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Maju relembra trajetória na educação, das cotas e fala da disputa pelo Senado com Vander

Juliel Batista –

A Professora Maju, segunda suplente na chapa encabeçada pelo deputado federal Vander Loubet (PT) na disputa por uma das duas vagas de Mato Grosso do Sul no Senado Federal, nas eleições de 4 de outubro, chega à política partidária depois de décadas de atuação na educação, na pesquisa, na extensão universitária e na formulação de políticas públicas.

Professora, pesquisadora e ex-pró-reitora da UEMS, Maju participou diretamente de discussões que marcaram a implantação das políticas de cotas para negros e indígenas no ensino superior. Também coordenou projetos de alfabetização em assentamentos da reforma agrária, trabalhou na formação de professores, criou grupos e centros de pesquisa voltados à educação, raça e etnia e percorreu municípios de Mato Grosso do Sul na construção de propostas para implantação de cursos universitários.

Maju relembra trajetória na educação, das cotas e fala da disputa pelo Senado com Vander
Professora Maju e Juliel Batista

Na entrevista ao FolhaCast Especial Eleições 2026, da Folha de Dourados, ela contou que recebeu convites para disputar cargos eletivos em outros momentos da vida, mas nunca havia aceitado. Segundo Maju, a diferença agora é que ela não chega à política para construir uma trajetória, mas para levar ao espaço político uma trajetória que já construiu.

Ao falar sobre a candidatura, destacou a possibilidade de representar Dourados e a região Centro-Sul do Estado, além de defender maior participação feminina e negra nos espaços de decisão.

Maju relembra trajetória na educação, das cotas e fala da disputa pelo Senado com Vander
Professora Maju é candidata à suplência de Vander Loubet ao Senado.

Assista a entrevista completa gravada no Studio Nexus 5.0: 

A seguir, a entrevista:

Folha de Dourados – A senhora sempre teve uma atuação muito forte dentro da universidade. Em que momento começou sua aproximação com a questão das cotas?

Prof. Maju – Foi no final de 2002. Estávamos eu e a professora Leocádia (Aglaé Petry Leme) no gabinete (da reitoria da UEMS), porque já era período de recesso. O governador Zeca ligou para ela e disse que tinham chegado à mesa dele duas leis para serem assinadas. Uma criava cotas de 20% para negros e outra criava cotas de 10% para indígenas.

Ele perguntou: “Eu assino ou não assino?”. Ela abaixou o telefone e falou comigo: “Isso aconteceu porque os movimentos foram fazer isso sem conversar com a universidade. Não houve uma conversa com a universidade antes”.

“Zeca (do PT) ligou para e disse que tinham chegado à mesa dele duas leis para serem assinadas. Uma criava cotas de 20% para negros e outra criava cotas de 10% para indígenas”

Eu disse para ela uma coisa que lembro até hoje: “Lei a gente não discute, a gente cumpre”. Ela falou: “Mas você sabe que é você que vai implementar”. E eu respondi: “É. Se é de ensino, sou eu mesmo. Vamos que vamos”.

Ela disse: “Pode assinar, governador”. E ele assinou. Uma lei foi assinada no dia 26 de dezembro e a outra no dia 6 de janeiro.

Quando os professores voltaram das férias, em 2003, o bicho pegou. A comunidade acadêmica não estava preparada. Até hoje existem grupos de resistência.

E havia um prazo curto para colocar as cotas em funcionamento?

Sim. A lei tinha 90 dias para ser implementada. Ou seja, tinha que entrar no processo do vestibular ainda em 2003, para os alunos que entrariam em 2004.

Então foram feitas discussões, aquelas reuniões de conselho intermináveis. Fui a todas as unidades da universidade fazer reunião com alunos, professores e trazer pessoas que entendiam do assunto. Fiz debates entre quem era contra e quem era a favor nas 14 unidades.

Percorri, trabalhei e, quando conseguimos normatizar e colocar no processo de vestibular em 2003, eu também tinha uma rede nacional de trabalho com outros pró-reitores.

