Ilson Boca Venâncio: ‘Um bate papo com Armando dos Milionários do Ritmo’

Ilson Boca Venâncio –
No dia cinco de fevereiro deste ano (2022), o personagem dessa minha história completa oito anos que partiu desse plano terrestre, mas teve uma existência tão intensa entre nós, que ele continua presente quando o assunto é música, afinal foram quarenta e seis anos de dedicação a ela aqui na nossa cidade.
Foram bailes, festivais, casamentos e outras tantas participaçòes que deixaram boas recordações na vida dos douradenses.
Essa minha conversa com ele aconteceu quando ainda gozava de boa saúde e ativo com a música, morando em seu apartamento na Avenida Presidente Vargas.
Eu tinha ido visitá-lo, era meu amigo de velhos tempos, Armando José Piai, um pacato cidadão que preservava a família, as boas amizades, uma cervejinha na geladeira e a boa música. Eu o conheci quando chegou a Dourados em 1968 ano em que foi decretado o AI 5 (artigo inconstitucional número cinco) que teve o objetivo de cassar a liberdade de pensamento, através da censura a criação intelectual, entre outros direitos, bom lembrar para não esquecer desse período ruim que vivemos no auge da ditadura militar.
Em conversa me contou que começou a estudar música em um conservatório em Adamantina sua cidade natal, onde por oito anos estudou acordeom, tendo que abandonar o estudo devido a mudança de seus pais vindo morar em Mato Grosso.

Deixando o acordeom de lado, passou para tocar o órgão, depois o teclado, instrumento com mais recursos disponível o qual lhe deu mais independência na interpretação de seu repertório.
Mudando para Campo Grande, com a finalidade de servir na corporação do exército, tornou-se músico da banda militar e aí quando deixou a corporação passou a tocar nos clubes da cidade: Surian, Círculo Militar, Sírio Libanês, Rádio Clube, até vir morar em Dourados em 1968.
Sua vinda para morar em Dourados, foi a convite do nosso saudoso Walter da Silva Brandão, diretor presidente do Clube Social para tocar no conjunto Milionários do Ritmos grupo formado sobre o comando de Sérgio Albano para abrilhantar os bailes no Clube Social e em outra cidades da região.
Já naquele ano nascia em Dourados o l Festival da Música Popular Brasileira, idealizado e produzido pelo Sr. Ataliba gerente da loja de Móveis onde Armando trabalhou por vários anos com vendas.
Este festival aconteceu em quatro edições de 1968 a 1971, e eu que não sou de ficar de fora participei de todas as edições. Ele me afirmou sentir saudades daqueles tempos quando a música estava presente na vida da cidade e das pessoas. No clube a dança de salão e a boa música estava na moda. A música popular brasileira, parceira do cotidiano popular era a preferida. Sem saudosismo, mas, posso afirmar que a música popular do mundo era bem melhor, ou melhor dizendo era mais criativa.

