Sonho e realidade na dura vida de assentado
Histórias de vida – 31/12/2008
O tão esperado pedaço de chão para quem já não tinha mais chance de emprego na cidade chegou em janeiro de 2006 para 160 famílias do Distrito de Anhanduí, distante 50 quilômetros de Campo Grande. Passados dois anos, os sonhos dessas famílias ainda está longe de ser realizado: barracos de lona, baixa produção e falta de energia fazem parte do cenário construído a toque de caixa pelo Incra (Instituto de Colonização e Reforma Agrária) para assentar os trabalhadores.
O Incra desapropriou 2,2 mil hectares da Fazenda Morro Bonito e pagou R$ 6,2 milhões para transformá-la em um assentamento da reforma agrária. Porém, o que em princípio seria o trampolim para o desenvolvimento econômico sustentável dessas famílias, revelou-se mais um projeto falho. A vida dura dessa gente sofrida em nada melhorou; o sofrimento apenas mudou de endereço.
O Incra agiu com pressa para tirar as famílias da beira da estrada, onde viviam em acampamento rudimentar, e despejá-las em uma área longínqua, distante 60 quilômetros da BR-163, de solo precário e sem infra-estrutura nenhuma. Em dias de chuva carros e caminhões correm o risco de atolar no meio do caminho. Para quem precisa produzir e vender o leite, o milho, o sabão caseiro na cidade, sobra dificuldade.
O assentamento da CUT (Central Única dos Trabalhadores) foi batizado de Três Corações, uma alusão ao amor pela terra prometida que foi dividida para três grupos que reúne as 160 famílias. O paradoxo entre a realidade e o sonho foi constatado pela reportagem do Midiamax.
Esperança
Diante da falta de estrutura de acesso ao local, que sequer tem placas indicando qual a direção do assentamento – conhecido como um dos piores de Mato Grosso do Sul -, a informação veio de Tereza Barbosa dos Santos, de 53 anos.
Sentada à beira da estrada bem em frente à Fazenda Esperança, onde no passado ela e o esposo Edson dos Santos, de 63 anos, criaram os quatro filhos, hoje adultos, dona Tereza esperava uma carona para chegar até seu lote na Fazenda Morro Bonito, chamada agora Assentamento Três Corações. Sem a ajuda do Incra para fazer produzir o pedaço de chão da família, de 5,5 hectares, os filhos dela arrumaram emprego na fazenda e é lá que ela consegue um pedaço de carne e um pouco dinheiro para ajudar o marido, conta.
Na chegada em frente ao barraco, ‘seo’ Edson vem ao encontro da esposa. Aos 63 anos ele ainda nutre a esperança de ver chegar os tijolos para a construção da casa, prevista no projeto de reforma agrária elaborado pelo Incra. Quando ele vê o carro do Midiamax se aproximando se enche de esperança, mas logo descobre que se tratava de uma reportagem. Quem sabe um instrumento para amplificar sua angústia.
“Fico aqui pensando: meu Deus, quando que vou receber a notícia dessa casa que o Incra prometeu que vai construir?” desabafa. As famílias recebem créditos e ao longo da produção pagam pelo apoio financeiro. No Assentamento Três Corações tudo isso ainda gera expectativa e insegurança.
Indagado sobre o que mudou do passado até agora na sua vida, ‘seo’ Edson só agradece. Mesmo após ter passado dez anos embaixo de lona à espera da terra e agora aguardando a escritura do bem e a infra-estrutura prometida para abrigar com decência e garantir o sustento da família, a única coisa que lamenta é não ter saúde para latubar com força redobrada. Só assim domaria a sorte e atrairia a fartura, acredita.
“Se a reforma agrária tivesse vindo antes na minha vida, com certeza eu tinha botado isso tudo aqui já pra produzir. Como sou velho só dei conta de fazer isso que a senhora tá vendo. Sou homem trabalhador”.
Precariedade
A precariedade do lote de dona Tereza e Seu Edson é amenizada pelo zelo dos moradores. Terreno bem varrido, vasilhas brilhando, uma pequena horta, pé de maracujá dando sombra ao tanque e ao queijo produzido por Seu Edson. Aos 63 anos ele ainda trabalha nas fazendas da redondeza e com o pouco que ganha e conseguiu no Incra, comprou quatro vacas leiteiras.
Sem energia elétrica para o uso do dia-a-dia, apenas para o poço artesiano, com a inocência peculiar dona Teresa mostra o rádio e a gambiarra feita para garantir talvez a única fonte de lazer. O fio de arame que serve de antena atrai notícias e músicas que animam a casinha.
“Falta muita coisa pra gente. Se fica doente tem que correr pedir carona para algum vizinho, ir pro posto em Anhandui. Escola e condução tem pras crianças, mas falta ônibus pra gente. Tem muita gente que desistiu e vendou o lote por 3 mil, até 8 mil reais. Só temos a terra, não vendo não!”, conta dona Teresa.
Embora seja proibida a venda de lotes da reforma agrária, o problema existe e já foi denunciad
o ao MPF (Ministério Público Federal). O Incra não consegue fiscalizar a irregularidade.
“Quero ainda ter minha casa de tijolo e coisa boa bastante. Vacas leiteira, plantação boa e sem dever nada pra ninguém, porque eu não sou homem que nasceu pra pedir!”.
Mea-culpa
Em 2006 o Incra acelerou a ida das famílias para terras desapropriadas, sem o mínimo de infra-estrutura básica, como forma de amenizar as pressões dos movimentos sociais. Na época, o órgão justificou que era urgente tirar as famílias dos acampamentos e que a demora na chegada da infra-estrutura era recorrente da burocracia no Ministério de Desenvolvimento Agrário.
As famílias do Assentamento Três Corações disseram à reportagem que não participaram dos protestos nas rodovias para a permanência do atual superintendente do Incra, Luiz Carlos Bonelli. “Não gosto de encrenca”, ponderou ‘seo’ Edson.
Fonte: Midiamax



