Por João Roberto Giacomini – advogado & escritor
Ele não contou a ninguém.
Não foi exatamente por medo de julgamento — embora sempre exista algum —, mas porque percebeu algo que a gente só entende com o tempo: quando um sonho é dito cedo demais, ele passa a depender da reação dos outros para continuar de pé.
E ele não queria isso.
Era um sonho simples. Nada grandioso, nada que chamasse atenção numa conversa de fim de tarde. Não exigia talento raro, nem dinheiro, nem coragem espetacular. Exigia algo bem menos admirado: constância.
Durante o dia, a vida seguia como sempre.
Compromissos, horários, pequenas obrigações que não permitem grandes desvios. Conversas comuns, respostas automáticas, aquela sensação de que tudo está funcionando — mas nada, de fato, está acontecendo.
À noite, porém, havia um pequeno desvio.
Nada cinematográfico. Sem música de fundo, sem revelação repentina. Apenas o momento em que ele decidia não adiar.
Sentava-se.
E fazia o que precisava ser feito.
Nem sempre com vontade. Nem sempre bem. Às vezes cansado, outras vezes distraído. Mas fazia.
E isso, no começo, incomodava.
Porque viver um sonho não começa bonito. Começa estranho. Como se você estivesse ocupando um lugar que ainda não é totalmente seu.
Havia dúvidas, claro.
Não exatamente sobre o sonho — esse insistia —, mas sobre a capacidade de continuar. A vida não facilita. Interrompe, atrasa, cansa. E, quando a gente percebe, já não foi um dia… foram semanas.
Ele pensava nisso.
Pensava em quantas vezes as pessoas confundem sonhar com esperar. Como se, em algum momento, tudo fosse se alinhar sozinho.
Não se alinha.
O que existe, na maior parte do tempo, são dias comuns. E são justamente esses dias que decidem tudo.
Porque não pedem coragem extrema.
Pedem presença.
E foi ali, no meio dessa rotina sem brilho, que algo começou a mudar — não fora, mas dentro. O sonho deixou de ser uma ideia bonita e passou a ser um gesto repetido.
Pequeno. Quase invisível.
Mas constante.
Ninguém percebeu.
E talvez essa seja a parte mais difícil: alguns sonhos não vêm acompanhados de aplausos enquanto acontecem.
Eles crescem em silêncio.
Se um dia ele vai chegar exatamente onde imaginou, ainda não se sabe.
Mas há algo que já mudou — e isso ninguém tira.
O sonho deixou de ser um plano.
Virou um jeito de viver.
E, quando isso acontece, desistir já não parece descanso.
Parece escolha.




