Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy (*) –

Minhas histórias dos outros, de Zuenir Ventura, foi o melhor livro de memórias que li em 2021. Jornalista, imortal da Academia (desde 2014) Zuenir é também autor do mais do que clássico 1968, o ano que não terminou, além de obras de jornalismo investigativo que são referências. São os casos de Cidade Partida, e de Chico Mendes, Crime e Castigo. Minhas histórias dos outros se encerra, inclusive, com revelação espetacular do acolhimento por parte de Zuenir de uma peça chave do assassinato de Chico Mendes. É a história de um corajoso menino acreano que sustentou a denúncia. O envolvimento do jornalista com a notícia que publica, tema ético relevantíssimo nessa profissão, é um dos argumentos que sustentam essa preciosa narrativa. E que narrativa!

Zuenir é mineiro. Viveu maior parte da vida no Rio, onde estudou letras, na antiga Faculdade Nacional de Filosofia. Foi aluno de Alceu de Amoroso Lima e de Manuel Bandeira. Conta histórias interessantíssimas sobre sua vida de estudante, e sobre um Rio de Janeiro há muito desaparecido. Andava de bonde, descia a Avenida Antonio Carlos, na Esplanada do Castelo, rumo à faculdade, o que, escreveu, “não era uma obrigação diária, mas um prazer”. O título, Minhas histórias dos outros, foi tomado de um outro grande livro da memorialística brasileira, que é Minhas memórias dos outros, de Rodrigo Octávio, advogado, consultor-geral da república, escritor e membro da Academia, no início de sua história.

Ao longo desse livro o autor nos conta a história do Brasil, tal como ele a viu e viveu. Narra uma visita ao apartamento de Manuel Bandeira (no Edifício São Miguel, Avenida Beira-Mar, 406). Conta-nos como começou no jornalismo, e a influência que Helvécio Martins teve sobre sua vida e escolhas profissionais. Zuenir trabalhou no arquivo da Tribuna da Imprensa, que era o jornal de Carlos Lacerda. Conta-nos que providencia pastas de documentos para grandes nomes da imprensa, como Murilo Melo Filho. Atendendo a uma ordem de Lacerda, Zuenir escreveu um texto sobre Camus, a propósito da morte do escritor argelino. Promovido, Zuenir seguia a vocação, subindo para noticiarista e depois para redator.

Em 1961 esteve em Paris, como bolsista do governo francês e correspondente da Tribuna. Andou pelo país, esteve em Saint-Tropez, então point de atores como Roger Vadim e Brigite Bardot. Era o tempo de Charles De Gaulle e da guerra da Argélia. Menciona cartaz que anunciava Acossado, um desconcertante filme de Godard, com Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg. A narrativa sobre o encontro do século, entre Kennedy e Khruschov, é um dos pontos altos do livro. As referências a Jaqueline Kennedy já valem a leitura. João Goulart e Leonel Brizola também aparecem nessa parte do livro. Zuenir, que trabalhava para Lacerda, funcionou como tradutor de uma entrevista dada por Jango, atordoado com as notícias sobre a renúncia de Jânio. Zuenir narra com precisão esse momento, e não diz que Jango não sabia realmente o que fazer.

Glauber Rocha ocupa várias páginas do livro. Zuenir reuniu muito material para uma biografia de Glauber (e eu já havia lido em Nelson Mota, que biografou uma parte da vida do cineasta). Havia feito muitas entrevistas, registrado informações pessoais. O material se foi com um furto de um carro. Zuenir conformou-se com o destino, achou que era um aviso de Glauber, e desistiu da empreitada. Dedicou-se à biografia por cerca de dez anos. São de intenso lirismo as passagens sobre os últimas dias de Glauber, sua internação em Portugal, a viagem para o Brasil, o enterro. A descrição do enterro de Darcy Ribeiro, de igual modo, é marcado por uma narrativa perturbadoramente apoteótica.

Zuenir dedicou algumas excelentes páginas para tratar de Vladimir Herzog, de sua morte na prisão, e da reação dos jornalistas àquele evento, tão brutal. Segue as reminiscências sobre a anistia. O atentado ao Rio centro é lembrado, especialmente do modo como um inquérito policial militar teria se esforçado para inverter os fatos. Zuenir como inclusive como Figueiredo, muitos anos depois, teria reconhecido a participação de dois militares no triste episódio.

Rememora o verão 1979-1980. Nessa parte, abre uma discussão sobre a cena de Fernando Gabeira na praia, ao voltar do exílio. Apresenta as duas versões: Gabeira usava uma tanga de crochê ou a parte de baixo do biquini de Leda Nagle, que era sua prima. Ridiculariza algum segmento da esquerda, que era revolucionário na política e conservador nos costumes. O capítulo sobre a AIDS, e as lembranças de Cazuza ilustram esse tempo, também de triste memória.

Zuenir alcança a Constituinte, a transição para a era civil, a reconquista da democracia, e toda aquela efervescência que marcou a virada dos anos 80 para os anos 90. Minhas histórias dos outros é um livro que permite aos que vivemos a história juntarmos alguns pontos desconexos, jogando luz em alguns problemas. Para quem não viveu, o testemunho de que esse país já foi muito mais interessante.

(*) É livre-docente pela USP, doutor e mestre pela PUC-SP, advogado, consultor e parecerista em Brasília. Foi consultor-geral da União e procurador-geral adjunto da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional.

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