Os candidatos petistas a prefeito e vice: Professor João Carlos e Lourdes Castro

José Henrique Marques

O paulistano João Carlos de Souza, 64 anos completados ontem (15), estreia nas urnas eleitorais nas eleições municipais deste ano com o desafio da retomada da Prefeitura de Dourados pelo Partido dos Trabalhadores após 12 anos. O PT, com o professor Laerte Tetila, administrou Dourados de 2001 a 2008, em dois mandatos consecutivos.

Graduado em Filosofia e História e Doutor em História pela USP, o professor João Carlos é casado, reside em Dourados há 20 anos e é aposentado pela UFGD, onde foi diretor da Faculdade de Ciências Humanas – FCH/UFGD por dois mandatos consecutivos (2006-2015).

Em entrevista exclusiva à Folha de Dourados, o candidato petista disse que, para superar a pouca exposição pública de seu nome, pretende utilizar as redes sociais para se tornar conhecido do eleitorado, relembrando, entre outras ações de marketing, as administrações de Tetila que “saiu com enorme aprovação no 2º mandato e até hoje a população reconhece seu trabalho e o de sua equipe”.

Ele reconhece a importância do alinhamento Tetila-Zeca-Lula que viabilizou grandes conquistas para Dourados, como a própria UFGD e a implantação do HU e HV, entre outras, mas é reticente quanto ao possível alinhamento Barbosinha-Reinaldo-Bolsonaro, com eventual vitória do candidato do DEM.

“O alinhamento a que se refere o candidato Barbosinha, ocorre em relação ao discurso favorável ao desmonte dos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras, do ataque à previdência e seguridade, deixando a todos sem garantias, do ataque aos servidores públicos. Barbosinha tem sintonia com esta agenda neoliberal”, disse o Professor João Carlos.

Na entrevista, ele fala do enfrentamento com a onda conservadora capitaneada pelo presidente Jair Bolsonaro, das tratativas com partidos do campo progressista visando coligações, das propostas que levará ao julgo do eleitorado e que fará campanha de oposição a prefeita Délia Razuk “sem oportunismo político”.

A seguir, a entrevista na íntegra.

Folha de Dourados – O senhor estreia nas urnas em 15 de novembro e, portanto, não é conhecido do eleitorado, o que poderá ser revertido na campanha. Mesmo assim, quais são as chances do PT voltar a administrar Dourados em 2021?

Professor João Carlos – Vivemos hoje um período de muitas crises, econômica, sanitária e política que deixam a eleição 2020 em aberto, pois há uma grande insegurança e insatisfação na população. Outro fator é a comunicação pelas redes sociais, que permite pessoas desconhecidas se tornarem uma surpresa. Há outro diferencial a se destacar, o PT possui um eleitorado do qual partimos como referência.  Além disso, a Administração do Partido dos Trabalhadores, liderada pelo ex-prefeito Tetila saiu com enorme aprovação no 2º mandato e até hoje a população reconhece seu trabalho e o de sua equipe. Portanto, na medida em que a população comparar as gestões do PT com as demais, não tenho dúvidas que ampliaremos muito a possibilidade de sairmos vitoriosos nessas eleições. Nós já provamos que sabemos administrar de forma participativa, ética e eficiente. Ou seja, com a população e para a população.

Folha de Dourados – Dourados é um município cuja principal atividade econômica é o agronegócio que apoiou a onda conservadora liderada pelo presidente Jair Bolsonaro que teve mais de 70% dos votos aqui. Como ultrapassar essa barreira?

