Um roubo violento registrado no bairro Castelo, na região da Pampulha, em Belo Horizonte, na tarde desta segunda-feira (20), voltou a chamar a atenção para um tipo de crime que parecia menos frequente fora da área central da capital: o roubo de correntinhas.
A vítima, um homem de 55 anos, foi abordada por quatro suspeitos ao sair de uma quadra de tênis, após ir a uma padaria.
Durante a ação, ele foi derrubado, agredido e teve o cordão arrancado do pescoço. O crime aconteceu justamente no dia do aniversário dele.
A corrente levada, segundo relato, tinha valor principalmente afetivo — era um presente da mãe, que morreu em setembro de 2025.
Imagens da ação viralizaram nas redes sociais e mostram a violência empregada pelos autores. A vítima sofreu ferimentos no joelho e no pescoço e relata dores pelo corpo. Dois dos suspeitos já foram identificados e, de acordo com as informações apuradas, é questão de tempo até que os envolvidos sejam localizados e presos. As diligências seguem em andamento.
Apesar da repercussão, especialistas recomendam cautela antes de apontar uma mudança consolidada no cenário da criminalidade.
A socióloga Roberta Fernandes, pesquisadora do Centro de Estudos em Criminalidade e Segurança Pública (CRISP/UFMG), explica que o caso pode estar mais ligado a ações oportunistas do que a uma reversão de tendência.
“Os indicadores de Belo Horizonte vinham em queda. Esse episódio não é necessariamente uma mudança estrutural imediata, mas pode indicar o reaparecimento de nichos de roubo patrimonial altamente seletivos”, afirma.
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Dados recentes do Observatório de Segurança Pública de Minas Gerais mostraram que, em 2025, Belo Horizonte registrou 5.106 ocorrências de roubo consumado.
Já em 2026, até março, foram contabilizados 685 casos, sendo 590 em vias públicas. Mesmo com a redução geral, episódios como o do Castelo acendem um sinal de alerta, especialmente pelo nível de violência empregado e pelo número de autores envolvidos.
Segundo a especialista, a valorização do ouro nos últimos anos tem contribuído para tornar esse tipo de crime mais atrativo.
“É um bem pequeno, de fácil transporte, difícil rastreamento e rápida revenda. Isso aumenta o interesse criminoso”, destaca.
Além disso, há indícios da atuação de microgrupos organizados, com divisão de tarefas e estratégias de abordagem e fuga, o que eleva o risco de agressões às vítimas.
Outro fator observado é a descentralização do crime predatório urbano. Com o reforço do policiamento em áreas tradicionalmente mais críticas, grupos criminosos passam a atuar em bairros com maior poder aquisitivo, fluxo de pedestres e rotas de fuga mais favoráveis.
Regiões como a Pampulha, incluindo o próprio Castelo, já aparecem em registros recentes ligados à chamada “gangue da correntinha”, indicando possível expansão territorial desse tipo de crime.
Para a pesquisadora, a resposta mais eficaz passa pelo uso de inteligência policial e análise de dados, e não apenas pelo aumento do efetivo nas ruas.
“É preciso mapear horários, rotas, perfis e, principalmente, combater a cadeia de receptação. Sem mercado para revenda, esse tipo de crime perde força”, afirma.
Ela também reforça que a responsabilidade nunca é da vítima, mas orienta cuidados para reduzir a exposição a esse tipo de abordagem, como evitar o uso visível de joias e celulares em locais públicos e redobrar a atenção em momentos de deslocamento.
A Polícia Militar de Minas Gerais foi questionada pela reportagem sobre a insegurança na região, e sobre quais medidas podem ser adotadas para coibir esse tipo de ação, mas, até a conclusão deste texto, não havia se posicionado. O espaço segue aberto.
(Informações R7)




