos assustar com os dados, precisamos refletir o que o capital tem produzido e reproduzido contra estes corpos. A não demarcação de terras, a exploração, o racismo e a fome, para exemplificar, são problemas nossos, dos não indígenas, levados até os povos originários que sofrem as duras consequências. Enquanto não existir uma leitura e mudança minuciosa por parte dos poderes, execução dos direitos e o respeito à diferença os dados serão cada vez mais alarmantes.

O que falta para o MS e Dourados saírem de resultados tão negativos, no que diz respeito à violência?

Ótima questão. Complexa mas não impossível de responder. Acredito, sobretudo nos saberes indígenas, precisamos ouvi-los e descentralizar nossas ideias carregadas de ganância e simbologias capital-acumulativas. Compreender o Estado ou a cidade de Dourados de maneira comunitária, prezando a saúde e a educação ampla e aberta a debates (des)construtivos. Também acredito em políticas que lancem ótica de maneira sensível. Hoje estamos em um novo momento político que tem mostrado avanços e discussões que antes não foram tocados ou imaginados, digo isso pensando além das figuras representativas, por exemplo. Mesmo longe de ideais sociais não podemos desistir, então, pensar um futuro em que o bem-estar e a tolerância sejam meios para a produção social faz com que também pensemos os caminhos para atingir estes objetivos. Buscar o fim dos fenômenos como violências e preconceitos é um plano que extrapola o saber científico porque também deveria ser de todas as pessoas indiscriminadamente. Por fim, sugiro que sigamos na luta por agendas políticas que busquem o fim das estruturas que mantém de pé a fome, os machismos, as LGBTQ+fobias e os racismos e tomem como prioridade a equidade e a garantia de direitos.

Faça sobre as suas considerações finais (pode falar qualquer coisa, na qual você acredita relevante, sobre violência ‘sexualidade’, ‘gênero’ ‘etnia’ ‘raça’) em MS.

As marcas sociais de raça, etnia, classe, gênero e sexualidade inviabilizam a busca por direitos nas esferas políticas e judiciárias pelo desinteresse dos órgãos e também pela naturalização das opressões. Não há nada natural. Os racismos, os machismos e as LGBTQIA+fobias são produzidas e reproduzidas constantemente como aspectos próprios da sociedade, quando na verdade são fenômenos que localizam e comunicam o que é ou não é prioridade. Aqui destaco planos de governo que prezam pelo acúmulo de capital através do agronegócio, como é aqui, por exemplo, e de escanteio deixam áreas de configuração social como educação e saúde. A lógica de investimento e desenvolvimento é literalmente o ganho e acúmulo de dinheiro e não o bem-estar social. Nesse sentido, as mortes e violências assustam pela materialização dos fatos e não pela existência em si.

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