Personagem artificial de IA com 32 mil seguidores no X expõe as engrenagens de uma estratégia mundial que combina ressentimento, tecnologia e batalha cultural para corroer instituições democráticas
Anita Tetslaff (*) –
Há algo de profundamente familiar na revolta digital protagonizada pela “Dona Maria”. Mulher negra, de meia-idade, linguagem simples e tom inflamado, ela não é uma pessoa real, mas seus mais de 400 vídeos no X (antigo Twitter) e 32 mil seguidores sugerem que sua mensagem encontrou um público ávido por ecoar indignação. Ao lado de outros 18 influenciadores artificiais de política identificados em levantamento das organizações Data Privacy Brasil e Aláfia Lab, realizado entre janeiro de 2025 e abril de 2026, “Dona Maria” se tornou um fenômeno que revela as vísceras de um fenômeno global.
Os números impressionam: 61% desses perfis artificiais não informam que são gerados por inteligência artificial, e 78% publicam alegações enganosas sobre políticos e instituições democráticas. O impacto é real, um dos vídeos da personagem no Instagram atingiu 8,8 milhões de visualizações e mais de 23 mil comentários.
A história, no entanto, não é nova. É apenas o mais recente capítulo de uma guerra cultural cujas raízes remontam às disputas de bastidores da Antiguidade, passando pelos conselheiros secretos das monarquias medievais e chegando aos dias atuais com roupagem digital. O que mudou não foi a essência da estratégia, mas a potência das armas.
A máquina do caos
De onde veio “Dona Maria”? A criação de perfis artificiais para influenciar o debate político não é um fenômeno isolado brasileiro. Segundo a pesquisa do Observatório das Eleições, os conteúdos dos avatares circularam principalmente no TikTok e Instagram, com seis casos registrados em cada plataforma, além de ocorrências no YouTube, Kwai e Facebook. Os alvos incluíram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-presidente Jair Bolsonaro e ministros do Supremo Tribunal Federal como Alexandre de Moraes, Cármen Lúcia e Luís Roberto Barroso.
A personagem ganhou tamanha repercussão que partidos como PT, PV e PCdoB protocolaram representação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pedindo a suspensão de perfis com o nome “Dona Maria” em plataformas digitais. O pedido foi formalizado em 22 de abril, após a personagem viralizar ao comentar a crise comercial com os Estados Unidos e criticar a postura do governo brasileiro.
A resposta da esquerda não tardou: perfis governistas passaram a publicar versões adaptadas da mesma “Dona Maria”, mantendo as características visuais mas com discurso favorável a Lula e críticas à escala 6×1 e à família Bolsonaro. A guerra de narrativas, portanto, não é travada entre humanos reais, mas entre fantasmas algorítmicos que disputam a atenção de uma população cada vez mais imersa em bolhas de realidade.
O manual da nova direita
O fenômeno “Dona Maria” não é acidental. Ele se encaixa perfeitamente no que a analista Natascha Strobel define como características da “nova direita radicalizada” entre elas: batalha cultural e guerra de posições, filtros de informação e “midiosfera”, e estratégia agressiva e transnacional.
A batalha cultural, neste contexto, utiliza a linguagem para mudar o senso comum, atacar instituições, o politicamente correto e a imprensa. A “midiosfera” articula via redes sociais e aplicativos, cria bolhas de realidade que rejeitam a imprensa tradicional como fonte legítima de informação. E a estratégia agressiva promove conexão internacional com grupos da ultra-direita e forte apelo ao autoritarismo.
Essa arquitetura tem um nome nos Estados Unidos: Steve Bannon. Ex-estrategista-chefe da Casa Branca e conselheiro sênior do presidente Donald Trump, Bannon foi o grande articulador da vitória presidencial de 2016 e teve clareza sobre o método: a política segue a cultura. Para ele, mudanças culturais profundas são pré-requisito para transformações políticas duradouras. Não à toa, sua estratégia centrou-se em saturar o espaço público de símbolos, mitos, ameaças e moralismos, produzindo uma atmosfera de conflito perpétuo que impede qualquer retorno à normalidade institucional.
No Brasil, “Dona Maria” é a executora local desse manual global.
O velho radicalismo em novo invólucro
Se o filósofo Theodor Adorno, que focou na crítica à sociedade capitalista e à racionalidade moderna, estivesse vivo, reconheceria de imediato os sintomas. Em sua obra “Aspectos do novo radicalismo de direita”, publicada originalmente na Alemanha dos anos 1960, Adorno já analisava o fenômeno de uma direita radical emergindo no seio de democracias supostamente consolidadas.
Sua explicação tem base no materialismo em que o fenômeno é menos um sinal de loucura, tolice ou “desinformação”, e mais um sintoma de uma transformação social objetiva em curso. Adorno apontava para a crise da concentração do capital, que gera rebaixamento das camadas sociais, principalmente da classe média, que é a força dirigente do movimento, que teme perder privilégios e, amedrontada, engrossa as fileiras da direita radical.
Essa análise ecoa na expressão “classe média ressentida”, da filósofa Marilena Chaui, que descreve um segmento social apoiado em privilégios e consumo, vivendo sob o medo constante da “proletarização” e o desejo de ascender à elite.
A diferença hoje é que o ressentimento é fabricado em escala industrial por perfis artificiais como “Dona Maria”, que simulam a voz de uma “pessoa comum” para validar emoções e desconfianças que já existem latentes na sociedade.
A batalha final
Os desdobramentos são preocupantes. Na projeção dos inimigos feita por essa nova direita radical, estão a ciência, os intelectuais, as mulheres, as pessoas pretas, os homossexuais, os migrantes, os antifascistas e o povo da esquerda, todos demonizados como “comunistas”. Contudo, essa direta que acende ao poder, promove o desmonte democrático do Estado, ataques às instituições e a criação de realidades paralelas na tentativa de rompimento das regras formais e informais.
A guerra cultural atinge o requinte de dizer “quem é do bem está com Deus, quem é do mal está com o diabo”, associando a figura quase religiosa do líder à vontade divina e os adversários, quase sempre, de esquerda às forças do mal. Nesse sentido, o partido serve ao líder, não o contrário, uma lógica que se repete na Alemanha, Áustria, Estados Unidos, França, Itália, Argentina e Hungria.
A mídia, principalmente as redes sociais, tornou-se uma máquina de acirramento dos ânimos. Steven Bannon compreendeu isso como ninguém, usando a produção excessiva de conteúdo para confundir os indivíduos e manter a guerra cultural em estado permanente.
“Dona Maria” pode ser um avatar artificial, mas a indignação que ela mobiliza é real. E enquanto a política continuar sendo tratada como entretenimento bélico, vencerá sempre quem melhor produzir caos, não quem propõe soluções.
(*) Jornalista. Professora. Doutoranda e Mestra em Educação, na Área de Concentração em História e Políticas e Gestão da Educação, pela UFGD. Especialista em Administração de Marketing, pela Uniderp. Especialista em Metodologia do Ensino, pela Universidade Braz Cubas/Unigran.




