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Trabalho e pressão deixam juízes deprimidos

Geral – 17/08/2009

Ansiedade, insônia, depressão. Hoje, há sempre um amigo ou colega que afirma estar sofrendo destes sintomas e essa realidade não é diferente entre os juízes. A reclamação é constatada pelas principais associações da categoria que culpam desde as condições de trabalho não ideais até o simples fato da pressão de ser juiz e ter de tomar decisões que afetam membros da sociedade.Pesquisa da PUC de Campinas de 2002 constatou que 71% dos juízes do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região apresentavam sintomas de estresse. De acordo com a pesquisa, os motivos eram a sobrecarga de trabalho, a interferência da rotina na vida familiar e a preocupação de aferir bem as diferenças sociais — ser justo.Na opinião de Ricardo Nascimento, presidente da Associação dos Juizes Federais de São Paulo e de Mato Grosso (Ajufesp), o juiz é alvo da pressão da imprensa, da sociedade e das partes. Nascimento diz que se deu conta da situação ao tomar conhecimento da história de um juiz com sérios problemas de depressão. “Ele simplesmente não consegue decidir. Entra cedo e sai tarde, mas não consegue dar andamento aos processos”, conta.A partir do caso deste juiz, a associação decidiu publicar uma reportagem em seu jornal sobre o assunto. Nascimento conta que a redação recebeu 17 cartas sobre a reportagem, muito acima da média do jornal. Todas de juízes relatando seus sintomas de ansiedade, distúrbio de sono e até casos em que o magistrado já se tratava com remédios para conseguir dormir bem e trabalhar no dia seguinte.Em entrevista para o jornal da associação, o médico psiquiatra José Alberto Del Porto deu seu parecer técnico sobre a questão. Para ele, os juízes fazem parte do grupo de pessoas propensas a sofrer de depressão, pois têm uma “carga enorme de trabalho e pouco tempo para proferir seus despachos. Eles têm que lidar com situações de conflitos e tomar decisões que, às vezes, não são nada fáceis.”Nascimento acredita que o problema é grave. “É preciso colocar o tema na agenda e repensar algumas práticas”, explica. “A depressão é o grande mal da humanidade. O problema na magistratura é que o juiz não consegue assumir porque ele se acha autosuficiente.’ Na opinião dele, a própria sociedade impõe ao juiz o papel de ter que solucionar todas as questões sociais e nunca deixar se abalar com nada. “Todos somos seres humanos, temos perdas e separações. Os juízes precisam assumir que precisam de ajuda.Como solução para a questão, ele sugere que os tribunais se preparem para oferecer acompanhamento psicológico, exames periódicos ou, até mesmo, seja repensado um exame psicotécnico mais rigoroso para a seleção. “É preciso estar bem preparado emocionalmente para exercer o cargo de juiz. Exemplos do tipo de pressão suportado pelo juiz no seu dia-a-dia não faltam. Nascimento lembra o caso do garoto de 13 anos, acusado de matar outro garoto e preso na cadeia comum em Cuiabá. O juiz que cuida do caso está diante do drama humano e social da criança infratora, da aplicação da lei, das deficiências do sistema, de sua prórpia consciência e responsabilidade.“Eles estão obedecendo a um modelo ideal de dever e, com isso, não conseguem fazer os seus desejos fluirem.” Esta frase resume bem a visão sobre o assunto da psicanalista Sandra Dias, doutora em psicologia clínica e coordenadora do curso Psicanálise de Linguagem: Uma Outra Psicopatologia da PUC-SP. Ela acredita que uma das principais ocasiões em que surge a depressão é quando o sujeito passa por uma perda “não elaborada” — perda de um objeto, ideal, desejo. “Por exemplo, eu quero fazer uma carreira, mas pela pressão social ou familiar, acabo tendo outra vida, o resultado acaba sendo a depressão”, explica.No caso de um juiz, em especial, ela acredita que a maioria pode estar se deprimindo não pelo fato de ser juiz, mas por não se dar conta de seus desejos. “Em torno de 40 e 50 anos, as pessoas fazem um balanço da vida, pois já se entregou tudo o que a sociedade pediu e agora o momento pede um encontro com seu eu. Se você está costumeiramente renunciando ao que tem de mais valioso (no plano simbólico), que é a dignidade, desconfie que você pode entrar em depressão.”

Fonte: Revista Consultor Jurídico

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