A insônia apareceu na minha vida sem pedir licença. Como fazem certas pessoas que chegam discretas, ocupam uma cadeira da casa e, quando percebemos, já sabem nossos horários, nossos silêncios e até o barulho da geladeira durante a madrugada. rsrsrs…
No começo eu a odiei.
Lutei contra ela com todas as armas modernas e antigas, consultei psicólogos, psiquiatras, tomei remédios, chás de nomes difíceis, fiz orações repetidas em voz baixa, meditações guiadas por voz calma que prometiam paz em oito minutos. Troquei colchão, travesseiro, rotina, alimentação. Houve noites em que contei carneiros, briguei com pernilongos. Em outras, contei vitórias ou fracassos.
Nada.
A insônia sempre voltava.
Pontual.
Duas e treze da manhã.
Três e quarenta e sete.
Quatro e cinco.
Ela chegava e se sentava ao lado da cama como quem diz:
“Hoje, mais uma vez, sou só eu e você.”
Durante anos fiz da madrugada um campo de batalha. Eu queria vencer. Dormir era vitória; acordar no escuro era derrota. Até que um dia, talvez por cansaço, talvez por rendição, parei de guerrear.
Foi numa madrugada silenciosa dessas que a enxerguei diferente.
Enquanto a cidade dormia, havia uma sinceridade estranha no ar. Sem buzinas, sem notificações, sem compromissos, sem as máscaras educadas do dia. A insônia não falava alto. Apenas ficava ali, abrindo gavetas antigas dentro de mim.
Foi ela quem me fez lembrar pessoas esquecidas, me obrigou a revisitar medos escondidos atrás da pressa, me apresentou perguntas que o barulho do dia não deixava nascer.
Descobri então que a madrugada tem sua própria religião.
Os insones pertencem a uma irmandade silenciosa espalhada pelo mundo. Às três da manhã, alguém chora num apartamento distante, alguém escreve uma carta que nunca terá coragem de enviar, alguém abre a geladeira sem fome, alguém olha pela janela tentando entender a própria vida.
E alguém, como eu, aprende aos poucos a conversar com a insônia.
Não que ela tenha virado uma amiga fácil. Há noites em que continua cruel. O corpo cansa, os olhos ardem, o dia seguinte cobra caro. Não existe poesia suficiente que substitua uma boa noite de sono. Mas talvez o sofrimento tenha aumentado justamente porque passamos tempo demais tentando expulsá-la como inimiga absoluta.
A verdade é que certas presenças não vão embora quando mandamos.
Então mudei de estratégia.
Em vez de acender todas as luzes contra ela, puxei uma cadeira.
Hoje, quando a insônia chega, faço café às vezes. Outras vezes apenas escuto o silêncio. Há noites em que escrevemos juntos — eu e ela. Porque descobri que a insônia tem o estranho talento de retirar maquiagem da alma. De madrugada, ninguém consegue mentir muito para si mesmo.
Talvez por isso ela assuste tanto.
A insônia conhece nossas rachaduras.
Sabe dos amores que não esquecemos, das culpas que escondemos, das vidas que imaginamos viver. Enquanto o mundo dorme, ela nos mantém acordados diante daquilo que evitamos enxergar sob a luz apressada do dia.
Ainda assim, de algum modo, fizemos as pazes.
Ela continua aparecendo sem aviso. Continua inconveniente. Continua ocupando horas que eu preferia entregar ao sono. Mas já não travamos guerra.
Agora nos fazemos companhia.
E talvez essa seja a única vitória possível.
‘A cidade dorme, a insônia não’, por João Roberto Giacomini
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