Vivemos uma época perigosa para quem acorda bem.
Você levanta disposto, toma um café feliz, mastiga um pão com manteiga sem culpa — e pronto: já está errado.
O café deve ser sem açúcar, o pão sem carboidrato e a manteiga um atentado cardiovascular, condenada em três estudos antes das oito da manhã.
Porque, enquanto você escova os dentes, algum cientista do nada descobriu que café inflama, pão deprime e manteiga é basicamente um pedido formal de internação. À tarde, outro estudo garante o contrário, desde que você mastigue olhando para o norte, respirando pelo nariz esquerdo e pensando em gratidão.
Sobrevivemos.
E isso não é força de expressão. É estatística emocional.
Somos sobreviventes de uma avalanche diária de alertas, tutoriais, verdades absolutas e especialistas instantâneos. Uma verdadeira explosão dos “sabe-tudo da internet”, gente que aprendeu tudo ontem à noite, durante o sono desaprendeu e já acordou dando aula hoje cedo.
Esses dias vi um reel de um influenciador digital — ele mesmo fez questão de avisar que era de sucesso — ensinando como comer pastel corretamente.
Segundo ele, o erro da humanidade é não respeitar o ritual: segurar com dois dedos, inclinar em 37 graus e esperar o vapor sair antes da primeira mordida. O detalhe é que o pastel do vídeo estava frio. Frio. Não havia vapor, havia nostalgia. Era um pastel aposentado. Eu prefiro tirar um pedaço de cada lado e esperar o vapor sair para saboreá-lo com prazer.
Outro ensinava a comer pizza.
A pizza parecia ter passado por um processo químico, uma crise existencial e um derramamento de óleo internacional. O sujeito falava com seriedade, explicando o ângulo ideal para colocar o pedaço no prato, com a parte larga para si e, após cortar do lado fino, descansando a faca e trocando o garfo de mão.
E a mordida:
Um coach alimentar dirá 32 mordidas, com respiração consciente.
Um influencer fitness: até virar purê emocional.
Um especialista em longevidade: depende do signo.
Um guru do jejum intermitente: nenhuma — só contemple a pizza ou, no máximo, cheire apenas.
Tudo isso, enquanto da fatia escorria um brilho suspeito, desses que só faltam pedir CPF na nota e pegar um voo internacional para Bangladesh.
Antigamente, comer era simples: você tinha fome, havia comida, fim da teoria.
Hoje, cada refeição é um seminário.
Se você cruza as pernas errado, dá hérnia.
Se bebe água em jejum, ativa um chakra perigoso.
Se dorme demais, é preguiça.
Se dorme pouco, é burnout.
Se respira fundo, cuidado: pode estar respirando errado.
Tudo virou um risco. Tudo virou método. Tudo virou conteúdo.
O problema não é a informação — é o tom de ameaça constante. Parece que estamos sempre a três hábitos errados de um colapso completo. Um passo em falso e pronto: infarte, AVC, refluxo, gases, crise de identidade alimentar.
Por isso, proponho um movimento revolucionário:
tenha calma antes que infarte.
Coma o pastel do seu jeito. Se estiver quente, assopre. Se estiver frio, reclame. Se estiver bom, sorria.
Coma a pizza sem tutorial, dobrada, torta, com guardanapo ou sem dignidade — mas com prazer.
Desconfie de quem nunca erra e ensina tudo.
Confie mais em quem vive, tropeça, ri e segue em frente.
A vida já é complexa demais para exigir manual de instruções para cada mordida. No fundo, o que mais faz mal não é o glúten, o óleo ou o carboidrato — é essa pressa histérica de estar sempre certo.
Respire.
Sente-se.
Morda.
E, se alguém aparecer dizendo que você está comendo errado, faça o mais saudável de todos os gestos modernos: ignore, mastigue e viva.
Com calma.
Detalhe: mastigue de boca fechada! Rsrsrsrsrsrs……


