Em tempos de hiperinformação, cientistas apontam queda na capacidade cognitiva, superficialidade emocional e um novo perfil social
Anita Tetslaff (*) –
“Nunca houve tanta informação e, ao mesmo tempo, tanta superficialidade emocional, intelectual e humana.” A frase é do neurocientista e médico Miguel Nicolelis, uma das principais autoridades brasileiras em neurociência. Para ele, vivemos uma contradição explosiva, em que o acesso massivo ao conhecimento não gerou lucidez generalizada, mas sim um ambiente fértil para a ignorância espetacularizada.
A pergunta que ecoa na comunidade científica é incômoda: a ignorância virou moda? A resposta, ainda que provisória, vem acompanhada de dados e de uma advertência de que há uma diferença brutal entre impacto e profundidade. O espetáculo impressiona rápido; a lucidez transforma lentamente. E, nesse hiato, uma geração inteira corre o risco de desaprender a pensar.
O retrato do alfabetismo funcional no Brasil
O raciocínio de Nicolelis encontra lastro empírico nos indicadores mais recentes de alfabetismo funcional. O Inaf (Indicador de Alfabetismo Funcional), edição 2024/2025, traça um panorama preocupante.
Os Indicadores corroboram o diagnóstico. No Brasil, 7% da população é analfabeta, 22% lê de forma rudimentar, 36% tem nível elementar com limites de interpretação, 25% é intermediário e apenas 10% é proficiente. Isso significa que 65% dos brasileiros apresentam graves dificuldades de compreensão ao pensamento crítico, exatamente a mesma fatia que busca informação prioritariamente nas redes sociais em busca de recompensas imediatas.
Para especialistas em direitos humanos e cidadania, a situação é ainda mais grave: 29% dos brasileiros estão em nível tão elementar que sua compreensão sobre temas como democracia, liberdade de imprensa e deveres do Estado é frágil ou inexistente.
Geração Z: nativos digitais, déficits reais
O cenário atinge com particular força a chamada geração “Z”, nascidos entre meados de 1995 e 2012, os primeiros “nativos digitais”. Para esses jovens, o celular não é uma ferramenta, mas uma extensão sensorial. A questão, alertam neurocientistas, é que essa imersão precoce e contínua está gerando efeitos colaterais cognitivos graves.
O neurocientista francês Michel Desmurget, autor do best-seller “A fábrica de cretinos digitais: o perigo das telas para as nossas crianças”, é direto ao afirmar que estamos formando uma geração com menor capacidade cognitiva e pensamento crítico reduzido. Não por acaso, alguns pesquisadores já se referem a esse grupo como a “geração mais estúpida da história” – não por maldade, mas por desaprendizado sistemático da reflexão.
Desmurget lembra que, desde os anos 1980, após décadas de alta contínua, o QI médio das gerações contemporâneas começou a cair. A coincidência histórica é reveladora porque foi justamente nesse período que começamos a trocar esforço mental por facilidades tecnológicas.
As quatro leis da estupidez humana
O professor Cláudio Rabelo, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), inspirado em Carlo M. Cipolla e seu livro “As Leis Básicas da Estupidez Humana”, alerta para a dissonância cognitiva que se alastrou no país. Cipolla classificou os perfis sociais em quatro categorias: o inteligente (ganha e todos ganham), o ingênuo (perde para que outros ganhem), o bandido oportunista (ganha fazendo os outros perderem) e o estúpido (perde e faz todo mundo perder).
Rabelo ressalta que a estupidez não se caracteriza pelo desconhecimento. Uma pessoa com pouca instrução ou poucas oportunidades é, muitas vezes, vítima do ambiente, e isso a torna ingênua, não estúpida. A estupidez, no sentido cipolliano, é ativa, contagiosa e autodestrutiva. Travestida de inocência ou virtude, ela pode ser mais perigosa que a maldade, pois causa danos desproporcionais sem que o estúpido, muitas vezes, sequer perceba o mal que está causando.
Ano eleitoral, IA e a exaltação da ignorância
Em um ano eleitoral no Brasil, a combinação entre baixo alfabetismo funcional, dependência de redes sociais e proliferação de inteligência artificial generativa produz um coquetel tóxico. Vídeos deepfake, áudios manipulados e textos gerados por IA circulam na mesma velocidade e com a mesma aparência de veracidade que o conteúdo jornalístico.
A ignorância que virou moda, afinal, não é apenas falta de informação. É recusa à complexidade. É a preferência pela recompensa imediata do like em detrimento do esforço lento da compreensão. É o triunfo provisório do espetáculo sobre a lucidez.
Pergunta final: o que você tem visto mais por aí?
O artigo jornalístico não responde, pergunta. E devolve ao leitor a questão que Miguel Nicolelis, Michel Desmurget e Cláudio Rabelo deixam em aberto:
No seu dia a dia, você tem encontrado mais gente inteligente, gente ingênua, gente bandida oportunista ou gente estúpida?
A resposta, provavelmente, será o melhor diagnóstico do nosso tempo.
(*) Jornalista. Professora. Doutoranda e Mestra em Educação, na área de concentração em História e Políticas e Gestão da Educação, pela UFGD. Especialista em administração de marketing, pela Uniderp. Especialista em metodologia do ensino, pela Universidade Braz Cubas/Unigran.




