Ao longo de 56 anos de jornalismo, descobri que existe um elogio escondido dentro de quase toda ofensa dirigida a quem insiste em pensar com a própria cabeça
Valfrido Silva, do Contraponto MS –
Há muito tempo deixei de me preocupar com os adjetivos que me atribuem. Eles variam conforme o governo, a eleição, o partido ou a paixão política do momento. Já fui chamado de comunista, direitista, petista, bolsonarista, vendido, ingênuo, arrogante, sonhador, traidor e, mais recentemente, de louco, doente. A novidade dura pouco. Os rótulos mudam com a mesma rapidez das manchetes. O que permanece é outra coisa: a velha dificuldade que alguns têm de aceitar que um jornalista possa simplesmente escrever aquilo que pensa.
Essa semana publiquei um artigo sobre a greve nas universidades federais. Não neguei a greve. Apenas contestei uma narrativa que transformava uma realidade muito mais complexa numa caricatura conveniente para a guerra ideológica. Bastou para que um velho conhecido abandonasse os argumentos e recorresse aos diagnósticos. Disse que continuo “me achando”. Em seguida escreveu uma frase curiosa: “Um dia você vai se encontrar.”
Confesso que fiquei pensando menos na ofensa do que na escolha das palavras. O que significa, afinal, “se achar”? Será acreditar que, depois de cinquenta e seis anos de profissão, ainda posso discordar de alguém sem pedir licença? Será recusar jabá in natura como se fosse reportagem pronta? Será continuar desconfiando das versões oficiais, sejam elas produzidas por governos, partidos, empresas ou candidatos? Se for isso, receio não ter mais cura.
Comecei no jornalismo quando ainda existiam componedores, linotipos e páginas montadas em chumbo. Antes de assinar uma coluna, varri redação. Fui compositor, rádio-escuta, plantonista esportivo, repórter de campo na velha LEDA, redator, editor, chefe de reportagem, correspondente, diretor de Jornalismo da TV Morena. Trabalhei em rádio, jornal impresso e televisão. Passei por praticamente todos os degraus que uma redação pode oferecer. Não conto isso como currículo. Conto porque aprendi uma lição simples: quem conhece o jornalismo desde o chão da oficina gráfica costuma desenvolver alergia à unanimidade.
Também descobri outra coisa ao longo do caminho. Os processos judiciais que respondi e respondo até hoje quase nunca vieram dos leitores. Vieram, em sua maioria, de políticos incomodados, grupos econômicos contrariados e personagens que preferiam atacar o mensageiro a responder ao conteúdo da mensagem. Faz parte do ofício. Nunca gostei. Mas nunca me surpreendeu.
O que ainda me surpreende é a facilidade com que alguns colegas trocam argumentos por adjetivos. Jornalistas deveriam combater ideias com ideias, fatos com fatos, interpretações com interpretações. Quando a discussão termina em “você se acha”, alguma coisa importante já ficou para trás.
Talvez exista uma confusão recorrente entre independência e vaidade. Não são a mesma coisa. Vaidade é acreditar que nunca se erra. Independência é preservar o direito de errar por conta própria, sem precisar consultar partidos, governos, empresas, patrocinadores ou grupos de pressão antes de escrever um texto.
Nunca tive vocação para rebanhos. Essa talvez tenha sido minha maior qualidade e meu maior defeito. Custou amizades, cargos, processos e algumas boas noites de sono. Em compensação, permitiu-me chegar aos setenta e dois anos ainda com a liberdade de publicar um artigo que desagrada simultaneamente à esquerda e à direita. Não conheço patrimônio profissional mais valioso do que esse.
Há quem interprete essa postura como arrogância. Prefiro chamá-la de insubordinação. Não aquela praticada por quem grita mais alto ou ofende primeiro, mas a de quem continua acreditando que jornalista não existe para confirmar convicções alheias. Existe para fazer perguntas, levantar dúvidas e, quando necessário, contrariar expectativas.
Talvez seja justamente isso que alguns chamem de “se achar”. Se for, aceito a condenação. Pior seria passar cinquenta e seis anos nesta profissão e terminar acreditando que o papel do jornalista é agradar tribos, reproduzir releases sem reflexão ou escolher previamente de que lado ficará antes mesmo de conhecer os fatos.
Depois de mais de meio século de redação, tenho apenas uma certeza. O jornalista verdadeiramente livre não é aquele que nunca desagrada. É aquele que continua escrevendo mesmo sabendo que vai desagradar.



