Paulo Marcos Esselin (*) –
Há poucos dias, um pré-candidato ao governo de Mato Grosso do Sul publicou nas redes um vídeo com duras críticas ao governador Eduardo Riedel; os acontecimentos recentes levantam dúvidas sobre a coerência entre discurso e prática do nosso chefe do executivo.
Para surpresa de todos nós que acompanhamos a vida política do Estado de Mato Grosso do Sul, no dia 04/05/2026 o governador, sem mais nem menos, com toda pompa, reuniu secretários, colaboradores, sindicalistas e deputado que costuma se apresentar como professor, mas que recorrentemente vota contra a categoria, para anunciar um novo concurso público para professores, com 2 mil vagas para a Rede Estadual de Ensino. A assinatura ocorreu durante reunião com a Federação dos Trabalhadores em Educação de MS (FETEMS), na Governadoria.
Ocorre que o concurso não ocorrerá este ano: o cronograma, o edital e as inscrições estão em fase de elaboração, e as datas não foram anunciadas. A Secretaria Estadual de Administração (SAD), responsável por organizar o processo, não prestou nenhum esclarecimento a respeito e mesmo que seja realizado, a Lei das Eleições (Lei nº 9.504/1997) impõe restrições para a nomeação, posse ou contratação de servidores.
“Ocorre que o concurso não ocorrerá este ano: o cronograma, o edital e as inscrições estão em fase de elaboração, e as datas não foram anunciadas”
De acordo com o governador, a decisão foi tomada após diálogo com a categoria. Diálogo que a categoria, na manifestação na Assembleia Legislativa, nega peremptoriamente. Na ocasião, o deputado estadual José Teixeira interveio e encaminhou um pedido ao governador para que recebesse a categoria; só assim a reunião ocorreu. Vale lembrar que, em 2023, os servidores denunciaram que o então governador só recebia pessoalmente representantes de entidades ligadas a partidos políticos que o apoiaram durante as eleições de 2022. (1)
“Na ocasião, o deputado estadual José Teixeira interveio e encaminhou um pedido ao governador para que recebesse a categoria; só assim a reunião ocorreu”
É bom lembrar que um concurso para professores seria muito bem-vindo em todo o estado e corrigiria uma injustiça vergonhosa que vem se perpetuando há muitos anos: apenas 28,8% dos professores da rede estadual são concursados, e 72,2% são contratados. Os primeiros recebem o salário integral, enquanto os demais recebem a metade do valor, embora a jornada de trabalho seja a mesma.
Ao protelar o concurso para o ano que vem, o que pretende o governador? Será que não cumprir o prometido?
A categoria deve ficar atenta: ele não costuma cumprir os compromissos assumidos. Os professores não são criadores de bovinos, equinos ou suínos, não cultivam soja; portanto, não gozam da simpatia dos atuais governantes. Estão entre aqueles que não costumam receber a atenção deles. Não se esqueçam: no ano que vem, em 2027, se reeleito, o governador vai aumentar a renúncia fiscal para o agronegócio. Será que o Estado terá recursos para contratar 2 mil novos professores?
“Os professores não são criadores de bovinos, equinos ou suínos, não cultivam soja; portanto, não gozam da simpatia dos atuais governantes”
Vejamos: nas eleições de 2022, o governador se comprometeu com a abertura de diálogo para pôr fim ao aumento da alíquota da previdência de 14%, que penalizou aposentados e pensionistas do Estado; com a equiparação dos salários dos professores convocados aos dos concursados na rede estadual; com a criação, no primeiro ano de governo, de um cronograma de concursos públicos para toda a gestão; com a construção, ao longo dos quatro anos de mandato, de 70 mil unidades habitacionais. (2) Riedel ficou devendo: os compromissos assumidos não foram cumpridos.
Em 27/05, surgiu mais um elemento de preocupação. Em pronunciamento no Plenário da Assembleia Legislativa, um deputado estadual afirmou que o governo de Eduardo Riedel estaria enfrentando “um colapso financeiro silencioso”. Segundo o parlamentar, esse cenário seria marcado por atrasos no pagamento de contas essenciais, dívidas milionárias com concessionárias e possíveis irregularidades constitucionais no repasse do duodécimo aos demais poderes.
“Em pronunciamento no Plenário da Assembleia Legislativa, um deputado estadual afirmou que o governo de Eduardo Riedel estaria enfrentando ‘um colapso financeiro silencioso'”
Com base em documentos, relatórios e denúncias, o parlamentar apontou atrasos no pagamento de serviços fundamentais, como: energia elétrica, água, telefonia e internet.
De acordo com o deputado, esses atrasos teriam provocado instabilidades inclusive em serviços de emergência, como 190, 193 e Samu. “O Estado está no escuro”, resumiu.
“esses atrasos teriam provocado instabilidades inclusive em serviços de emergência, como 190, 193 e Samu. ‘O Estado está no escuro'”
Se esse diagnóstico se confirmar, a gravidade do quadro é evidente. Além da situação econômica apontada pelo parlamentar, o anúncio do concurso público para professores suscita uma dúvida objetiva: diante de atrasos em despesas essenciais e de sinais de desequilíbrio fiscal, haverá condições reais para contratar 2 mil novos professores?
E se a população resolvesse seguir o mau exemplo do governo e deixasse de pagar suas contas de água, energia, telefonia e outros serviços essenciais? Certamente seria cobrada, multada e, em muitos casos, teria o fornecimento interrompido. A pergunta, portanto, é inevitável: por que o cidadão comum deve arcar rigorosamente com suas obrigações enquanto o próprio Estado, que deveria dar o exemplo, acumula atrasos e transfere à sociedade os efeitos de sua má gestão?
“por que o cidadão comum deve arcar rigorosamente com suas obrigações enquanto o próprio Estado, que deveria dar o exemplo, acumula atrasos e transfere à sociedade os efeitos de sua má gestão?”
(*) Professor titular aposentado da UFMS
NOTAS
2. https://especiais.g1.globo.com/ms/mato-grosso-do-sul/2023/as-promessas-de-eduardo-riedel/#/posse
3. Agência ALEMS: https://al.ms.gov.br/Deputado/Noticias/145274/o-estado-de-ms-esta-no-escuro