Eu fazia parte da diretoria do Fórum Nacional de Pró-Reitores de Graduação, o ForGrad, e fui coordenadora da região Centro-Oeste. E tudo isso foi crescendo.

Essa experiência fez com que a senhora passasse a ser procurada para discutir a implantação das cotas em outras universidades?

Sim. Passei a ser solicitada pelo governo federal para acompanhar as discussões nas universidades. Na época havia a Secretaria de Direitos Humanos, e eu viajei muito com o pessoal e com o professor Ivair, que era do Conselho Nacional de Combate à Discriminação.

Acabei me tornando uma referência para discutir as cotas, inclusive nos lugares de maior resistência, que eram algumas universidades federais.

Percorri quase todas as universidades federais.

“Acabei me tornando uma referência para discutir as cotas, inclusive nos lugares de maior resistência, que eram algumas universidades federais”

A senhora enfrentou resistência pesada?

Muito. Eu quase apanhei em Uberlândia. Também estive na Assembleia Legislativa de São Paulo, onde havia mais de 400 pessoas discutindo a questão.

Estive na UnB, que criou suas cotas em 2004, depois de nós. Foi a primeira universidade federal a criar. Auxiliei muito o reitor daquela época. Estive lá discutindo.

Eu não estava apenas fazendo na prática. Também estudava, buscava as coisas, estava legislando dentro da universidade sobre como implementar tudo isso e sobre as mudanças na forma de selecionar os alunos.

Como foi essa mudança na seleção dos estudantes?

Nós criamos a primeira comissão, que era com fotos, mas os candidatos tinham direito de recorrer. Depois fomos os primeiros também a criar as bancas, em 2013.

Só que na universidade havia outros pró-reitores que não eram muito amigos das cotas e engavetaram essas coisas. Só em 2016 nós retomamos.

Nesse intervalo, a universidade assumiu 100% o Sisu, o que modificava bastante o processo. Precisávamos pensar novas formas de seleção.

“na universidade havia outros pró-reitores que não eram muito amigos das cotas e engavetaram essas coisas”

Eu sempre estive presente nisso.

Essa experiência acabou se tornando também objeto da sua pesquisa de doutorado?

Foi o foco da minha tese. Fiz uma tese acompanhando o desenvolvimento do ingresso, desde a seleção até a conclusão dos cursos de quatro anos e parcialmente dos cursos de cinco anos, dos cotistas negros e indígenas, comparando com os demais alunos.

Defendi a tese no dia 14 de maio de 2008. Dia 13 era o Dia da Abolição e dia 15 era meu aniversário. Eu e meu orientador tínhamos uma semana de questões afro na PUC, e ele falou que colocaria minha defesa na programação. Ficou para o dia 14.

Minha banca era muito poderosa. Tinha a professora Petronilha, que é um ícone do movimento negro no Brasil; o professor Kabengele Munanga, da USP; e outras pesquisadoras. Também levei uma colega da UEMS, a professora Beatriz Landa, que é uma referência na pesquisa sobre a questão indígena.

Era uma banca muito forte.

E olhando hoje, quase duas décadas depois do início das cotas, a senhora considera que valeu a pena?

Tudo valeu a pena. Não só na minha trajetória, com os problemas que vivi, as perseguições, os xingamentos, mas a questão das cotas valeu e continua valendo.

Nós temos resultados desde 2004, tanto aqui quanto na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, que foi uma das primeiras a implementar. Os cotistas negros entram e se agarram àquela oportunidade como algo que pode modificar a vida deles.

“Os cotistas negros entram e se agarram àquela oportunidade como algo que pode modificar a vida deles”

Quando fiz as primeiras avaliações, eles não deviam nada aos não cotistas. Em algumas áreas, até se sobressaíam. Não em todos os cursos.

Mas havia diferenças dependendo da área de formação?

Sim. Na área de exatas, por exemplo, havia uma grande evasão. E por quê? Porque a universidade ainda não tinha, e talvez ainda não tenha suficientemente, políticas que favoreçam o desempenho daqueles que vêm de escola pública.

