Elairton Gehlen –

Quando saí de Dourados deixei quase tudo para trás, mas algumas coisas não têm jeito, já penetraram por osmose, não tem como não carregar junto. Cada filho veio comigo, mesmo alguns já tendo se mudado para muito longe há anos, sempre estiveram lá, e agora estão aqui, juntinho dos que ficaram em Dourados, assim também os netos, vieram todos lotando o coração e fazendo algazarra nos pensamentos. E eles gostam de andar de skate! Às vezes vou andar de bicicleta e levo o skate junto para aproveitar uma descida no asfalto e tem sempre um vindo pela memória se equilibrando para um abraço do vô! 

De quase tudo a gente consegue se desvencilhar. Não tenho nenhum plano de voltar, também não tenho de permanecer neste lugar para além da missão. Os imóveis vou vender e os amigos, deles eventualmente vou me lembrar, quem sabe até algum dia visitar! A história que deixei, alguém há de em algum momento se beneficiar ou ficará simplesmente para a história. Quase não há lembranças das quais valha a pena me lembrar, a não ser dos escritos que escrevi, das lutas sociais por justiça que lutei, das entidades que ajudei a criar e dos amores que tive. Tive?  

Um poeta é sempre um poeta! E eu, sou altamente suspeito para falar dos amores. As poesias que fiz, quase todas foram dos amores que não tive! Mas, sim, tem sempre uma flecha do cupido passando de raspão e deixando em frente da casa uma frase lindamente escrita com gravetos numa belíssima declaração de amor em inglês, uma loucura de mobilete até um parque numa madrugada qualquer, uma relação sexual no provador de roupas da Riachuelo, ou os segredos do carro estacionado numa esquina qualquer. Me casei, formal ou informalmente, pelo menos quatro vezes. Sou testemunha em favor de qualquer que queira processar o cupido por desídia! 

Certamente não sou o único a ter vivido o amor que não tive. O filósofo mais importante do cristianismo, Agostinho, escreveu em suas ‘Confissões’ as aventuras amorosas que teve em sua juventude, antes de se tornar Bispo de Hipona. Entre os mil e setecentos anos que nos separam têm milhões de pessoas que buscaram num não-tempo na beira da piscina, tomando uma cerveja Bohemia, um amor descomprometido para compensar todos os amores frustrados de antes e quem sabe, quem sabe, delimitar o antes e o depois nessa linha tênue que pode separar a ilusão do amor pelo amor que não se ilude. 

Agora escuto música pelo celular enquanto escrevo estas mal traçadas linhas e começo a revisar as crônicas e poesias que desejo publicar no próximo livro. É algumas coisas continuam iguais e nunca ficarão para trás!!! 

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