Paulo Marcos Esselin, professor titular aposentado da UFMS –
O termo “flaviete” tem sido usado para se referir aos apoiadores de Flávio Bolsonaro que defendem sua candidatura à Presidência, ainda que suas posições pareçam contrariar interesses nacionais ou populares.
A família Bolsonaro consolidou um histórico significativo de defesa de interesses pouco transparentes. Seus integrantes aplaudiram o anúncio de Donald Trump de impor uma tarifa de 50% sobre produtos exportados para aquele país, medida que provocou grandes prejuízos aos empresários nacionais e à população brasileira.
No plano nacional, as recentes posições atribuídas a Flávio Bolsonaro evidenciam uma contradição entre o discurso de defesa da soberania brasileira e uma prática política marcada pelo alinhamento aos interesses dos Estados Unidos. Segundo reportagem da Folha de São Paulo, o senador tratou medidas econômicas norte-americanas contra o Brasil como parte de sua estratégia eleitoral, sugerindo que sua aplicação fosse ajustada ao calendário político nacional. O episódio reforçou críticas de que interesses eleitorais estariam sendo colocados acima da defesa do país. 1
“o senador tratou medidas econômicas norte-americanas contra o Brasil como parte de sua estratégia eleitoral, sugerindo que sua aplicação fosse ajustada ao calendário político nacional”
O mesmo episódio também reacendeu críticas ao bolsonarismo por declarações consideradas autoritárias e discriminatórias, especialmente contra mulheres, ampliando o desgaste político do grupo em torno de sua candidatura.
Em Mato Grosso do Sul, a reação dos chamados “flavietes” diante dessas denúncias foi, até agora, o silêncio. A ausência de manifestação pública relevante ou de repúdio claro às declarações atribuídas ao candidato e a seus aliados pode ser interpretada como consentimento político. Quando questionados, muitos evitam o tema ou afirmam que não tratam dessas questões.
“Em Mato Grosso do Sul, a reação dos chamados “flavietes” diante dessas denúncias foi, até agora, o silêncio”
Esse silêncio, porém, não é neutro. Ele indica a preservação de compromissos eleitorais com Flávio Bolsonaro e com o campo conservador de direita ao qual esses apoiadores pertencem. Ao se omitirem diante de posições que aproximam a política brasileira dos interesses dos Estados Unidos, reforçam a percepção de alinhamento automático com Washington.
Na prática, a omissão revela uma escolha política: priorizar interesses eleitorais e afinidades ideológicas em detrimento da soberania nacional. Ao não confrontarem essa postura, os apoiadores locais acabam legitimando uma agenda que subordina o Brasil a interesses externos.
Essa contradição enfraquece o discurso de defesa da soberania brasileira, tão repetido em manifestações públicas do bolsonarismo. Quando seus representantes se calam diante de iniciativas que tratam o país como peça auxiliar de uma estratégia política subordinada aos Estados Unidos, o discurso patriótico perde consistência.
Também causa preocupação a disposição atribuída a Flávio Bolsonaro de manter uma futura equipe de transição à disposição do governo norte-americano. A proposta aprofunda a percepção de dependência política e sugere que decisões internas do Brasil poderiam ser acompanhadas ou condicionadas por interesses externos.
“Ao não confrontarem essa postura, os apoiadores locais acabam legitimando uma agenda que subordina o Brasil a interesses externos.”
Por isso, o silêncio dos apoiadores locais não pode ser tratado como simples cautela. Ele funciona como consentimento político diante de uma agenda marcada pela submissão a interesses externos, pela administração oportunista do tarifaço, por ataques ao Pix e pelo alinhamento automático com Washington. Aos setores produtivos, inclusive homens e mulheres do agronegócio, cabe perguntar: esse projeto realmente protege o Brasil ou apenas serve aos cálculos eleitorais de uma candidatura?
Diante de tanta contradição, talvez seja hora de devolver aos “flavietes” o slogan que tantas vezes repetiram: acorda, Brasil; acorda, Mato Grosso do Sul. Afinal, se a política nacional deve ser subordinada aos interesses de Washington, atualiza-se a velha ironia lembrada por Elio Gaspari: chega de intermediários, Donald Trump para presidente do Brasil.
NOTAS
1 https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/07/flavio-diz-a-eua-querer-se-libertar-do-mercosul-e-propoe-alivio-a-empresas-de-cartao-de-credito.shtm



