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‘A Lua ilumina os caminhos do amor. Mas só entra na casa de quem abre a janela da alma’, por João Roberto Giacomini

Por João Roberto Giacomini – advogado & escritor

Outro dia encontrei a Lua diferente.

Não era tristeza.

Também não era solidão.

Era um tipo curioso de inveja, dessas que não machucam ninguém.

Ela me chamou para perto e, quase envergonhada, fez uma confissão.

— Posso lhe contar um segredo?

Respondi que sim.

Ela suspirou.

— Passei a eternidade iluminando os apaixonados. Vi nascer milhões de histórias de amor. Assisti aos primeiros olhares, às serenatas, aos beijos roubados, aos pedidos de casamento e aos abraços que pareciam eternos.

Fez uma pausa.

Depois baixou um pouco o brilho.

— Mas nunca consegui descobrir o que acontece depois que eles entram em casa.

Olhei para o céu.

Nunca havia pensado nisso.

Todos acreditamos que a Lua conhece os segredos do amor.

Na verdade, ela conhece apenas o começo.

O restante pertence aos telhados.

Foi então que compreendi.

A Lua não sente ciúmes do Sol.

Sente ciúmes dos telhados.

São eles que escondem aquilo que ela mais gostaria de aprender.

Porque a Lua jamais entrou numa casa.

Nunca viu duas pessoas rindo até perder o fôlego por causa de uma lembrança que só elas entendem.

Nunca presenciou um abraço silencioso capaz de curar um dia inteiro.

Nunca ouviu um “boa noite” dito com a serenidade de quem encontrou o próprio lar no coração de alguém.

Ela conhece a paixão.

Mas ainda sonha compreender o amor.

Talvez por isso passe a noite inteira rondando as janelas.

Não para invadir.

Mas para pedir licença.

Escorrega pelas cortinas.

Reflete nos espelhos.

Passeia pelas varandas.

Estica sua claridade sobre os telhados como quem espera um convite.

A Lua é delicada.

Ela sabe que existem sentimentos que só florescem quando ninguém está olhando.

Mesmo assim, continua esperando.

Porque aprender também é uma forma de amar.

Foi então que lhe fiz uma pergunta.

— Afinal, o que você procura há tanto tempo?

Ela sorriu.

Um sorriso tão manso que parecia derreter sobre o céu.

E respondeu:

— Descobri que sou apenas um doce de leite espalhado sobre a noite. Bonita. Suave. Capaz de adoçar os olhos.

— Mas o amor…

Fez outra pausa.

— Ah… o amor é um doce da alma.

— E esse eu nunca consegui provar.

Fiquei em silêncio.

Antes de ir embora, ela apenas acrescentou:

— Se algum dia você amar de verdade… não feche completamente a janela.

— Deixe uma fresta.

— Não quero atrapalhar.

Quero apenas aprender.

Naquela noite compreendi uma coisa que nenhum poeta jamais conseguiu explicar por inteiro.

A Lua não ilumina os amantes porque conhece o amor.

Ela os ilumina porque ainda está tentando aprendê-lo.

E talvez seja exatamente por isso que ela nunca falte ao encontro com a noite.

Enquanto houver uma casa acesa, um abraço demorado, um perdão sincero, um beijo depois de uma discussão ou duas mãos envelhecendo sem se soltarem, haverá uma Lua parada sobre os telhados.

Não para vigiar.

Mas para acreditar que um dia também descobrirá o segredo.

Porque o amor nunca precisou do luar para existir.

Mas, desde o começo do mundo, o luar precisa do amor para continuar brilhando.

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