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Reitoria da UFGD: grupo comemora vitória com ataques misóginos e sexistas

José Henrique Marques –

Como mero observador da disputa pela reitoria da UFGD, confesso que torci pelo reitor eleito Etienne Biasotto. Penso que a comunidade acadêmica fez justiça a quem há poucos anos fora vítima de Jair Bolsonaro. O ex-presidente desrespeitou a lista tríplice não nomeando o professor Etienne, que também fora eleito nas eleições passadas para a reitoria por ser preparado e íntegro.

Não tenho, absolutamente, nada contra as candidatas das outras duas chapas, as professoras Marisa Lomba Farias e Gicelma Chacarosqui. E como não estava apto a votar, apenas observei e apoie, através da Folha de Dourados, as três candidaturas divulgando matérias sobre as propostas das oponentes.

Durante a curta campanha, cerca de 20 dias, colhi uma informação aqui, outra acolá, sobre os bastidores e os debates. Não sei se estou equivocado ou mal informado, mas me pareceu tudo dentro da normalidade democrática, quanto aos padrões de ética que se espera do seleto meio acadêmico de uma universidade, principalmente, federal.

Contudo, o que está chamando a atenção é o comportamento de um pequeno grupo de pessoas ao redor da chapa vencedora. Ao invés de comemorar, tripudia membros das chapas vencidas nas redes sociais e aplicativos de mensagens.

Marisa Lomba e Etienne Biasotto são militantes petistas, e o racha entre eles não foi bem compreendido dentro do PT. Mas, a disputa não era partidária ou ideológica. Com certeza divergem na visão sobre a gestão da universidade e decidiram pelo embate, que foi respeitoso e democrático. O temor era que a divisão do campo progressista entregasse a reitoria à candidata apoiada por setores da direita douradense, Gicelma Chacarosqui, o que não aconteceu, Etienne venceu com 56,3% dos votos. 

Reitoria da UFGD: grupo comemora vitória com ataques misóginos e sexistas

Talvez pela potência do sobrenome Biasotto (a pai de Etienne, o saudoso professor e ex-vereador Wilson, anteviu a UFGD em artigo publicado no jornal O Progresso, na década de 80), setores do PT viram traição na candidatura de Marisa Lomba, e tripudiaram a derrota dela. Os ataques não foram direcionados apenas a então candidata, mas também a um grupo de mulheres que tem história e ajudou a construir o partido, fazendo campanhas para Lula, Zeca, João Grandão, Tetila e o próprio Wilson Biasotto durante décadas. Ignorar a história das mulheres é uma atitude misógina.

Se os ataques a Marisa Lomba e apoiadoras tiveram vieses políticos, os direcionados a Gicelma Chacarosqui foram abaixo da crítica com – linguagem chula: “Chupa, Gicelma”!

Por hora, Marisa não se manifestou sobre os ataques, mas Gicelma, sim. Leia:

A expressão “chupa, Gicelma” ( com vírgula , ou sem vírgula), foi dirigida a mim como candidata à reitoria, num vídeo de comemoração da Chapa 1 , vencedora do Pleito da UFGD: trata-se de uma fala de natureza provocativa e agressiva, comum em contextos de disputa política ou institucional! Não deveria ! Em nenhum ambiente , muito menos no de uma Universidade !
A expressão “chupa” funciona como linguagem (sexual) de humilhação, cujo objetivo é rebaixar simbolicamente a interlocutora. Nesse sentido, a frase desloca o conflito do campo da comemoração civilizada, para o campo da ofensa e da desqualificação pessoal.
Do ponto de vista semiótico , a frase carrega uma conotação sexual implícita, historicamente. Usada como insulto, a palavra “chupa” sugere submissão ou inferiorização do( a ) outro( a) .No caso , no meu caso , de uma professora Universitária, mãe , avó , ser humano , MULHER!
Se considerarmos que a fala foi dirigida a uma “ mulher candidata” , a frase de conotação sexual reproduz estruturas de violência simbólica de gênero, nas quais o corpo e a sexualidade feminina são mobilizados como instrumentos de deslegitimação pública.
Assim, o ataque deixa de ser apenas político e passa a tocar também em dimensões misóginas e sexistas.
Do ponto de vista da cultura política contemporânea, esse tipo de enunciado também se insere em um fenômeno mais amplo: a brutalização do discurso público. Em vez de sátira, a palavra/ signo ganha movimento que empobrece a esfera pública, porque reduz a complexidade do conflito político a gestos de deboche , ironia e brutal agressão.
Por fim, a crítica semiótica revela que a frase “chupa, Gicelma” não produz efetivamente um posicionamento político elaborado. Ela funciona sobretudo como performance de vitória e de antagonismo, buscando apoio emocional de um grupo ao deslegitimar uma “ MULHER , e cujo efeito é mais agressivo – performático do que argumentativo. Mas, o pior, é quando tudo isto é feito coletivamente, com a presença do REITOR ( e de mulheres) ! Que lástima , que feio , que triste … Pior ainda , quando publicado e reproduzido por mulheres , e pior ao cubo , por mulheres com cargos públicos … Fica meu lamento! GC

Reitoria da UFGD: grupo comemora vitória com ataques misóginos e sexistas
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