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Sobre o Abril Indígena, Neyla Ferreira Mendes escreveu: ‘Um sintoma’

Neyla Ferreira Mendes (*) –

Quer saber se uma coisa não funciona ou se um grupo é vulnerabilizado pela estrutura? Procure saber se tem um dia nacional. Se tem, não é coincidência, é sintoma. E quanto mais importante o “dia”, mais profundo costuma ser o problema. O Dia dos Direitos Humanos, por exemplo, carrega uma ideia bonita,  dignidade, igualdade, proteção universal,  mas, no Brasil, a realidade mostra outra coisa:  mais de 30 milhões de pessoas vivem em situação de pobreza extrema ou insegurança alimentar grave, o país registra dezenas de milhares de homicídios por ano, com forte concentração em jovens negros, e há altos índices de violência institucional e baixa responsabilização em casos de abuso de poder. Ou seja, existe um dia para lembrar direitos que, na prática, não são garantidos diariamente.

O mesmo vale para o Dia da Mulher ou o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra a Mulher: apesar do discurso de erradicação da violência, a realidade mostra que uma mulher sofre violência a cada poucos minutos, que uma é assassinada a cada cerca de 6 horas no Brasil e que a maioria dessas agressões acontece dentro de casa, geralmente cometida por parceiros ou ex-parceiros. Assim, existe um dia para “eliminar a violência”, mas ela continua estruturada, cotidiana e previsível.

E em abril, o Dia dos Povos Indígenas entra exatamente nessa mesma lógica. Enquanto se fala em cultura, ancestralidade e reconhecimento, muitas comunidades ainda enfrentam falta de água potável, desnutrição infantil e doenças evitáveis que continuam matando. Soma-se a isso a violência do Estado, muitas vezes expressa em ações policiais desproporcionais contra quem reivindica direitos básicos, ao mesmo tempo em que há ausência de proteção efetiva para suas demandas. O acesso à justiça também é marcado por barreiras e preconceitos, dificultando que essas populações sejam ouvidas e tenham seus direitos garantidos de forma plena.

 Os recursos existem, as políticas existem, as estruturas existem, mas não chegam na base. E é aqui que aparece o ponto central: esses dias não existem porque os problemas são pequenos, eles existem porque os problemas são persistentes. O sistema não ignora,  ele reconhece. Mas reconhecer não é resolver. Na prática, muitas vezes o reconhecimento vira substituto da solução. Cria-se o dia, faz-se campanha, gera-se visibilidade e, no resto do ano, a estrutura continua operando do mesmo jeito.

Quando alguém de fora, não indígena, como eu, olha mais de perto, a percepção é de que o problema se aprofunda. A estrutura parece viciada: qualquer crítica, mesmo as vindas do próprio povo,  passa a ser vista como ataque pessoal ou político, e não como um alerta de que o serviço na ponta falhou. A blindagem se instala, e quem está no topo da pirâmide, sejam gestores ou lideranças alinhadas, passa a usar a própria causa como escudo para fugir da responsabilidade pelos resultados. Forma-se uma casta que fala em nome do povo, mas que não vive a realidade do povo: não bebe a água contaminada, não sofre com a falta de remédio, não sente o peso da ausência cotidiana. Se a crítica não é aceita, o diálogo morre  e, no lugar do diálogo, fica apenas a propaganda.

Nesse ambiente, surge uma dúvida inevitável: a mudança ainda pode vir de dentro ou o próprio sistema já absorveu qualquer possibilidade de transformação? Porque o que se observa, muitas vezes, é a reprodução das mesmas hierarquias dentro de grupos que historicamente foram vítimas delas. Alguns por terem tido mais acesso ao Estado ou à economia ou, pior ainda, por influência de forças externas,  passam a ocupar o papel de intermediários. E, a partir daí, monopolizam recursos, controlam a representação política, falam em nome de todos e silenciam comunidades mais frágeis ou mais isoladas. Surge, inclusive, uma hierarquização interna, onde grupos  se consideram mais importantes ou mais legítimos que outros, gradativamente deslegitimando culturas e modos de vida diferentes dentro do próprio conjunto.

Essa dinâmica é cruel porque fragmenta a luta coletiva e cria uma nova camada de opressão: quem deveria ser aliado passa a reproduzir a lógica da exclusão. É a ponta final de um processo mais profundo, onde a desigualdade deixa de ser apenas imposta de fora e passa a ser mantida por dentro. E isso não acontece por acaso. Sustenta-se em três pilares: a moeda da intermediação, onde quem se torna o canal com o mundo externo concentra poder; o valor da ascensão individual, onde o coletivo perde espaço para a lógica do acúmulo; e a escassez induzida, onde recursos insuficientes geram disputa e, consequentemente, hierarquia. O sistema externo planta a desigualdade ,  e ela cresce internamente quando a sobrevivência passa a depender de estar um degrau acima do outro.

Esse cenário não é abstrato. Ele se materializa de forma brutal em situações concretas, como o que acontece na Reserva Indígena de Dourados, principalmente nas aldeias Jaguapiru e Bororó e seu entorno. Ali, a negligência estrutural se traduz em morte. A falta de abastecimento regular de água obriga as famílias a armazenarem água em tambores e baldes, que se transformam em criadouros de mosquito. A necessidade básica vira o vetor da doença. Em 2026, pelo menos cinco mortes por chikungunya já foram confirmadas, e a reserva concentra a maior parte dos casos do município, levando ao reconhecimento de situação de emergência. Enquanto isso, fala-se em obras milionárias que se arrastam há anos, em recursos autorizados que não se convertem em realidade, em valores que existem no discurso, mas não chegam à torneira de quem precisa.

O palco revela um  palanque político sobre uma tragédia humana. Enquanto famílias enterram seus mortos, anúncios de investimento continuam sendo feitos. Há disputa de narrativa, jogo de empurra entre diferentes esferas de poder, uso da crise como argumento político. Ao mesmo tempo, recursos são travados, investimentos são suspensos e a população continua exposta. E quando a comunidade reage, quando protesta, quando tenta romper o silêncio, encontra balas de borracha e gás lacrimogêneo ,  repressão em vez de solução. A luta por água se transforma em confronto. A necessidade básica vira conflito.

Isso produz uma hierarquia de sofrimento: quem está no topo ganha visibilidade ao administrar a crise; quem está na base continua vivendo ela. Fala-se em milhões, mas a água não chega. Fala-se em política pública, mas a doença avança. Fala-se em representação, mas a base continua sem voz.

Por isso, no fim,  perguntar é necessário: a água chegou? A comida chegou? A saúde e a educação diferenciadas, interculturais, bilíngues e comunitárias chegaram? O acesso à justiça de qualidade chegou? A segurança respeitosa chegou? Se não chegou para todos, nada mudou.

E talvez a forma mais dura de encerrar seja essa: quando uma injustiça ganha um dia, ela também ganha um limite, um espaço controlado onde pode ser lembrada, desde que continue não sendo resolvida no resto do ano.

(*) Cadeira n. 22 da Academia Feminina de Letras e Artes de MS –  AFLAMS, Defensora Pública Estadual e Presidente do Conselho Estadual de Direitos da Pessoa Humana -MS

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