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‘A vitrine do agro e a dignidade esquecida do trabalhador’

Paulo Marcos Esselin professor titular aposentado da UFMS

Dias atrás, lendo as notícias nos jornais locais, uma delas me chamou a atenção e me fez lembrar da composição “Disparada”, de Geraldo Vandré e Theo Bastos, que em 1966 ganhou o primeiro lugar no 2º Festival de Música da Record. Com inspiração sertaneja, seus autores se valeram do carisma de uma história épica para denunciar o tratamento indigno dado pelos criadores rurais aos seus empregados.

O tempo passou. Os avanços tecnológicos também chegaram ao meio rural, e o gado bovino criado nos campos passou a contar com manejo adequado e continuamente aprimorado. Mas podemos afirmar que o mesmo ocorreu em relação aos trabalhadores responsáveis pelo manejo diário dos rebanhos nas fazendas? Tenho certeza de que não. Essa realidade ficou evidente na palestra proferida pelo psicólogo empresarial Aldo Aguilar Bianco, durante o tradicional evento organizado pelo Grupo Aliança Assessoria e Consultoria Pecuária, cujo objetivo principal foi divulgar aos presentes — entre eles, proeminentes figuras do cenário pecuário de Mato Grosso do Sul — os resultados do procedimento de Benchmarking Estação de Monta, obtidos em 2025 e em parte de 2026.

É bem verdade que, ao tratar do tema do benchmarking, ficou clara a diferença entre o posicionamento de Aldo Aguilar e o dos produtores rurais de Mato Grosso do Sul, que afirmam rotineiramente que um dos principais gargalos do agronegócio é contratar e manter trabalhadores. Especialista na área, com expressivo currículo, cerca de 35 anos de experiência executiva em instituições financeiras, como Itaú e Itaú Private Bank, e mais de duas décadas de atuação como consultor do setor agropecuário, ele sustenta que a principal dificuldade das propriedades rurais não estaria apenas na falta de mão de obra qualificada, mas na forma como os trabalhadores são geridos. “O problema não é falta de gente. É falta de investimento em gestão de pessoas.” ¹ Ainda segundo ele, “o produtor cuida muito bem do animal, acompanha toda a cadeia produtiva, não faltam vacinas, vermífugos e alimentação adequada etc.” ²

Ninguém discorda das suas citações acima. Porém, a sua narrativa seguinte causa estarrecimento até aos olhos de um cidadão comum- (que vive longe dos mugidos de rebanhos e que desconhece o preço da arroba de um boi): é quando ele afirma que o produtor, preocupado em cuidar muito bem do seu rebanho, “precisa olhar o ser humano (no caso, seus peões), COM A MESMA ATENÇÃO, porque todo esse processo exige o toque humano.”

Confesso que ela me remeteu à longa sombra da escravidão, que durou quase quatro séculos no Brasil e cujos vestígios ainda estão presentes nas relações de trabalho no campo. Quando se coloca o trabalhador rural na MESMA RÉGUA de comparação dos animais — equinos, bovinos, suínos e outros — o vocabulário empresarial do agro revela mais do que uma preocupação com gestão: revela uma mentalidade em que o ser humano é pensado dentro da mesma lógica da produtividade animal. A fala, ainda que talvez apresentada como conselho moderno de administração, acaba igualando o trabalhador ao animal dentro da lógica produtiva da fazenda, como se ambos fossem apenas fatores a serem manejados para garantir eficiência, rendimento e lucro. 

O consultor não está apenas dizendo que o ser humano merece atenção; ele revela que, no cotidiano do agronegócio, o cuidado com o animal é sistemático, planejado e mais valorizado do que o cuidado com quem trabalha.

Quando é preciso lembrar ao produtor que o trabalhador deve ser tratado com ao menos a mesma atenção dispensada ao rebanho, algo profundo está errado na organização social e moral desse modelo produtivo. Afinal, o trabalhador não é peça da engrenagem, não é insumo, não é ferramenta e muito menos extensão do curral. É sujeito de direitos, possui família, história, necessidades, sofrimento e dignidade. A comparação, portanto, expõe uma contradição brutal: um setor que se apresenta como moderno, tecnológico e eficiente ainda precisa ser chamado à atenção para reconhecer, no trabalhador, aquilo que deveria ser evidente desde sempre — sua condição humana.

Essa contradição precisa ser encarada de frente, sobretudo em Mato Grosso do Sul, onde a agropecuária é constantemente apresentada ao Brasil e ao mundo como exemplo de modernidade, eficiência, riqueza e sustentabilidade. Por trás das imagens- cuidadosamente produzidas- de lavouras intermináveis, rebanhos valorizados, máquinas de última geração e discursos de progresso, permanece a pergunta essencial: que modelo de desenvolvimento é esse que exibe orgulho tecnológico, celebra produtividade recorde e ACUMULA BENEFICIOS PÚBLICOS, mas ainda precisa ser lembrado de que o trabalhador rural deve ser tratado como ser humano? Se a grandeza do agro sul-mato-grossense depende de comparar gente a animal para reconhecer o mínimo de cuidado, então há algo profundamente errado nessa vitrine maravilhosa que se oferece ao país e ao mundo. Caso contrário, a letra da tocante canção “Disparada”, de Geraldo Vandré e Théo Borges continuará valendo e nos incomodando, mesmo depois de seis décadas: “Na boiada já fui boi (…) O tempo, o destino tudo estava fora de lugar.”

NOTAS

1, 2 e 3 -https://www.campograndenews.com.br/lado-rural/consultor-diz-que-falta-de-mao-de-obra-no-agro-e-problema-de-gestao-de-pessoas

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