Reinaldo de Mattos Corrêa –
Chegamos a um ponto na jornada coletiva em que a reflexão sobre o que foi perdido precisa ceder espaço à urgência do que pode e deve ser construído. Foi percorrido o caminho da árvore que cai, do silêncio que se desaprende, da sombra que se esvai e da cidade que se torna inabitável por dentro. O corpo sente o calor que avança, os ouvidos captam o ruído que se intensifica e a percepção reconhece a aridez que se instala não apenas no asfalto, mas na própria experiência de viver. Agora, surge o tempo de olhar para o que floresce, para o que insiste em brotar, e compreender que a resiliência urbana está diretamente ligada à capacidade de estabelecer um pacto com a vida que a sustenta.
Já não se trata de lamentar ausências, mas de reconhecer que a presença da natureza no tecido urbano constitui um direito fundamental, uma questão de justiça climática. A sombra de uma árvore deixa de ser luxo e se revela necessidade vital, sobretudo para quem habita áreas mais densas e menos favorecidas de Dourados. Onde o concreto predomina e o verde escasseia, o calor se intensifica, os gastos com energia para climatização aumentam e problemas de saúde ligados ao estresse térmico se agravam. A equidade verde, entendida como distribuição justa de sombra e ar puro, torna-se indicador de uma cidade comprometida com o bem-estar coletivo.
É necessário desconstruir a ideia de que a árvore na calçada representa posse individual ou mero adorno. Trata-se, na verdade, de um bem comum, uma infraestrutura viva que presta serviços inestimáveis à vizinhança. As raízes estabilizam o solo, as folhas filtram poluentes, as copas abrigam biodiversidade e, acima de tudo, ocorre a moderação do clima local, oferecendo alívio em dias de calor extremo. A supressão de uma árvore sem justificativa técnica e sem reposição adequada configura um ato de vandalismo contra o clima compartilhado, uma ruptura do pacto invisível que deveria unir a população em favor de um ambiente mais habitável. Evidências científicas indicam que a arborização pode reduzir a temperatura ambiente em até 5°C, um serviço ecossistêmico de regulação cada vez mais relevante diante das mudanças climáticas.
O planejamento urbano contemporâneo já não pode insistir em confrontar a natureza. Ao contrário, as Soluções Baseadas na Natureza (SbN) emergem como caminho inteligente e eficaz para cidades resilientes. Integrar vegetação ao desenho urbano, planejar o crescimento das raízes em diálogo com o asfalto, criar corredores verdes e parques lineares ultrapassa a dimensão estética; configura estratégia essencial para saúde pública, qualidade do ar, gestão hídrica e promoção da biodiversidade. Cidades que florescem reconhecem na natureza não um obstáculo, mas a principal aliada na construção de um futuro sustentável.
O convite agora aponta para a ação, para um pacto de cidadania que ultrapasse a indiferença. Cada árvore plantada e preservada representa um voto de confiança no futuro de Dourados, um gesto de biofilia — a inclinação humana de se conectar com a vida, manifestada na busca por ambientes mais verdes e acolhedores. Trata-se de um compromisso com gerações futuras, um reconhecimento de que qualidade de vida urbana não se mede apenas por edifícios e estradas, mas pela vitalidade dos ecossistemas. Que a cidade, ao decidir florescer, recorde que a verdadeira riqueza reside na sombra que abriga, no ar que circula e na vida que pulsa em cada folha, em cada galho, em cada raiz.
Reinaldo de Mattos Corrêa é Produtor Rural em Mato Grosso do Sul.
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