Nós conhecemos a realidade da escola pública no Brasil, principalmente em Mato Grosso do Sul. Temos escolas em assentamentos, áreas rurais, áreas indígenas.

E, principalmente na questão indígena, os alunos precisam não só de acolhimento, mas de programas de orientação, acompanhamento e nivelamento. Inclusive na questão das línguas e em várias disciplinas em que têm mais dificuldade.

Nossos alunos indígenas, por exemplo, concorrem muito na área de enfermagem e ainda trazem dificuldades em relação às disciplinas básicas.

“na questão indígena, os alunos precisam não só de acolhimento, mas de programas de orientação, acompanhamento e nivelamento”

Alguns cursos têm professores mais abertos, que já fizeram propostas para acompanhar esses alunos e trabalhar de forma diferente. Outros endurecem o jogo até hoje.

Ainda existem pessoas que dizem que universidade não é lugar para indígena, que cotista entrou pela porta dos fundos. São barbaridades que não valem a pena.

A senhora também teve uma trajetória muito forte junto aos assentamentos e à educação do campo.

Entre 1998 e 2005, coordenei um programa nacional de alfabetização na Reforma Agrária, o Pronera. Fui coordenadora estadual e coordenadora dentro da universidade.

Tivemos dois projetos. Em um deles, alfabetizamos 1,5 mil assentados em mais de 70 assentamentos.

Eu percorria todos esses assentamentos, conhecia todo mundo, formei os alfabetizadores e escolarizamos mais de dois mil alfabetizandos. Mais de 400 receberam certificado pela escola de ensino supletivo, que existia aqui em Dourados, o CEJAD.

“Eu percorria todos esses assentamentos, conhecia todo mundo, formei os alfabetizadores e escolarizamos mais de dois mil alfabetizandos”

Depois fiz um segundo projeto, em 2002, para mais 500 pessoas serem alfabetizadas.

Também tivemos um curso técnico em agropecuária, com ênfase em agroecologia, com 120 vagas e três polos. Era um sistema de curso com tempo na escola e tempo no campo.

Eram assentados ou filhos de assentados. Eles ficavam oito ou dez dias no alojamento estudando com professores da área e depois voltavam para fazer as práticas em seus próprios terrenos.

Foi uma experiência que permitiu à senhora conhecer de perto a realidade dessas comunidades?

Muito. Eu tive essa experiência de ver, participar e estar com eles.

Eu ia todo final de semana, feriados. Eu tinha a pró-reitoria, viajava para lá e para cá e, no final de semana, ia para os assentamentos.

Também coordenava um projeto chamado Projeto Tereré, que fazia alfabetização de jovens e adultos na zona urbana. Tínhamos muitos municípios conveniados e salas em Dourados e outros municípios.

“Na universidade, me chamavam de “Maju dos assentados”, “Maju sem-terra”, “Maju dos negros”. Eu nem ligava. Estava enfrentando todas essas batalhas”

Tenho, inclusive, um álbum com mais de 500 fotos dessas aventuras.

Na universidade, me chamavam de “Maju dos assentados”, “Maju sem-terra”, “Maju dos negros”. Eu nem ligava. Estava enfrentando todas essas batalhas.

Tudo que chegava de novo na universidade, a gente tinha que brigar muito.

A senhora assumiu novamente a pró-reitoria em 2019 e logo enfrentou a pandemia.

Eu assumi em setembro de 2019. Em março, ganhei o presentão: a pandemia.

Eu já não queria mais ser pró-reitora. O professor Laércio insistiu muito, até que um dia, intuitivamente, pensei: “Eu ainda não terminei minha missão na universidade”. Então aceitei mais um mandato e avisei: “É só esse”.

Como de fato aconteceu. Quando terminou, falei para ele: “Estou parando aqui”. Eu precisava cuidar da minha saúde também.

Depois veio a aposentadoria. Minha aposentadoria saiu em 22 de abril de 2025. Eu fiz o pedido em 20 de novembro de 2024. Sou muito assim, gosto de simbologia.

