Professor Reinaldo dos Santos

Reinaldo dos Santos (*) –

Quais as tendências e perspectivas para a educação, sobretudo ensino superior, no contexto pós-pandemia

Maior presença das tecnologias na educação
A pandemia colocou em destaque as tecnologias para sociabilidade, trabalho e estudos remotos, tais como computadores, smartphones e aplicativos de webconferência. A maioria das pessoas nunca tinha participado de uma reunião virtual, ministrado ou assistido uma video-aula. A maioria das escolas não tinha ambiente virtual de aprendizagem ou material didático digital. A pandemia consolidou a presença de tecnologias na sala de aula (não apenas de forma complementar ou alternativa) e esta presença tem grande tendência em continuar, se expandir e se estruturar. Importante destacar que esta ampliação das tecnologias na educação escancarou o abismo social e tecnológico entre uma parcela da população com acesso a recursos de realidade virtual e outra parcela sem acesso mínimo à internet. Esta maior presença é um ponto positivo, pois o lento processo de inserção das tecnologias na educação foi acentuado, mas também é um desafio para inclusão dos excluídos ou marginalizados tecnológicos.

Ampliação das interações pedagógicas não-presenciais
O ensino remoto no Brasil já vinha em uma trajetória de adoção de interações de ensino-aprendizagem não presenciais, tanto na ampliação de matrículas em curso EaD quanto na inserção de atividades e componentes à distância nos cursos presenciais. N, no ensino superior, em 2018, pela primeira vez, as matrículas em EaD superaram as presenciais e na graduação presencial, desde 2010, havia possibilidade de 20% da carga horária ser não presencial (percentual que foi majorado para 40% em 2018, permitindo novos arranjos chamados de híbridos, semi-presenciais, telepresenciais, flexíveis). Na educação básica, alterações normativas no âmbito da BNCC, também passaram a permitir que até 30% da carga horária no ensino médio seja de forma não presencial. A experiência de ensino remoto, vivenciada de forma repentina e compulsória durante a pandemia (com pontos positivos e negativos), deve se desdobrar nos cursos presenciais que, nos próximos anos, passarão por uma tendência de adotar uma maior parte de suas cargas horárias e currículos na modalidade à distância, sobretudo no ensino superior.

Valorização dos Profissionais da Educação
Assim como aconteceu com os profissionais de saúde, chamados de linha de frente da pandemia, há uma perspectiva de maior valorização dos profissionais da educação, sobretudo da educação básica. Isto pode até não se refletir em melhorias salariais ou de carreira, mas é certo que envolverá um maior reconhecimento social das carreiras docentes. A suspensão das aulas nos primeiros meses e a adoção de alternativas remotas nos momentos seguintes representaram quatro dimensões que levaram a um maior reconhecimento social: com crianças e adolescente em casa durante o isolamento social, as famílias constataram o quanto o tempo escola é importante e o quão desafiador é o trabalho docente; os alunos sentiram a piora no ensino aprendizagem sem as aulas, sem as interações escolares e a importância da escola; os professores enfrentaram com “garra” o desafio de trabalhar de forma remota, na maioria das vezes sem preparação para tal (formação, capacitação, tecnologias, planejamento, material didático etc); as limitações e dificuldades nas interações domésticas de ensino-aprendizagem, revelaram a importância da atuação/mediação de profissionais da educação, pois não basta telas e apostilas.

Valorização da Ciência, Pesquisa, Universidades e Ensino Superior
Em meio a debates políticos, ideológicos e econômicos, permeados por fake news e negacionismos, a pandemia evidenciou a importância da lógica, da racionalidade e da ciência para os tratamentos, vacinas e protocolos sanitários. Ainda que possam continuar sob ataque, a Ciência, a pesquisa, as Universidades, os cientistas e o ensino superior saem fortalecidos no pós-pandemia, com uma maior percepção social de que quem optou por se pautar pela ciência (dados, vacina, tratamentos com comprovação) do que o negacionismo conduziu a caminhos desastrosos.

Demanda por investimentos no Ensino Superior, Formação de Professores e Inovação
Em um primeiro momento, a crise econômica acentuada pela pandemia está levando ao aumento do desemprego, fechamentos de empresas e adiamento de projetos, implicando inclusive na diminuição da procura pelo ensino superior (a atual edição do enem é com menor número de inscritos da história do exame) e no aumento dos índices de evasão na graduação e pós-graduação. Contudo, a esperada retomada do crescimento econômico vai demandar formação de novos profissionais de nível superior, sobretudo na área de educação, saúde e tecnologias e a requalificação dos atuais profissionais frente à nova realidade de reestruturação da economia, sobretudo do setor de serviços. Esta retomada, que pode acontecer no curto ou médio prazo, demanda investimentos no ensino superior “hoje” para haver condições de retomada “amanhã”. Assim como quem confiou na Ciência e na vacina enfrentou melhor a pandemia, quem apostar em investimentos maiores em educação neste momento vai ter melhores condições de retomada econômica.

(*) Docente da UFGD há 15 anos. Ele é formado em História e Letras, está cursando a faculdade de Direito, é mestre em História da Cultura, doutor em Sociologia Política e Pós-doutor em Educação. Trabalhou mais de 10 anos na Educação Básica, e após se tornar professor universitário também assumiu cargos de gestão atuando como conselheiro, coordenador de curso e diretor de faculdade. Orienta pesquisas e coordena grupos de pesquisadores em temas como Inclusão e Diversidade, Educação Especial, Educação e Tecnologias, e Tecnologia Assistiva. 

(Matéria publicada originalmente na edição especial impressa da Folha de Dourados)

Comentários do Facebook