Desde 1968 - Ano 56

29.4 C
Dourados

Desde 1968 - Ano 57

InícioColunista'Tenha Calma Antes que Infarte', por João Roberto Giacomini

‘Tenha Calma Antes que Infarte’, por João Roberto Giacomini

Vivemos uma época perigosa para quem acorda bem.

Você levanta disposto, toma um café feliz, mastiga um pão com manteiga sem culpa — e pronto: já está errado.

O café deve ser sem açúcar, o pão sem carboidrato e a manteiga um atentado cardiovascular, condenada em três estudos antes das oito da manhã.

Porque, enquanto você escova os dentes, algum cientista do nada descobriu que café inflama, pão deprime e manteiga é basicamente um pedido formal de internação. À tarde, outro estudo garante o contrário, desde que você mastigue olhando para o norte, respirando pelo nariz esquerdo e pensando em gratidão.

Sobrevivemos.
E isso não é força de expressão. É estatística emocional.

Somos sobreviventes de uma avalanche diária de alertas, tutoriais, verdades absolutas e especialistas instantâneos. Uma verdadeira explosão dos “sabe-tudo da internet”, gente que aprendeu tudo ontem à noite, durante o sono desaprendeu e já acordou dando aula hoje cedo.

Esses dias vi um reel de um influenciador digital — ele mesmo fez questão de avisar que era de sucesso — ensinando como comer pastel corretamente.

Segundo ele, o erro da humanidade é não respeitar o ritual: segurar com dois dedos, inclinar em 37 graus e esperar o vapor sair antes da primeira mordida. O detalhe é que o pastel do vídeo estava frio. Frio. Não havia vapor, havia nostalgia. Era um pastel aposentado. Eu prefiro tirar um pedaço de cada lado e esperar o vapor sair para saboreá-lo com prazer.

Outro ensinava a comer pizza.

A pizza parecia ter passado por um processo químico, uma crise existencial e um derramamento de óleo internacional. O sujeito falava com seriedade, explicando o ângulo ideal para colocar o pedaço no prato, com a parte larga para si e, após cortar do lado fino, descansando a faca e trocando o garfo de mão.

E a mordida:

Um coach alimentar dirá 32 mordidas, com respiração consciente.

Um influencer fitness: até virar purê emocional.

Um especialista em longevidade: depende do signo.

Um guru do jejum intermitente: nenhuma — só contemple a pizza ou, no máximo, cheire apenas.

Tudo isso, enquanto da fatia escorria um brilho suspeito, desses que só faltam pedir CPF na nota e pegar um voo internacional para Bangladesh.

Antigamente, comer era simples: você tinha fome, havia comida, fim da teoria.

Hoje, cada refeição é um seminário.

Se você cruza as pernas errado, dá hérnia.

Se bebe água em jejum, ativa um chakra perigoso.

Se dorme demais, é preguiça.

Se dorme pouco, é burnout.

Se respira fundo, cuidado: pode estar respirando errado.

Tudo virou um risco. Tudo virou método. Tudo virou conteúdo.

O problema não é a informação — é o tom de ameaça constante. Parece que estamos sempre a três hábitos errados de um colapso completo. Um passo em falso e pronto: infarte, AVC, refluxo, gases, crise de identidade alimentar.

Por isso, proponho um movimento revolucionário:

tenha calma antes que infarte.

Coma o pastel do seu jeito. Se estiver quente, assopre. Se estiver frio, reclame. Se estiver bom, sorria.

Coma a pizza sem tutorial, dobrada, torta, com guardanapo ou sem dignidade — mas com prazer.

Desconfie de quem nunca erra e ensina tudo.

Confie mais em quem vive, tropeça, ri e segue em frente.

A vida já é complexa demais para exigir manual de instruções para cada mordida. No fundo, o que mais faz mal não é o glúten, o óleo ou o carboidrato — é essa pressa histérica de estar sempre certo.

Respire.
Sente-se.
Morda.

E, se alguém aparecer dizendo que você está comendo errado, faça o mais saudável de todos os gestos modernos: ignore, mastigue e viva.

Com calma.

Detalhe: mastigue de boca fechada! Rsrsrsrsrsrs……

- Publicidade -

ENQUETE

MAIS LIDAS