Mas mesmo depois da aposentadoria a senhora não conseguiu parar?

Não consegui. Em junho de 2025, o programa de mestrado de Paranaíba, que ajudei a fundar em 2011, falou: “Você não vai abandonar a gente agora. Estamos em processo de avaliação. Você vai virar pesquisadora sênior”.

Eu pensei: “Meu Deus, eu quero sossegar”.

Mas aceitei. Hoje sou pesquisadora sênior, ministro uma disciplina por semestre e tenho orientações. Atualmente são sete alunos caminhando comigo, com temas variados.

“Hoje sou pesquisadora sênior, ministro uma disciplina por semestre e tenho orientações. Atualmente são sete alunos caminhando comigo, com temas variados”

Tenho pesquisas sobre racismo, formação de professores, jovens negros em conflito com a lei, educação infantil, deficiência.

Todos os trabalhos estão voltados para uma coisa: educação e diversidade.

A política sempre esteve presente na sua trajetória, embora a senhora não tivesse uma atuação partidária. Quando decidiu entrar na política?

As pessoas vêm para a política para fazer uma trajetória. Eu já tenho a minha trajetória e estou trazendo ela para a política como uma forma de auxiliar, de prestar algum serviço para a sociedade sul-mato-grossense, como sempre fiz.

Eu não fui só uma professora de Dourados. Fui professora da universidade do Estado inteiro. Conheço Mato Grosso do Sul inteiro.

Negociei com prefeitos da maioria dos municípios, com secretários, vereadores. Estive em várias câmaras municipais fazendo audiência pública para implantação de cursos.

“Eu não fui só uma professora de Dourados. Fui professora da universidade do Estado inteiro. Conheço Mato Grosso do Sul inteiro”

A educação sempre foi o mote central. Todas as outras coisas giravam tendo a educação como eixo. Depois entra a diversidade.

Hoje trabalho com educação, currículo e diversidade, raça, etnia, gênero e também questões LGBT.

Mas a senhora nunca havia sido filiado a um partido?

Nunca fui filiada. A única exceção é agora, que sou filiada ao PT.

Nunca me propus a ser política, embora tenha recebido vários convites durante a vida. Recebi convite para ser vereadora em Dourados e para ser candidata a deputada estadual.

Mas eu dizia não. Nunca foi o momento.

Agora talvez tenha sido.

E como surgiu o convite para integrar a chapa de Vander Loubet?

Surgiu naturalmente, através do Vander e também de um dos meninos que trabalham com ele, o Tiago Borges, que foi aluno da universidade e me chama de “mãe preta”.

Ele sempre falava: “Você vai ver só”. E as coisas aconteceram tão rapidamente que quase antes de eu dizer sim já estava envolvida.

“Surgiu naturalmente, através do Vander e também de um dos meninos que trabalham com ele, o Tiago Borges, que foi aluno da universidade e me chama de “mãe preta”

Mas sem problema, porque eu sempre fui eleitora do Vander. Gosto dele, do trabalho dele, de tudo que faz.

Acredito que, neste momento, cheguei para ajudar nessa construção ou reconstrução.

O que chamou sua atenção no trabalho de Vander?

Se ele é deputado federal e já fez muito por Dourados, imagine para o resto do Estado.

Tenho aqui os dados dos mandatos dele. Foram recursos importantes para Dourados, inclusive na saúde. Ele investiu mais de R$ 240 milhões na saúde de Dourados, segundo os dados que acompanho.

Sobre Vander Loubet: “Se ele é deputado federal e já fez muito por Dourados, imagine para o resto do Estado”

Também houve investimentos em infraestrutura e em poços nas aldeias indígenas.

Nós temos problemas muito sérios no município. E eu conheço Dourados, a grande região e Mato Grosso do Sul.

A senhora e Maria Diogo são as duas suplentes da chapa. Como avalia a presença de duas mulheres?

Eu disse para o Vander: “Você não sabe o perigo”.

A outra é sindicalista, vereadora, e eu falei para ele: “Você já sabe a fama. Nós não somos mulheres para apenas figurar na política”.