Nas duas últimas décadas, a configuração econômica de Dourados se alterou. O setor de serviços ocupa quase 70% das atividades, isso vem tornando a cidade um polo de referência em saúde, educação, comércio atacadista e outros setores que estão começando a ser impulsionados, como os de energia limpa. Devemos isso às universidades, aos hospitais públicos HV e HU, Institutos privados de medicina etc. A onda conservadora existiu de fato, por vários motivos, setores da elite do país voltados para atender o mercado financeiro, com discursos de que os responsáveis pela crise são os trabalhadores e trabalhadoras, os aposentados, os funcionários públicos. Encampados pela grande mídia tradicional e empresarial. Daí os discursos de desqualificação e da necessidade de reformas. As reformas estão vindo a galope, os resultados prometidos e cantados em verso e prosa, vem a passos de tartaruga (nada contra as tartarugas), caminham de lado ou para trás. Mas, e a contribuição das grandes fortunas e do mercado financeiro? A reforma tributária é para atingir apenas médios e pequenos empresários. A reforma administrativa é para atingir os que sustentam os serviços públicos com seu trabalho. Por exemplo, os servidores públicos da saúde impediram que a tragédia da pandemia fosse ainda maior, pois o governo federal mais atrapalhou do que contribuiu para a superação das dificuldades. Os professores das escolas públicas também se desdobram na educação. Portanto, há muito que se debater e aprender com a política, temos certeza que teremos espaço para dialogar com todos os setores da sociedade com e apresentar nosso projeto.

Folha de Dourados – Com quais partidos o PT dialogou visando construir alianças em Dourados, e por que não avançou?

Conversamos com o PDT, fomos sondados em relação às nossas propostas para a cidade. Como não tinham candidatura própria e não chegaram a fazer propostas, não houve sequencia nas conversas. Com o PSB, o convite foi no sentido de participar de um bloco, no qual o PT seria mero coadjuvante. Nós, desde o início dessas conversas, apontávamos que após 12 anos sem disputar eleições com candidatura petista a prefeito, havia uma firme decisão do nosso partido, depois de tudo que já construímos em nossa cidade, em lançar candidatura própria, com um programa de governo fruto das nossas ricas experiências e visão de cidade. Também dialogamos com o Partido Socialista e Liberdade (PSOL), que apesar da nossa proximidade política e ideológica, também não prosperou uma aliança.

Folha de Dourados – O PSOl, por exemplo, não lançou chapa majoritária. Não seria o caso de uma aliança com o PT?

Com o PSOL temos, desde 2019, realizado atividades em conjunto, debates sobre a conjuntura do país e de Dourados. Formamos uma Frente de esquerda contra o desmonte dos direitos e da cidadania. Razões mais de ordem interna do que programáticas inviabilizaram a aliança. O PSOL teve um nome que se colocou na disputa com o Professor Enio (Ribeiro), o que estava ainda sem solução, próximo da convenção. Por sua vez, o PT se movimentou para ter uma vice-prefeita mulher Lourdes Castro de Oliveira Kuttert, da luta, da terra, quilombola e da agroecologia, representante e defensora das mulheres trabalhadoras de nossa região. Mas caminhamos juntos, construindo as lutas populares e democráticas.

Folha de Dourados – O PT não conseguiu formar chapa cheia à Câmara Municipal – ao invés de 29, apresentou apenas 15 nomes. Quais foram as dificuldades e quantos vereadores, no mínimo, o partido espera eleger?

Montamos uma chapa de vereadoras e vereadores comprometidas/os com as bandeiras do partido, muito representativa dos mais variados segmentos da sociedade e cientes da importância política do presente. Na última eleição municipal, em 2016, apresentamos apenas sete nomes. Destaco que estamos assistindo a uma renovação no Partido, nesse sentido avançamos bastante. Avaliamos que o fato do PT não ter apresentado candidatura própria nos últimos três pleitos, acabou, de certo modo, por desmotivar e dispersar a militância. Uma razão a mais que justifica a candidatura própria atual. De todo modo, avaliamos que temos potencial, para eleger três vereadoras/es.

Folha de Dourados – Nessas eleições, o PT em nível nacional pretende defender os legados das administrações petistas. Dourados, por exemplo, foi beneficiada com o alinhamento Tetila-Zeca-Lula. O senhor acredita que o passado possa refletir votos no presente?

Acreditamos que em parte sim. Há muitos douradenses que viveram esse período, se lembram das escolas construídas e reformadas, dos hospitais HV e HU, da UFGD, do Instituto Federal – IFMS, dos conjuntos habitacionais, do programa minha casa minha vida, do PAC, do Jorjão, o cuidado com os Parques. Mas temos também os jovens de 16 a 25 anos que eram pequenos e pouco acompanharam esse processo. Exigem uma linguagem própria. Nada é automático, temos que buscar novas formas para dialogar com a juventude.

