Usinas são “olho de furacão” do abuso sexual em MS
Midia Max – 19/05/2009
Mato Grosso do Sul é o terceiro estado brasileiro no ranking de denúncias de abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes. São Paulo e Minas Gerais lideram os casos no Brasil e no Estado atualmente, cidades que ficam situadas nas regiões da Grande Dourados como Rio Brilhante, Angélica, Distrito de Ipezal e ainda, Nova Alvorada do Sul e Sonora concentram as usinas sucroalcooleiras e também o problema. Como se não bastasse, o boom econômico tem outra faceta já alvo de pesquisa: o aumento no número de crianças e adolescentes grávidas. O alerta é da coordenação estadual do Comcex (Comitê Estadual de Combate e Enfrentamento à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes).
“Costumamos dizer que são o ‘olho do furacão´ as regiões das usinas em Mato Grosso do Sul”, diz a coordenadora, Marlene Veiga Espósito.
Um estudo detalhado junto aos conselhos tutelares das respectivas cidades está em andamento e tão ligo fique pronta, prefeituras, empresários do setor e sindicatos serão alvo de uma ação maciça para barrar o problema.
“A chegada de um grande contingente de homens a essas cidades, sem estrutura, tem nos chamado muito a atenção pelo crescimento também no número de adolescentes grávidas”, explica. A falta de estrutura associada à situação de pobreza acaba por empurrar meninas e adolescentes para o mercado ilegal do sexo.
As usinas têm impactado na economia. Atualmente, o Estado produz 1,9 bilhão de litros de álcool em 14 usinas sucroalcooleira em funcionamento e precisa atingir 5 bilhões de litros. Para isso mais sete usinas vão entrar em operação ainda este ano e outras 11 estão em fase de implantação, segundo o governo estadual. Porém, o aspecto nocivo e que precisa de investimentos são polêmicos.
“Muito se fala do impacto ambiental e há o impacto social e muitas consequências nos locais onde estão as usinas”, diz a coordenadora do Comsex.
Volta por cima
Dados estatísticos ainda não estão prontos, mas a coordenadora do Comcex é categórica ao dizer que cidade como Corumbá, que já foi alvo de escândalos por conta do crescimento de crianças e adolescentes exploradas sexualmente, já deu a volta por cima no problema, tomou para si a responsabilidade e hoje encabeça campanhas e ações de combate.
Em Campo Grande, o tamanho da população (780 mil habitantes), o número de conselhos tutelares (somente dois) para cobrir toda a demanda da cidade impõem dificuldades, mas de acordo com a coordenadora do Comcex, o envolvimento dos segmentos nas áreas de Educação e Assistência Social e ainda, as denúncias feitas pela população têm auxiliado.
SOS Criança
Até hoje 1.113 casos de denúncias registrados este no pelo telefone 0800 647 1323 ou 3381 6000 contra 1.1150 em todo o ano de 2008. A diretora do SOS Criança, Marli Tonete salienta outra faceta do problema. As denúncias, em sua maioria, não são apresentadas pelas escolas e sim, por pessoas que preferem telefonar e relatar o fato anonimamente.
“A inércia das escolas reflete um pouco do perfil da sociedade”, comenta Marlene Espósito.
O perfil dos abusadores, segundo dados do SOS, apontam para 23 casos no ano passado de pessoas ligadas ao cotidiano da criança e no mesmo período deste ano 43.
Violência e abusos praticados por pessoas desconhecidas foram 52 de janeiro até 18 de maio de 2008 e 45 este ano. A maioria dos casos ocorre com crianças de 7 até 13 anos.
Medidas
Se a equipe do SOS confirmar o problema e perceber que não há apoio da família, o Conselho Tutelar é acionado para que medidas judiciais garantam a proteção da vítima em uma das duas casas abrigo em Campo Grande.
Caso haja apoio dos membros familiares, as providências são tomadas e a delegacia Especializada em Proteção à Criança e ao Adolescente acionada para a abertura dos inquéritos.
O MPE (Ministério Público Estadual) junto com as polícias desenvolvem ações surpresas em cybers da Capital, ponto de contato das crianças com pedófilos da internet. Para Marlene Espósito, o importante é que a sociedade denuncie e que a divulgação dê um salto para que as crianças sejam realmente protegidas já que muitas passam o dia todo por conta de si própria.
Ações
Uma audiência pública acontece hoje na Câmara Municipal de Campo Grande às 19 horas e também à noite a PRF (Polícia Rodoviária Federal) fará trabalho de conscientização junto aos caminhoneiros na rodovia BR-163, nos postos Caravágio e Kátia Locatelli.
A UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) fará uma ação voltada para crianças à tarde, na área do teatro Glauce Rocha, onde será realizado um simpósio que vai reunir especialistas no assunto.
Pela manhã, o Comcex deu início à campanha de mobilização na Praça Ary Coelho. Com o tema “Faça Bonito, Proteja Nossa Crianças e Adolescentes”, grupos chamaram a atenção de quem passou pelo Centro da cidade nesta manhã.
Data lembra morte
O Dia 18 de maio foi instituído pela Lei Federal n. 9.970 como o Dia Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes em razão do crime que comoveu toda a Nação Brasileira, conhecido como o “Crime Araceli”, em que uma menina de oito anos foi cruelmente assassinada, após ter sido estuprada em Vitória, no Espírito Santo.
Esta data criou força emblemática em Salvador (BA), em 1998, quando cerca de 80 entidades públicas e privadas reuniram-se para discutir o tema, fazendo referência a esse crime que chocou o País por sua brutalidade. Araceli Cabrera Sanches, oito anos, foi sequestrada, espancada, drogada, estuprada e morta por integrantes de tradicionais famílias da sociedade capixaba dos anos 70. Mais de 30 anos depois os assassinos continuam impunes.
Transformada em projeto de Lei, pela deputada Rita Camata, a proposta elaborada pelo Cedeca/BA de que seja o “ Dia Nacional de Enfrentamento à Violência Contra Crianças e Adolescentes”, foi aprovada pelo Congresso Federal, passando o dia 18 de maio a integrar o calendário oficial do País.
Fonte: Midia Max



