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Recesso branco… imoral

Opinião – 06/08/2008

Oitenta e quatro deputados federais e três senadores são candidatos a prefeito ou vice-prefeito nas eleições desse ano. Isso representa um sexto do Congresso Nacional, composto por 513 deputados e 81 senadores. Além dos parlamentares candidatos, os demais se sentem na obrigação de ajudar seus correligionários que concorrem às prefeituras e câmaras de vereadores das respectivas bases eleitorais para, daqui a dois anos, poderem contar com o apoio deles na reeleição ao Congresso. Por conta disso, está para acontecer o “recesso branco”, onde Câmara e Senado Federal param (ou quase param) de trabalhar.
            Por mais justificativas políticas, eleitorais e estratégicas que os nobres representantes do povo e dos Estados possam apresentar, jamais conseguirão meter na cabeça do povo a idéia de que, por causa das eleições, eles não precisam comparecer ao trabalho, onde recebem polpuda remuneração. Para tirar a má impressão, deveriam tirar licença de seus cargos para, só assim, poderem faltar às sessões e fazer campanha para si ou para terceiros em seus currais eleitorais. Com a licença, os suplentes assumiriam e o parlamento continuaria funcionando “normalmente”, sem prejuízo para a nação. Vantagem adicional: o povo não teria razão para se sentir enganado.
            Deputado ou senador é, sem qualquer dúvida, uma liderança em sua área de atuação. Assim, devem fazer tudo para manter a boa imagem e continuar gozando do respeito do eleitorado. Talvez bastasse o apoio formal ou até declarações eletrônicas por vídeo e áudio para que pudessem dar seu apoio a cada parceiro concorrente à eleição municipal. A presença física poderia ficar limitada a eventos principais.
            As práticas adotadas ao longo de anos têm embaçado a imagem do congressista. A injustificável demora na tramitação dos projetos leva ao povo a crença de que a classe ganha muito e trabalha pouco. A ausência de muitos às sessões de segunda, terça e sexta-feira reforça a idéia, mas para isso há a justificativa de que nesses dias o titular do mandato está na sua base eleitoral, colhendo informações para seu trabalho. E, para piorar consideravelmente a imagem, existem os escândalos envolvendo deputados e senadores, que atingem uma minoria, mas causam grande estrago à imagem de todos.
            O governo agrava o quadro negativo ao se valer do vácuo para abusar na edição de casuísticas medidas provisórias, que entram em vigor antes de apreciadas pelo Congresso, mas fazem um grande estrago na pauta dos trabalhos. A tradição executivista leva a um injusto desmerecimento do Congresso, que deveria ser encarado como a legítima casa do povo.
            Espera-se que – até por uma questão de sobrevivência – deputados e senadores evitem ao máximo o tal “recesso branco” e estudem, urgentemente, um meio de acabar de vez com essa nociva prática que o povo reprova.
 
Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves –  diretor da ASPOMIL (Associação de Assist. Social dos Policiais Militares de São Paulo) 
[email protected]                                           

Fonte: Folha de Dourados

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