Ser feliz na era da internet , por Pe. Crispim
Artigo – 15/10/2008
A humanidade não se cansa de buscar a felicidade e não poderia ser de outra forma, mesmo porque fomos criados para isso, a afirmativa se verifica nos mitos fundantes de todos os povos. Na Bíblia, esta busca se ver do Gênesis ao Apocalipse, porém a prova mais contundente é a minha e a sua perspectiva de vida, tudo o que fazemos vai nesta direção, é ou não é?
Com o advento da psicanálise e da psicologia esta roda motora fica ainda mais visível. O que estas ciências querem? Livrar o ser humano do sofrimento, dando-lhe a sensação de felicidade, a que muitos comparam a paz, tranqüilidade e harmonia… Mas, também o que vemos na maioria das pregações nos templos religiosos, nas TVs e rádios não fogem à regra.
Ser feliz é algo que supõe nuances, desvios e oposições, só quem aprende a trabalhar com estes elementos pode amadurecer, e a maturidade interior é subsídio mais que necessário na construção da pessoa realizada. Contudo é preciso esclarecer que a pergunta sobre a felicidade não é inocente e nem puramente institucional. Nesta perspectiva a concepção de liberdade é muito importante, pois a liberdade como fruto do relativismo impõe à pessoa, o conceito que basta pensar que tal realidade traz felicidade para ser buscada a qualquer preço, quando se sabe que a humanidade tem suas debilidades e que, queiramos ou não, ela se manifesta no decorrer da existência humana.
A separação entre objetividade e subjetividade está inscrita na modernidade. “Agora há uma radicalização. A esfera administrativa é técnica, funciona como sistema, aparentemente sem possibilidade de intervenção da consciência”. E o mundo objetivo só existe para o pensamento vigente se este for subjetivo, isto é, a realidade só é verdadeira quando partir do “eu acho”, quando na verdade sabemos que o objetivo existe, quer eu ache ou não. Queremos reduzir o mundo a uma experiência subjetiva, seria o mesmo que afirmar que o ser humano tem o mundo todo dentro de si, talvez seja mais coerente dizer que o ser humano está dentro do mundo.
E A INTERNET? Ela surge como instrumento de comunicação, esse por sua vez não é pejorativo, ao contrário, como tal aproxima as distâncias, desde que não passe de instrumento é um grande bem. Todavia, quando se transforma na identificação do indivíduo consigo mesmo, trazendo o mundo para a tela do internauta, parece que o a própria pessoa se basta em si mesma, como conseqüência vem a solidão existencial, pois não há carne, corpo e realidade.
Um exemplo claro e pessoal: tenho um sobrinho com 20 anos de idade, depois que completou 15 anos, começou a falar bastante comigo pelo MSN, quase todos os dias. Quando em 2004, fui de férias para minha cidade, imaginei que boa parte do meu tempo devia ser ocupado com ele, a julgar pelo intenso diálogo que mantínhamos na internet. Cheguei a dizer para meus pais: “vou deixar um tempo livre para o Fernando”, para minha surpresa só nos vimos uma vez e de modo muito corrido. Quando voltei a Dourados, imaginei que aquelas conversas virtuais diminuiriam, não, até aumentaram! E assim tem sido nestes cinco anos, sempre nos falamos, desde que seja de modo virtual, o pessoal não funciona, a conversa tem que ser sem corpo…
A internet, não foge à regra: o homem continua buscando a felicidade, também na sociedade de consumo, através da gratificação imediata, tendo as informações mais variadas nas mãos, porém o que fazer com tantas informações? Eis a questão! Se não estou enganado estamos vendo surgir a “ética da não convivência”, que ameaça tornar a pessoa refém de um “eu” dividido e pequeno, fechando-se sobre a própria subjetividade, como salienta a psicanalista Maria Rita Kehl ao dizer que, “o sujeito moderno é livre para viver segundo seus desejos e desamparado quando se trata de ser o juiz de si e de levar em conta a existência do outro. É um sujeito dividido entre gozar e ter que conviver”.
Ser feliz, provou a história da humanidade, não é imediatismo, nem fuga de si mesmo e dos outros, mas encontro de ambos, num processo reacional maduro e conflitivo. Não se pode negar o subjetivo (o eu), de igual modo, não se deve esquecer a objetividade (o outro: pessoa humana e Deus).
Pe. Crispim Guimarães
Coordenador de Pastoral da Diocese de Dourados
Fonte: Folha de Dourados



