A imagem de um avatar do governador Eduardo Riedel dando boas-vindas a jornalistas, radialistas, influenciadores digitais, pré-candidatos e produtores de campanha abriu, neste fim de semana em Campo Grande, a palestra “Democracia na era da IA: entre algoritmos e votos, o novo campo de batalha eleitoral”. A apresentação foi conduzida por Bosco Martins, jornalista e estudioso de inteligência artificial, que também é o primeiro profissional da imprensa brasileira a produzir um videojornal inteiramente gerado por IA.
Em sua exposição, Martins destacou o potencial da tecnologia para transformar as eleições de 2026 — seja barateando custos, seja amplificando riscos como a desinformação e os deepfakes. “A IA tem potencial para tornar as campanhas 50% mais baratas, reduzindo o preço pela metade”, afirmou. “Mas também há risco de disseminação de imagens falsas contendo desinformação.”
Barateamento e risco andam juntos
O especialista explicou que o uso da IA generativa representa um fenômeno novo, capaz de mudar a trajetória das campanhas e influenciar diretamente o voto de quase 2 milhões de eleitores espalhados pelos 79 municípios de Mato Grosso do Sul — sendo 52% do eleitorado feminino.
“Por um lado, a IA vai baratear as eleições e torná-las mais democráticas. Por outro, há preocupação com a disseminação de mentiras e com o uso de deepfake”, resumiu.
Como exemplo do uso da tecnologia, Bosco citou a pré-campanha presidencial de Romeu Zema (Novo), que tem empregado IA de forma intensiva na produção de vídeos virais nas redes sociais, com avatares e vozes sintéticas. “O partido que tem utilizado com maior ênfase a IA em campanha nacional é o de Romeu Zema”, afirmou. A estratégia inclui ataques a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), como em um vídeo com fantoches que simulam os magistrados, ironizando o pedido do ministro Gilmar Mendes para incluir o ex-governador no inquérito das fake news.
Transparência como regra
Martins ressaltou que, para uma campanha bem-sucedida, a transparência é indispensável — exatamente como estabelece a resolução do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que regula o uso da IA nas eleições. “A desinformação pode destruir uma campanha.
Com a percepção correta da funcionalidade da IA, espera-se que não tenhamos muitos vídeos manipulados, mas os deepfakes ao longo da campanha serão inevitáveis, dada a dificuldade de identificar seus autores”, afirmou. “Inteligência artificial não pensa, não entende o contexto como nós, não tem intenção. Ela não sabe o que é verdade.”
O desafio da regulação e os limites da fiscalização
Mesmo com a regulamentação do TSE, o eleitor não estará completamente livre do risco de ser enganado por simulações hiper-realistas que “embaralham a fronteira entre verdade e ficção”, segundo o jornalista.
“A regulação, por si só, não resolve tudo. A IA é ferramenta — e, como tal, pode ampliar tanto a informação de qualidade quanto a desinformação”, avaliou. “Algoritmos são capazes de mapear emoções, explorar medos e reforçar crenças, influenciando o debate público de maneira silenciosa e profunda. Quando tudo pode ser manipulado, até o que é verdadeiro passa a ser questionado.”
Para Martins, o desafio real não está apenas na criação das regras, mas na sua efetividade. “A dinâmica das redes, a velocidade dos compartilhamentos e a criatividade de quem quer burlar o sistema impõem limites à fiscalização. Ainda assim, instrumentos como o sistema de alertas da Justiça Eleitoral abrem espaço para a participação da sociedade nesse controle.”
Ele avalia que a eleição de 2026 será, em muitos aspectos, um teste: não apenas da força da inteligência artificial, mas da capacidade das instituições e dos cidadãos de manterem o processo eleitoral íntegro. “A IA não é a ameaça — nem a solução. É o uso que faremos dela que definirá se estaremos diante de um avanço democrático ou de um atalho perigoso.”
IA contra IA: ferramentas de verificação
Bosco Martins também destacou que a própria tecnologia pode atuar a favor da ética e da transparência. Ele citou o bot “Tá Certo Isso Aí?”, desenvolvido pela Universidade de São Paulo (USP), que analisa automaticamente textos, áudios, imagens e vídeos, cruzando dados com fontes oficiais para combater a desinformação de forma ágil. O serviço está disponível pelo número +55 35 98424-8271, para onde o usuário pode enviar qualquer conteúdo suspeito.