Ele sabe disso. Somos pessoas de trabalho.

Jamais aceitaria um convite apenas para compor chapa, para servir de fotografia.

“A outra (suplente) é sindicalista, vereadora, e eu falei para ele: “Você já sabe a fama. Nós não somos mulheres para apenas figurar na política””

Acho que essa chapa também expressa uma decisão política dele, um avanço nesse campo mais progressista, aproximando a região de Dourados e Mato Grosso do Sul das decisões do Senado.

Dourados é a segunda cidade do Estado e sempre reclama da falta de representação e das dificuldades que enfrenta.

E o fato de serem duas mulheres também permite que outras mulheres olhem para a chapa e digam: “Tem mulheres lá”.

E não são mulheres que estão ali só para fazer foto ou discurso bonito. São mulheres que trabalham, que metem a mão na massa, brigam, lutam e já criaram coisas.

E qual seria seu papel caso Vander seja eleito?

Eu já disse para ele que não sou mulher de ficar para lugar nenhum.

Se ele for eleito, quero trabalhar independentemente de onde eu estiver: na elaboração de políticas públicas, projetos, propostas.

Isso é algo que domino. Sei trabalhar com dados, escrevo e conheço as dificuldades.

“Se ele for eleito, quero trabalhar independentemente de onde eu estiver: na elaboração de políticas públicas, projetos, propostas”

Já conversei com várias pessoas que estiveram na gestão em Dourados ou que conhecem muito bem a cidade para identificar quais são as maiores dificuldades que podemos enfrentar.

Estar no Senado é uma oportunidade, inclusive como mulher, de ocupar espaços de decisão.

Como a senhora avalia a eleição para o Senado, que terá duas vagas e nomes bastante competitivos?

Temos vários nomes, alguns são os mesmos de sempre, pessoas que já passaram pelo governo.

Quando olho para eles do ponto de vista da educação, que é minha grande área, diria que pouco foi feito por várias dessas pessoas.

Tem muito discurso e pouca prática.

Na educação, por exemplo, sabemos a situação em que estamos. A própria universidade está com salário achatado, sem aumentos há tantos anos.

“Na educação, por exemplo, sabemos a situação em que estamos. A própria universidade (UEMS) está com salário achatado, sem aumentos há tantos anos”

Os aposentados, quando a gente se aposenta, voltam a pagar 14% de previdência. Temos um grupo de aposentados no sindicato. Há professoras dizendo que não conseguem pagar medicamentos.

A senhora também faz uma avaliação crítica da política indígena do governo de MS e de outras áreas?

Sim. Na questão indígena, por exemplo, temos conflitos que estamos vivenciando.

Não posso dizer que um governo democrático faria algumas coisas que aconteceram nos últimos tempos na questão indígena, com ataques, desrespeito às mulheres que estão no movimento e jovens sendo machucados.

“Não posso dizer que um governo democrático faria algumas coisas que aconteceram nos últimos tempos na questão indígena, com ataques, desrespeito às mulheres”

São coisas que me desanimam quando olho para vários desses candidatos.

Como servidora e professora universitária, passei pela gestão de muitos deles. Tive que andar com pires na mão pedindo as coisas, brigando em reuniões, discutindo questões óbvias que poderiam ser feitas e não foram.

E na educação básica?

Se você olhar os resultados de Mato Grosso do Sul, temos problemas.

A política da BNCC também deixa a desejar porque faz um silenciamento da diversidade. Fala de diversidade? Fala, mas principalmente da deficiência.

Falar de gênero é proibido. A questão racial ficou muitas vezes reduzida a datas comemorativas.

Nós, enquanto pesquisadores e docentes, conseguimos fazer essa leitura dos bastidores, dos entrelinhas. Muitas vezes os professores não conseguem fazer essa leitura e acabam acreditando em muitas coisas.

A senhora também critica o que considera um retrocesso na área da ciência e da vacinação.

Tivemos um retrocesso muito grande na questão das vacinas.