Folha de Dourados – Cite as principais conquistas de Dourados advindas desse alinhamento?

O alinhamento trouxe enorme dinâmica para a cidade, inclusive a superação do binômio gado/soja, conforme já mencionado. A criação da UFGD e incorporação do HU trouxeram muitos cursos de diferentes áreas, engenharia, saúde e educação, formando novos profissionais que hoje já atuam em nosso meio, além de pesquisadores, docentes e técnicos. A reestruturação e expansão da UEMS com seus projetos para comunidade. O IFMS. A educação superior é fundamental para um desenvolvimento democrático e sustentável. Destacamos, também, as construções de conjuntos habitacionais e o programa Minha Casa Minha Vida, em muito mudaram a paisagem da cidade, inclusive na infraestrutura do saneamento básico com o PAC. O aterro sanitário foi o primeiro no MS, com muitos benefícios para o meio-ambiente e saúde dos moradores de Dourados.

Folha de Dourados – A tese do alinhamento será defendida agora pelo candidato Barbosinha, do DEM. É a mesma coisa?

Tratam-se de situações bem diferentes. O alinhamento a que se refere o candidato Barbosinha, ocorre em relação ao discurso favorável ao desmonte dos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras, do ataque à previdência e seguridade, deixando a todos sem garantias, do ataque aos servidores públicos. Barbosinha tem sintonia com esta agenda neoliberal, tanto que votou a favor das medidas que tiraram direitos dos professores convocados, com redução drástica dos seus salários. Como ficaria a saúde e a educação com trabalhadores e trabalhadoras precarizados? Na total incerteza, inclusive porque a cada 4 anos, mudando o prefeito ou prefeita, poderão ficar no olho da rua. Ou seja, essas reformas direta ou indiretamente são prejudiciais a mais de 80% da população. A maquiagem a essa política é de duas ordens. Promessa de que com as benditas reformas os empregos vão surgir em abundância. Desde o Golpe de 2016, contra a Presidenta Dilma, nada disso se cumpriu. A outra cantilena, é o aceno com algumas “grandes” obras. Mesmo que realizadas, de que adiantam obras se o povo vai mal? Jovens sem perspectivas? Idosos abandonados? Mulheres desamparadas? População comendo mal ou passando fome. Ninguém come cimento armado. Portanto, a tese do alinhamento como positiva, é parcialmente verdadeira, pois o fundamental é a sensibilidade e a opção política que o PT, em nível federal, estadual e municipal sempre teve com as causas sociais e o compromisso político em colocar o povo, especialmente os mais pobres, no centro de suas políticas.

Folha de Dourados – De um modo geral, qual o pacto que o senhor pretende oferecer ao eleitorado douradense?

Em primeiro lugar, retomar o diálogo franco e sincero com a população através dos diversos canais de participação popular. Uma democracia só prospera quando há envolvimento efetivo da população, e esta se sente co-responsável pelas decisões, assim como controladora dos recursos públicos. A outra dimensão do pacto é o entendimento de que temos uma população com diversidade de origens, culturas, experiências, costumes que precisamos valorizar, pois é a nossa maior riqueza. Portanto, temos a compreensão da necessidade de uma liderança, capaz de enaltecer a política no que tem de melhor, sua atenção ao bem-estar das pessoas.

Folha de Dourados – O PT fará campanha de oposição à prefeita Délia Razuk (PTB)? Qual o tom que será dado?

O PT, através do mandato do vereador Elias Ishy, já faz oposição na Câmara de Vereadores a atual administração. De forma firme, combativa e fiscalizadora, no entanto responsável, sem oportunismo político. O nosso comportamento é sempre em defesa da população douradense. O conjunto do Partido dos Trabalhadores é muito crítico a atual administração, como também ao modelo político e administrativo que foi desenvolvido pelas administrações anteriores. No entanto, para responder mais objetivamente a sua pergunta, consideramos que o fechamento do governo da prefeita é melancólico. Nós apontaremos criticamente o descaso e falta de diálogo com setores da população, com medidas autoritárias de esvaziamento dos espaços de participação e controle social, como por exemplo, os Conselhos Setoriais. A ausência dos setores de saúde indígena, dos agentes de saúde e dos movimentos sociais no Comitê de Emergência no combate ao Covid 19, exemplifica essa atitude. A falta de planejamento na saúde, de equipamentos e medicamentos e de um projeto para a educação são outras falhas, com prejuízos para os douradenses necessitados. A prefeita demonstrou muita dificuldade em dialogar com os servidores públicos. Temos uma cidade descuidada, ruas esburacadas e no pó, sem iluminação.

