Por Erminio Guedes –
Sinto o gosto nativo falando
num verde que não tem pressa
e mora na boca da gente.
O chá jesuíta que veio do tekoha
— velha herança guarani,
com o aroma do barbaquá.
Caá-Yaríi brotou no arbusto verde,
trazendo hospitalidade nas folhas
e a força de permanecer,
no gesto simples de respeitar
o rito sagrado da cuia
de mão em mão na confraria.
Encantador chá primitivo,
cuidador do espírito e do corpo,
evangelho de igualdade.
Simbolizas a tradição:
abres o apetite, esfrias a paixão,
e limpas a graxa da carne do comilão.
Mas desconfio, que abre o espírito
E agrada a alma e o coração.
Na roda, a gente aprende,
meio criança,
que o mate limpa a ferrugem
e esfria certas raivas,
e que o céu, se bem olhado,
num só gole cabe dentro da gente.
Quente ou gelado,
chimarrão ou tereré
— em qualquer lugar, a mesma devoção.
No frio da madrugada
ou no calor do Pantanal,
no campo ou no galpão,
no rancho ou na catedral.
É a ronda de almas puras,
cuidando do ouro celestial.
Tereré, o último gole da terra,
como Zíngaro no violão:
“solte o coração — doce como convém —
e no amargo que essa erva tem.
Seja lá quem for, dance chamamé
e venha pra roda do tereré”.
A Deus que é mateador,
peço, antes do fim,
um chimarrão de estrivo,
com o sabor do batom na prata.
E se assim Ele quiser,
peço que na estância divina,
a mão estendida da china,
alcance um mate pra mim!
Caá-Yaríi, doce criatura que renasceu,
para ensinar que o frio não me congelou,
que o calor não me amoleceu
e que a alegria sobreviveu
e que o amor permaneceu.


