Quando Patrick Clancy deixou sua casa em Duxbury, Massachusetts (EUA), em 24 de janeiro de 2023, não tinha como imaginar que uma rápida saída para buscar comida e remédio para a filha mudaria sua vida para sempre.
Quando retornou à residência na Summer Street, onde morava com a esposa, Lindsay, e os três filhos, encontrou a casa estranhamente silenciosa, segundo relataria mais tarde à polícia.
Ao procurar a família, Patrick tentou entrar no quarto do casal, mas encontrou a porta trancada. Quando finalmente conseguiu entrar, viu sangue no cômodo e a janela do segundo andar aberta.
Ele correu para fora e encontrou Lindsay caída no chão, sob a janela. Ela apresentava ferimentos nos pulsos e no pescoço.
Em desespero, ligou para o serviço de emergência.
“O que você fez?”, perguntou Patrick à esposa, segundo relato posterior de uma promotora assistente do condado de Plymouth sobre a gravação da chamada.
Lindsay respondeu que havia tentado tirar a própria vida.
“Onde estão as crianças?”, perguntou ele.
“No porão”, respondeu ela.
Momentos depois, Patrick Clancy pôde ser ouvido gritando em agonia e choque ao encontrar os filhos, afirmou a promotora Jennifer Sprague.
Os policiais encontraram Cora, de 5 anos, Dawson, de 3, e Callan, de 8 meses, inconscientes. Segundo os agentes, era evidente que os três haviam sido estrangulados.
As crianças foram levadas para hospitais da região, mas todas acabaram morrendo.
Lindsay Clancy, que ficou paralisada em consequência dos ferimentos sofridos na tentativa de suicídio, foi acusada de três homicídios e de estrangulamento pelas mortes dos filhos.
Seu julgamento está marcado para começar nesta segunda-feira (20).
Ex-enfermeira obstétrica de um hospital de renome em Boston, Clancy se declarou inocente e está internada no Hospital Público de Tewksbury, em Massachusetts.
Seu advogado, Kevin Reddington, sustenta que, embora ela tenha matado os filhos, não deveria ser considerada criminalmente responsável pelas mortes.
Especialistas ouvidos pela CNN afirmam que existem precedentes para esse tipo de argumento, mas que a defesa enfrenta um desafio significativo.
Ligação para o 911 e depoimentos de especialistas podem ser decisivos
Clancy, hoje com 35 anos, enfrentava há anos problemas de depressão e chegou a se internar voluntariamente em um hospital psiquiátrico menos de um mês antes das mortes, segundo seu advogado. Reddington afirma que mudanças nos medicamentos prescritos para tratar a depressão contribuíram para agravar seus sintomas.
“Nossa sociedade falha miseravelmente no tratamento de mulheres com depressão pós-parto ou até psicose pós-parto”, disse ele em uma audiência de 2023. “Esta situação é claramente resultado de uma doença mental.”
Ao longo das audiências preliminares, Reddington indicou que pretende argumentar que sua cliente não pode ser considerada criminalmente responsável pelas mortes porque estava em extremo sofrimento psicológico — estratégia conhecida como defesa por insanidade mental.
Em junho, defesa e acusação discutiram quais provas periciais poderiam ser apresentadas caso essa tese fosse formalmente adotada.
“Os jurados precisam entender por que Patrick e Lindsay Clancy procuraram médicos por causa da depressão e como ela levava uma vida de sofrimento terrível devido aos medicamentos”, argumentou Reddington.
Os promotores contestaram e sugeriram que poderão chamar seus próprios especialistas para depor sobre a questão da responsabilidade criminal.
Antes do julgamento, a acusação também pediu autorização para usar a gravação da ligação para o 911 feita por Patrick após retornar para casa. Os promotores afirmam que as descrições sobre como os filhos foram encontrados e os métodos utilizados por Lindsay para matá-los constituem evidência de premeditação deliberada, extrema crueldade e do estado mental da acusada.
O juiz estadual William F. Sullivan autorizou que os jurados ouçam a gravação e visitem a antiga residência da família, informou a afiliada da CNN WCVB.
A CNN informou ter procurado tanto a defesa quanto a promotoria para comentar o caso.
Caso os jurados concluam que Clancy não pode ser responsabilizada criminalmente pelas mortes dos filhos, o tribunal provavelmente iniciará o processo legal para sua internação em um hospital psiquiátrico estadual.
“Existe a percepção de que alegar insanidade é uma espécie de cartão para sair da prisão”, disse Joni Johnston, investigadora e psiquiatra forense que realiza avaliações psicológicas em criminosos.
“É uma defesa bastante rara e ainda mais raro é que tenha sucesso.”
Uma estratégia de defesa contra a corrente
A maioria das pessoas diagnosticadas com transtornos mentais, como transtorno bipolar ou esquizofrenia, não comete crimes violentos. Por isso, advogados que tentam fundamentar uma defesa por insanidade mental em condições como a psicose pós-parto geralmente enfrentam dificuldades, explicou Johnston.
“Você precisa convencer os jurados de que a pessoa estava tão comprometida e tinha o pensamento tão distorcido que não conseguia compreender que o que fazia era errado — mesmo sabendo, em tese, que matar é errado. E isso é extremamente difícil”, afirmou.
Em janeiro, Lindsay e Patrick Clancy entraram separadamente com ações judiciais contra os profissionais de saúde responsáveis pelo tratamento psiquiátrico dela nos meses anteriores às mortes.
Na ação de Lindsay, ela alega que sua saúde mental se deteriorou rapidamente após o nascimento do terceiro filho, o que a levou a buscar ajuda psiquiátrica para tratar insônia prolongada e depressão.
Segundo o processo, seus médicos não conseguiram diagnosticar e tratar adequadamente sua condição. Em vez disso, ela teria sido submetida a diversas mudanças de medicamentos psiquiátricos ao longo de quatro meses.
Como consequência, afirma a ação, ela agora enfrenta “uma vida inteira de deficiência física, trauma psicológico e a dor insuportável de acordar todos os dias sabendo que matou os próprios filhos — algo que poderia ter sido evitado se os réus tivessem prestado atendimento médico competente”.
Todos os profissionais citados no processo se recusaram a comentar o caso devido ao andamento da ação judicial.
Patrick Clancy parece compartilhar a visão apresentada pela defesa da esposa e pela ação civil.
“Eu não era casado com um monstro”, disse ele em uma entrevista concedida em 2024 após a morte dos filhos. “Eu era casado com alguém que ficou doente.”
(Informações R7)