Folha de Dourados – O PT sempre empunhou as bandeiras das minorias, dos excluídos, do orçamento participativo, do debate com todos os setores da sociedade, do meio ambiente, enfim. Uma vez eleito como se dará essa interação?

Em primeiro lugar pensamos a cidade em suas territorialidades, para apreender as especificidades de cada região. As políticas públicas serão realizadas de forma integrada, a intersetorialidade é fundamental para que as famílias, as mulheres e crianças, as pessoas recebam a atenção de forma integral, não fragmentada, para que isso ocorra, as informações serão compartilhadas entre os diferentes setores. O orçamento participativo terá um papel central na elaboração de políticas para a cidade, como também as novas tecnologias serão colocadas a serviço deste processo.

Folha de Dourados – A UFGD, fundada em agosto de 2005, foi a última impulsionadora do desenvolvimento de Dourados com a aplicação de recursos federais, chegada de professores e de milhares de estudantes que fizeram a roda economia girar. De lá pra cá nada similar. O que o senhor pretende fazer para que Dourados volte a crescer?

Em primeiro lugar não será uma ação isolada. Valorizar e otimizar os espaços e recursos próprios será o grande desafio. Começa pela preservação do meio ambiente, das nascentesem cujas áreas, além do lazer, pode ser fonte de recursos. Ampliar o cinturão verde da cidade para nele termos produção de alimentos agroecológicos para abastecer a cidade e região, pois muitos produtoshortifrutigranjeiros ainda veem de fora, isso gerará emprego e renda. Realizar parcerias com as universidades para estimular o desenvolvimento de pequenas indústrias na área de processamento de alimentos.

Folha de Dourados – Quais são as principais propostas que o PT fará ao eleitorado?

Questão central radicalizar na democratização da gestão pública é inconcebível em pleno século XXI com o avanço das tecnologias a nossa sociedade conviver com políticos e gestores com posturas autoritárias próprias da velha tradição de coronéis, governando sem ouvir a população, de costas para as suas necessidades, sem transparência, sem participação popular. Resgataremos o papel dos conselhos, retomaremos a experiência do orçamento participativo na formulação e definição de prioridades das políticas públicas ouvindo os vários segmentos da sociedade, especialmente daqueles que historicamente foram marginalizados e ignorados nas decisões sobre o grosso do orçamento, dos recursos, dos investimentos e das políticas públicas. Outro eixo central do nosso Programa de Governo é resgatar a capacidade do poder público municipal no fomento a geração de renda e emprego, sabemos do limite do município, especialmente em períodos de governos como os atuais, tanto o federal como o do estado, que apostam em modelo econômico recessivo de cortes em investimentos e políticas públicas. Mas sabemos que podemos fazer muito mais que as últimas gestões fizeram nesse quesito, pois o Partido dos Trabalhadores, as nossas administrações, tem um grande histórico de políticas e programas de apoio ao desenvolvimento econômico, articulado com o social, ambiental e cultural que se articula agricultura, indústria e serviços, fomentando pequenos negócios que geram renda, emprego e contribuem para “girar” a roda da economia, produzir inclusão produtiva e reduzir as desigualdades sociais.

É possível gerar emprego e renda, investindo na produção cultural do município, fomentando a agricultura familiar e a agroecologia, propondo serviços públicos como ações de recuperação e manutenção dos nossos bairros, distritos e aldeias agregando as comunidades locais, direcionando parte importante do orçamento municipal nesta perspectiva. As nossas duas gestões aqui em Dourados, com o companheiro Tetila à frente, produziram muitas políticas interessantes que serão resgatas e ampliadas com novas experiências positivas produzidas nestes mais de quarenta anos de administrações petistas que se tornaram referências em nível internacional.

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