Nesse período, os festivais aconteciam no Brasil e em muitos lugares do planeta, o festival de Woodstock popularizava o rock`n roll pelo mundo e aqui em Dourados Armando, Nico, Moacir Costa, Chicão, Adalberto Zulú, Marcilio Menezes, José Alencar, Jafrer, Lobão, Osvaldo Escurinho, Osmar Manivela, Bráulio, Papagaio, Tim, Dali Von, Toninho, Robertão, Pitú, Piola, Gruny, Elói, Simona e muitos outros músicos que passaram por nossa cidade, reproduziam ao vivo e a cores o melhor desse rock’n roll, nacional e internacional, e tudo que era inovação na música popular brasileira.
Para nós que éramos jovem apaixonados pelo rock’n roll, e as novidades da música, que amávamos os The Beatles e Rolling Stones, além de Santana, Jane Joplin, Led Zeppelin, Black Sabbath, Mutantes, Raul Seixas, Serguei, Pink Floyd, Jimi Hendrix, David Bowie, The Who, Creedence, The Door, The Byrds e outras bandas da época delirávamos nos bailes jovens.
As seleções de rock sempre terminavam com Satisfaction dos Rollig Stones para o delírio do saudoso Oduvaldo Silva, popular “Massaroca”.
Para o músico Armando, Dourados foi uma cidade abençoada pela música, e se sentiu muito feliz por conviver com tantos músicos de tamanha qualidade. Seu envolvimento foi tão forte que aqui ficou, casou-se, criou os filhos continuou a sua trajetória vivendo da música.
Observou que havia festivais e as pessoas podiam criar, a criatividade é boa em qualquer segmento. Características técnica eram valorizadas, porém a evolução, involuiu alguns conceitos e assim muitos músicos ficaram sem espaço por não se submeter a fazer o que não condiz com seu estilo, enquanto outros que até desconhecem as notas musicais foram ocupando o espaço.
Armando tinha a carteira da Ordem dos Músicos de número 40, achava que com a facilidade da tecnologia, alguns valores fundamentais da música se perderam diminuindo os espaços para bons músicos, dizendo que muito do que predominou não foi a arte dos artistas em seus instrumentos, ou com a voz, houve um incremento de muita parafernália tecnológica, onde qualquer som já se afirmam como música.
Armando citou como bom exemplo o amigo guitarrista Jafrer, que fabricava o próprio instrumento no porão do clube Social. e conseguia extrair sons que até então a tecnologia não oferecia. ”Ele andava na frente, afirmava Armando!”.
Apesar da dificuldade que era o tempo do radinho de pilhas e o gravador com fitas cassete, com os quais eles gravavam as músicas de lançamentos da época, ensaiavam para levá-las ao público em primeira mão, antes que se tornassem conhecidas com grande entusiasmo.

As dificuldades eram compensadas pelo reconhecimento do público que tinha nas suas músicas fonte de diversão e relacionamento social, os bailes se diferenciavam em diferentes estilos dos mais sofisticados com trajes a rigor, clássicos social, passeio completo, até a calça Lee e camiseta todos tinham seu espaço.
Com a criação da fundação de cultura ligada ao esporte e lazer, mesmo contra a vontade dos artistas, que tinham opinião contrária a essa composição, pouco se pode fazer pela arte, com o olhar dos políticos focado preferencialmente no esporte e lazer, a cultura foi perdendo a espaço como um hábito social de convívio.
Os gestores públicos da cultura sem força política, pouco envolvida com nossa história, quase nada fizeram, o resultado tai, uma cidade que não valoriza a sua cultura, sem memória arquitetônica, quase nada a oferecer a atuais e futuras gerações, mais se quisermos algo melhor no futuro é necessário fazer agora, essa foi uma constatação do Armando naquela época e que pode ser reforçada no momento atual.
Meu amigo lembrou que no passado havia injustiça com os músicos locais, os grandes bailes como réveillon ou carnaval, que tinha uma remuneração maior, se contratavam músicos de fora. E aí o Clube nipônico promoveu os bailes de carnaval em sua sede social, com músicos locais, naqueles anos foram os mais justos e animados da cidade.
Hoje de todo recurso gasto em nome da cultura, pouquíssimo é destinado a produção e divulgação da arte local.
“Criar uma Secretaria com bom orçamento, um plano diretor para a cultura, é se preocupar com o futuro, é não caminhar a esmo sem direção! Querer que o acaso resolva aquilo que não fizemos, é permitir que presente e futuro fosse deficiente como é hoje o nosso. Poder investir na cultura é valorizar a história e identidade de um povo, arte é trabalho sensibilidade, criatividade que valoriza o ser, é qualidade de vida.” Afirmação dele na época que reforço ainda hoje como a mais profunda verdade.
Mais Armando preferiu pensar que o tempo dele passou que hoje só restou a saudade, e a lembrança dos bons tempos. Mesmo assim continuou com seu quarteto, atendendo ao seu público tocando em festas e casamentos, sempre levando a “boa” música em seu repertorio.
Eu que nasci nesta terra guarani, torcedor de carteirinha da boa música, só tenho a agradecer ao saudoso amigo Armando José Piai, por esse gostoso papo, que foi cheio de emocionantes recordações e desejar que nossos governantes pensem um pouco no que representa a arte e cultura na vida de um povo.




