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‘Uma dama preparada no comando da Força Tática’

A Tenente/PM Letícia Ramos, afirma que muitas vezes sentiu na pele a discriminação por ser uma mulher militar em uma corporação

Entrevista – 15/10/2009

Waldemar Gonçalves – Russo  
    Vinda de um berço digamos estritamente militar, por ter a formação do pai, o hoje subtenente da reserva Adelmo Martins Ramos, que no passado não tão distante foi um dos mais exemplares homens que prestaram serviços a segurança pública no Mato Grosso -posteriormente Mato Grosso do Sul-, tendo inclusive sido um dos integrantes do então GOF (Grupo de Operações de Fronteira) que era comandado pelo coronel/PM da reserva Adib Massad, Letícia Raquel Lopes Ramos, 29 anos, ainda solteira, atualmente como tenente da PM (Polícia Militar), essa dama que demonstra ter uma força espiritual acima da média para uma pessoa do sexo feminino, diz que assumiu há cerca de três meses, o comando-geral da Força Tática de Dourados, em substituição ao capitão/PM Carlos Silva, que por questão de remanejamento do atual comandante tenente/coronel Marcos David, foi designado a assumir outra importante função na corporação, para que o sistema de segurança na cidade possa ser mais bem desempenhado pela corporação em prol da comunidade.
     A militar no dia de hoje concedeu uma entrevista no 3º  BPM (Batalhão da Polícia Militar) e fez um breve relato de sua carreira, dos seus propósitos na carreira, das suas intenções em servir a comunidade, assim como relatou um pouco de sua vida particular e afirma que em muitas das vezes sentiu na pele a discriminação por ser uma mulher militar em uma corporação até então, extremamente machista.
    A CARREIRA
    Com voz pausada e demonstrando serenidade e maturidade, Letícia Ramos conta que ao decidir ser militar como o pai e o irmão, o também tenente/PM Róbson Lopes Ramos, que coincidentemente também esta em Dourados e hoje comanda o pelotão de motociclismo da corporação, contrariou a vontade da mãe, Basilia Lopes, que não queria que entrasse para o mundo policial. “A mãe não queria que eu fosse policial, mais o sangue de policia que tenho de meu pai falou mais alto”, diz sorrindo a militar lembrando que seus pais na verdade são as pessoas que mais ama na vida, e que eles serviram de exemplo para ser a pessoa que é hoje.  
    Decidida em suas intenções, Letícia Ramos fez concurso de oficial para a PM e em 2004 saiu de Campo Grande e foi fazer academia em João Pessoa, na Paraíba, onde ficou por três anos, e ao retornar para Campo Grande fez estágio em todos os batalhões da capital atuando como operacional como soldado, até chegar a aspirante oficial.
    Dizendo que a sua vida como militar teve como influência desde criança a carreira do pai Adelmo Ramos, a militar foi transferida para Dourados para compor o grupo do novo comandante da corporação tenente/coronel Marcos David, na qual diz ter muito apreço e admiração pela forma como ele conduz os seus comandados e principalmente pela sua ética profissional e respeito para com a comunidade.
    Em Dourados, Letícia Ramos passou inicialmente por alguns setores da corporação, e por ser estritamente operacional, foi convidada a assumir o comando da recém criada FT (Força Tática), que substituiu a então ROTAI (Ronda Ostensiva Tática do Interior), que conta com cinco equipes operacionais, sendo que uma delas, que fica sob o seu comando, atua como reforço em caso de necessidade extrema.
    Além de comandar a Força Tática, essa dama que diz estar preparada para comandar as equipes, também tem sob as suas responsabilidades, as equipes da P-2 (Serviço Reservado) e também a futura equipe que comandará o canil composto por quatro rotwailler, um pit-bull, que estão sendo treinados para atuarem nas operações visando às ações ostensivas e revistas em presídios ou em tumultos generalizados, e também três da raça labrador, que serão usados em operações secundarias e principalmente no trato ao combate ao tráfico de drogas.
    Os cães segundo a militar estão sendo treinados na PE (Polícia do Exército) de Campo Grande, assim como dois soldados/PM que realizam curso de operação de guerra na mesma base militar.
    Em Dourados segundo a comandante, o canil da PM conta com o apoio da Faculdade Anhanguera, da empresa Perdigão e da Clinica Vida Animal.
    Vale ressaltar que, se a cidade de Dourados possui hoje a cavalaria montada da Polícia Militar, deve-se aos esforços da então tenente/PM Neide Centurião, hoje capitão/PM e lotada no Comando-geral da corporação na capital.