Evento promove debate sobre ética e prepara encontro nacional em MS
A palestra foi promovida pelo Clube da Imprensa, cuja diretoria defende a realização de mais debates sobre ética, transparência e o uso da IA com base na regulamentação da Justiça Eleitoral. Entre os dias 22 e 24 de julho, o auditório do Bioparque Pantanal, em Campo Grande, sediará a 59ª edição do Colégio de Corregedoras e Corregedores Eleitorais do Brasil (Ccorelb), que terá como um dos principais focos o combate às fake news impulsionadas por IA nas eleições deste ano.
Para o presidente do Clube da Imprensa, Lupércio Marques, o evento foi “um daqueles dias de troca, reflexão e conexões que fortalecem o jornalismo”. Já a empresária de comunicação Maria Cândida, proprietária da rádio Difusora/Jovem Pan de Três Lagoas, avaliou que o tema foi abordado “com relevância e profundidade, evidenciando o potencial da IA como ferramenta estratégica para inovação”.
A jornalista Guta Rufino, também da Jovem Pan de Três Lagoas, elogiou a escolha do palestrante: “IA deixou de ser novidade e virou centro do trabalho jornalístico, principalmente em ano eleitoral. Ver alguém da experiência do Bosco Martins, que já usa IA no dia a dia, produzindo, testando, atuando, e preparando uma palestra desse nível para jornalistas do estado inteiro foi muito acertado.” Tião Prado do site Ponta Porã Informa considerou: “Muito interessante, pois mostrou que a IA, sendo usada da maneira correta, vai ser uma ótima ferramenta nas próximas eleições, os políticos têm que atentar para isso, nada de fakenews”.
O jornalista Lile Corrêa, de Ponta Porã, afirmou que “a comunicação de Mato Grosso do Sul viveu um momento histórico com a realização desse onde celebramos o legado de quem sempre soube transformar informação em arte e compromisso.”
Confraternização e homenagem
Ao final da palestra, o evento terminou em clima de confraternização, com os participantes cantando parabéns a Bosco Martins, que completa “60+ alguns anos” no dia 27 de abril. O bolo foi um presente do presidente Lupércio Marques.
Estiveram presentes: Augusta Rufino (Guta) e o cinegrafista Josias (Jovem Pan/Difusora de Três Lagoas), Maria Cândida (proprietária da Difusora de Três Lagoas), Lile Corrêa (repórter e Clube da Imprensa de Ponta Porã), Edinho Neves (Mídia Brasil Associados), Cleider de Souza Costa (Portal Enfoques – Sucesso Comunicação – Rio Negro), Mauro Forasteiro (publicitário), Tony Ueno (Ranking Pesquisas), Karol Greco e Matheus (Assessoria de Comunicação da prefeitura de Bodoquena), Antonio Alcantará (artista plástico), Ênio Oliveira (jornalista Gazeta do MT), Beto Figueró (Avante), Francisco Brito (Jornal O Estado de MS), Cezar Roriz, Iasmim Biolo e Dr. Danilo Magalhães (TV Educativa), Aparecido Lohan (Canal CBM), Edmir Conceição (jornalista site 24h), Paulo Rios (jornalista – Rota Bioceânica), Afonsinho (site Bonito Net), Karine Cortez (jornalista – Assembleia Legislativa e presidente do Clube de Imprensa de Campo Grande), Fabiana Carvalina e Felipe Azambuja (coordenador de campanha), Vanessa (Dourados), Marilene (Connection Fronteira), Tião Prado (Ponta Porã Informa), Éser Cáceres (Midiamax), Karina Vilas Boas (jornalista Segov), Alex Figueiredo (JD Notícias e Capital 95,9 FM), Luiz João, Almir Cantriro e Rivalmir Fonseca (Café com Política), Uilson Morales (coordenador de marketing eleitoral do pré-candidato Reinaldo Azambuja), André Puccineli e Marcelo Miranda (pré-candidatos), José Henrique Marques (Folha de Dourados), Diana Gaúna (Assessoria Imprensa UEMS), Edson Moraes (Folha de Campo Grande), Lu Tano (produtora TVE), Albino Kosmos (cinegrafista), Dilma Bernardes (Agência Contexto), e Elleri Martinez (advogada especialista em IA).




