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Valfrido Silva: Liberdade ainda que tardia

Artigo – 09/02/2008

Valfrido Silva * 
“O jornalismo é um inferno, um abismo de iniqüidades, de mentiras, de traições, que não se pode atravessar e de onde não se pode sair puro, senão protegido, como Dante, pelos louros divinos de Virgílio”. Palavras de Honoré de Balzac, no livro “As ilusões perdidas”, numa analogia do exercício desta profissão com a viagem de Dante ao inferno e ao purgatório, onde o autor da “Divina Comédia” teve por guia o poeta Virgílio, que o acompanhou até o limite do paraíso terrestre.
Passados quase vinte anos, de vez em quando alguém ainda me pergunta por que deixei a diretoria de jornalismo da TV Morena, cargo ainda hoje dos mais cobiçados no jornalismo estadual. Desconverso, sempre, dizendo que foi por causa do estresse, para não morrer de hipertensão, mal diagnosticado durante minha passagem por Brasília no período da Assembléia Nacional Constituinte. Não foi bem esta a história, mas como ela virá a público logo, logo, em meu segundo livro, resolvi adiantar um desses motivos, talvez a gota d’água.
Minha ida (pela terceira vez) para a TV Morena aconteceu no mesmo ano em que Gandhi Jamil, genro de Ueze Zahran, deu uma de louco e resolveu peitar Pedro Pedrossian na disputa pelo governo do Estado. Imaginem a encrenca em que me meti. Mas tudo bem, tirei de letra, embora o chefão Fahad não tenha ficado muito satisfeito com minha atuação à frente da TV que ele imaginava poder manipular.
Durante e depois da campanha eleitoral tive carta branca de Ueze Zahran para tocar as coisas de acordo com as regras do bom jornalismo. E assim foi feito, inclusive numa ocasião em que um membro da família da mulher dele se envolveu numas dessas encrencas da fronteira, e noutra em que empresários amigos de Jorge Zahran resolveram dar um golpe num frigorífico, em Aquidauana.
Tudo ia bem até que um dia recebo um telefonema de Cláudio Nogueira, secretário de comunicação do já então governador Pedrossian, convidando-me para “começar a governar”. Isso, depois de um amigo, também da cúpula pedrista, acenar-me com a direção da TVE estadual caso alguma coisa desse errado comigo na TV Morena.
Por coincidência, no mesmo dia do telefonema de Cláudio Nogueira, eu havia pautado o repórter Carlos Voges para fazer uma matéria com críticas à forma equivocada com que começava a ser conduzida a área de comunicação do governo. Não deu outra, no segundo telefonema do dia o tom do secretário já havia mudado. O convite para começar a governar dera lugar a ameaças e críticas ao trabalho jornalístico da emissora.
Como tinha o maior apreço pelo governador, e, consciente de que mais cedo ou mais tarde ele se sentaria com seu Zahran para tratar dos altos interesses do Estado e dos do grupo ao qual pertencia a TV, não tive dúvida, peguei o boné e voltei para Dourados.
Mas por que só agora conto essa história? Sei lá, acho que ainda é a ressaca do carnaval, talvez influência da frase estampada no carro alegórico da escola de samba carioca Viradouro, que substituiu a alegoria censurada por mostrar os horrores do holocausto. Esse negócio de censura me dá arrepios. É isso.
* jornalista: [email protected] 

Fonte: Folha de Dourados

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