Anita Tetslaff (*) –
Ela já foi o abraço que o Brasil dava em si mesmo a cada quatro anos. A camisa amarela da seleção, um dos símbolos nacionais mais reconhecidos do planeta, atravessou décadas como um patrimônio afetivo compartilhado por 213 milhões de brasileiros, independentemente de partido, região ou classe social. Nos últimos anos, no entanto, vestir o amarelo deixou de ser apenas torcer. Passou a ser declarar posição. E, para muitos, tornou-se um gesto tão carregado ideologicamente que exige justificativa. Os símbolos nacionais foram sequestrados por um projeto político e por que devolvê-los ao povo é uma urgência democrática.
O fenômeno não surgiu por acaso. Entre 2019 e 2022, durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, houve um esforço deliberado de vincular as cores verde e amarela à sua imagem e ao seu projeto político. Programas sociais consolidados foram renomeados para incorporar as cores da bandeira: o “Bolsa Família” tornou-se “Auxílio Brasil”; o “Minha Casa, Minha Vida” passou a se chamar “Casa Verde e Amarela”.
O próprio Bolsonaro, ao ser perguntado sobre seu principal legado, respondeu: “há pouco tempo você não via as cores verde e amarela por aí. Hoje você vê em qualquer lugar uma bandeira na janela”. A frase, mais do que autoindulgente, descreveu com precisão um fenômeno real em que a transformação de símbolos nacionais se converteu em marcadores de identidade de um espectro político específico.
O historiador Eric Hobsbawm chamaria esse movimento de “tradição inventada”, onde a criação deliberada de práticas simbólicas é usada para produzir continuidade histórica e legitimar projetos políticos. O sociólogo Émile Durkheim, por sua vez, observou que símbolos coletivos funcionam como representações da própria sociedade e, quando monopolizados por um grupo, deixam de unir para começar a dividir. Qualquer semelhança, não é mera coincidência.
O resultado dessa operação foi devastador para a coesão simbólica do país. A camisa amarela, usada durante décadas por torcedores de todas as convicções políticas em estádios e ruas, passou a sinalizar pertencimento bolsonarista. Pesquisas e relatos indicam que parte da população passou a evitar o uso da camisa em espaços públicos, receando que sua vestimenta fosse interpretada como manifestação de apoio à extrema direita.
Em 2022, a própria CBF e seus patrocinadores lançaram campanhas publicitárias tentando “despolitizar” a camisa e resgatar seu caráter unificador. O presidente da entidade, Ednaldo Rodrigues, declarou publicamente: “A camisa da Seleção é de todos os brasileiros, não é desse ou daquele”. O narrador Galvão Bueno também entrou no debate: “Ela é sua, ela é minha, ela é de todos nós!”.
No entanto, as tentativas esbarraram em uma outra realidade. Em outubro daquele ano, a CBF presenteou um executivo da Nike com a camisa de número 22, o mesmo número de Bolsonaro na eleição. A entidade alegou que se tratava de referência ao ano da Copa, mas o episódio acendeu alertas sobre a dificuldade de separar o símbolo da política.
Se a direita se apropriou, a esquerda, por sua vez, abandonou. Parte significativa do campo progressista sempre tratou os símbolos nacionais com desconforto, associando sua exaltação ao nacionalismo conservador e à memória da ditadura militar. O problema, apontam analistas, é que a recusa em disputar esse terreno simbólico produziu um efeito contrário, ao se afastar da bandeira e das cores nacionais, a esquerda deixou este espaço vazio, pronto para ser ocupado.
O presidente Lula, já eleito, reconheceu o problema e declarou publicamente: “A gente não tem que ter vergonha de vestir a nossa camisa verde e amarela. O verde e amarelo não é de candidato, não é de partido. O verde e amarelo são as cores para 213 milhões de habitantes que amam este país”. A fala, embora necessária, chegou tarde, depois que o estrago simbólico já estava feito.
Em 2026, um novo episódio escancarou a profundidade do problema. O anúncio de que a seleção brasileira poderia ter uma camisa predominantemente vermelha, em parceria com a marca Jordan, gerou mais de 4,3 milhões de menções nas redes sociais em menos de 24 horas. Os termos mais buscados não eram sobre futebol ou design mas “camisa do PT”, “Lula”, “o Brasil não será vermelho” dominaram as conversas.
Como analisou o CEO da agência Ativaweb, Alek Maracajá: “Quando uma camisa da Seleção gera mais engajamento político do que esportivo é sinal de que a polarização virou uniforme oficial no Brasil”. O dado é alarmante porque revela que o símbolo máximo da união esportiva nacional foi completamente capturado pela lógica da guerra ideológica.
A lei brasileira estabelece que os símbolos nacionais – bandeira, hino, armas e selo – são bens públicos, patrimônios de toda a nação. A camisa da seleção, embora não seja um símbolo oficial no mesmo sentido, tornou-se, por uso e costume, uma extensão viva da bandeira no cotidiano.
A origem da camisa amarela, aliás, é um exemplo da potência simbólica do futebol brasileiro. Criada em 1953 a partir de um concurso público promovido pelo jornal “Correio da Manhã”, foi desenhada por Aldyr Garcia Schlee, um gaúcho de 19 anos, que venceu entre centenas de propostas. Não havia política ali. Havia a tentativa de construir um símbolo que representasse o país.
E representou. Durante décadas, a camisa foi usada por ditos e opositores da ditadura, por ricos e pobres, por nordestinos e sulistas, por petistas e tucanos. Ela funcionava, como descreve a literatura popular, como “o Brasil inteiro, por alguns minutos, olhando para a mesma direção”. Esse Brasil, no entanto, parece ter se perdido.
Devolver a camisa ao povo brasileiro não é um gesto ingênuo ou meramente simbólico. É uma necessidade republicana. Os símbolos nacionais não pertencem a um espectro ideológico, pertencem ao povo do Brasil, em sua multiplicidade de cores, sotaques e crenças.
O caminho para a reapropriação democrática desses símbolos passa por educação, por campanhas institucionais consistentes e, sobretudo, por um esforço coletivo de desarmar o olhar. Usar a camisa amarela não pode mais exigir justificativa. Cantar o hino nacional não pode ser ato de bravata ideológica. A bandeira hasteada na janela não pode ser lida como ameaça ou provocação.
O Brasil que pulsa nas vilas, nos campinhos de terra, nos bares de esquina e nas casas simples onde “sempre cabe mais um” merece reencontrar seus símbolos sem pedir licença. A camisa da seleção, antes de qualquer palanque, antes de qualquer ideologia, pertence a todos os brasileiros que colocam a mão no peito para cantar, sem vergonha, sem medo, sem ter que explicar que não é daquele lado, é só do Brasil.
(*) Jornalista. Professora. Doutoranda e Mestra em Educação, na Área de Concentração em História e Políticas e Gestão da Educação, pela UFGD. Especialista em Administração de Marketing, pela Uniderp. Especialista em Metodologia do Ensino, pela Universidade Braz Cubas.