    Na oportunidade Neide Centurião recebeu do empresário no ramo de comunicação (Leia-se 92,1 FM) e produtor rural, falecido Antônio Tonani, que não mediu esforços em colaborar com a criação da cavalaria na cidade, o apoio. Antônio Tonani doou a maioria dos animais que até os dias atuais, estão a serviço da PM em prol da comunidade douradense. “Desde quando entrei na Polícia Militar sempre procurei ser operacional, nunca administrativa. Gosto de ir para o combate, de ir para a rua atender a população, prender os autores de ilícitos, enfim, gosto de atuar no combate a criminalidade, de propiciar a tranqüilidade da nossa comunidade”, acrescentou a militar.   
    PRESENTE…
    Após lembrar um pouco do início de sua carreira, a militar conta que nos dias atuais sempre procura incentivar as mulheres, em especial as jovens, a ingressar na carreira militar. “Quando estava em João Pessoa e também em Campo Grande, muitas jovens procuravam saber de mim qual seria o caminho para ser militar, e eu além de orientá-las, também a incentivavas a ser uma policial como eu”, diz Letícia Ramos orgulhosa por ser hoje uma pessoa que pensa muito em sua família, em servir a comunidade e principalmente combater os ilícitos e aumentar seus círculos de amizades.
    Com relação ao presente, a militar diz que como comandante da Força Tática, que além dela conta com outras três mulheres na equipe, para uma eventual abordagem as mulheres, tem como objetivo prioritário, qualificar seus comandados, inclusive com cursos especializados e operacionais fora do estado, aumentar o poder de equipamento armado através de projetos que serão encaminhados ao Comando-geral da corporação na capital, fortalecer a implantação do canil e estimular suas equipes, para que eles possam atuar com tranqüilidade em defesa da sociedade, sem truculência, abuso de autoridade ou outro tipo de ação que não condiz com o papel de policial militar. “Espero no futuro contarmos com mais mulheres atuando na Polícia Militar, principalmente nas equipes da qual por ventura estiver fazendo parte. Aliás, entendo que a presença da mulher na polícia facilita em muito o trabalho dela, principalmente em algumas situações que exige a presença dela” analisou a militar. 
    Dizendo ser favorável à criação da “policia comunitária”, a militar diz que em seu ponto de vista todos, sem extinção de raça, cor, credo ou padrão social devem se preciso for serem submetidos a revistas pessoais, quando assim seus comandados entender serem necessários. “Não está escrito na testa de ninguém se ela é gente boa ou não. Houve suspeita de um individuo, meus policiais estão orientados a abordá-los para tirar qualquer tipo de duvidas sobre a suspeitas”, disse a militar dizendo que a comunidade, principalmente a douradense, deveria participar mais em conjunto com a Polícia Militar, principalmente quando em seu bairro esteja ocorrendo alguma coisa que para ela é suspeita. “Com a policia comunitária, a distancia dos dias de hoje entre a polícia e o cidadão será encurtada, e todos sairão ganhando”, aposta a militar.
    …FUTURO
    Com relação ao seu futuro, Letícia Ramos diz sonhar que com muita dedicação e trabalho, chegará ao cargo máximo da corporação, que é o de coronel/PM, todavia, entende que no momento tem de exercer com humildade e seriedade a função de tenente.
    Dizendo que ela -e também muitas policiais femininas- muitas das vezes ficou sabendo que foi -e acha que ainda é- tachada de lésbicas, ou sapatão no linguajar popular- inclusive por alguns integrantes da corporação, diz que jamais se atentou a esse termo pejorativo relacionada às suas condições de mulher, Letícia Ramos conta que atualmente namora um militar do EB (Exército Brasileiro) e que está vivendo um momento muito feliz em sua vida. “Claro que é chato saber que alguém esta colocando duvida sobre a nossa feminilidade, todavia, não levo isso em consideração, pois sei a mulher que existe dentro de mim. É claro que existe preconceito, mais procuro administrar este tipo de coisas”, diz a militar satisfeita por estar comandando uma das tropas mais requisitadas pela população douradense. “Espero corresponder com o meu comando, com a minha instituição, com meus comandados e principalmente com a população. Acredito que com uma soma de esforços de todos, o bem com certeza vencerá aquelas pessoas que teimam em trilhar pelo caminho errado que procuraram seguir”, finalizou a tenente a entrevista, sem antes agradecer o tratamento que teve quando chegou pelas mãos do atual comandante do 3º BPM para trabalhar na cidade, e com a Força Tática, ter a total autonomia para atender a população no que for preciso e necessário.       
       

Fonte: Folha de Dourados

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