Houve um discurso de raiva, ódio e mentiras tentando fazer as pessoas acreditarem que a ciência não vale nada.

Eu até postei esta semana no Facebook um quadrinho falando sobre vacina e depois sobre o Ozempic.

“Essa coisa de desacreditar universidades, desacreditar ciência, desacreditar tantas coisas e tentar embutir apenas determinadas questões religiosas é muito complicada”

Essa coisa de desacreditar universidades, desacreditar ciência, desacreditar tantas coisas e tentar embutir apenas determinadas questões religiosas é muito complicada.

E qual é a sua avaliação sobre os nomes que estão se colocando nessa disputa?

De modo geral, acredito que essas pessoas não têm mais nada para oferecer além do que já ofereceram.

Precisamos olhar para frente e apostar em outras pessoas.

O Vander, nos seus mandatos, sempre esteve lutando por políticas públicas, lutando pelo pessoal, trazendo recursos para o Estado inteiro.

“O Vander, nos seus mandatos, sempre esteve lutando por políticas públicas, lutando pelo pessoal, trazendo recursos para o Estado inteiro”

Ele não se nega a estar em lugar nenhum, discutir olho no olho, conversar. E quando não pode fazer alguma coisa, já diz: “Isso não vai dar por conta disso, disso e daquilo, mas vamos tentar”.

É uma pessoa em cujo discurso eu acredito.

Também conheço o Fábio Trad desde menino. É um cara muito sério, tem um discurso mais humanista. Acredito que pode ser um bom governador.

A senhora acredita que é preciso renovação na política?

Sim. De modo geral, acredito que aquilo que já tivemos uma vez, duas vezes, tende a fazer novamente a mesma coisa.

Muitas pessoas entram na política com a esperança de enriquecer, acumular patrimônio.

” eu poderia ter arrumado dinheiro durante os anos em que fui gestora no Estado? Poderia. Mas jamais fiz isso”

Eu já disse: eu poderia ter arrumado dinheiro durante os anos em que fui gestora no Estado? Poderia. Mas jamais fiz isso.

Está lá. Quem quiser olhar, eu só tenho minha casa financiada e os cartões de crédito estourados.

A senhora está estreando na política partidária. Que mensagem gostaria de deixar aos eleitores?

Quero pedir aos jovens, principalmente aqueles que já chegaram à universidade, que pensem com carinho no voto em Lula, Vander e Fábio Trad, que são pessoas dispostas a fazer a diferença.

A universidade, para aqueles que já estão ou para aqueles que ainda não chegaram, é um lugar onde você adquire não apenas conhecimento, mas também toda essa questão da política para além da política partidária.

“Quero pedir aos jovens, principalmente aqueles que já chegaram à universidade, que pensem com carinho no voto em Lula, Vander e Fábio Trad”

Você aprende como cuidar de si, cuidar das pessoas e contribuir com a sociedade.

E qual é o papel das mulheres nesse processo?

Peço também a todas as mulheres: acreditem nas mulheres.

Nós somos maioria no Brasil. E a população negra, parda e preta também é maioria no país. Isso não sou eu que digo, é o Censo.

Precisamos colocar pessoas desses segmentos nos espaços de decisão.

Quem está hoje sempre no lugar de decidir nossas vidas? Homens. E homens brancos que assumem os lugares de poder.

As mulheres, se quiserem, podem modificar esse quadro.

Então estou aqui pedindo um voto de confiança para mim e para Maria Diogo, junto com o Vander.

A senhora também gostaria de dialogar com aqueles eleitores que têm resistência à esquerda?

Sim. Muitas pessoas olham para a esquerda e acham que a esquerda é comunista.

Nós não somos comunistas. Somos humanistas. É diferente.

Fazemos política para o bem-estar social, para o bem-estar da população. A esquerda pensa nisso.

“Fazemos política para o bem-estar social, para o bem-estar da população. A esquerda pensa nisso”

Basta olhar os programas de governo para tirar população da pobreza, auxiliar a educação básica e tantas outras políticas.

A questão da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, ou a tributação dos mais ricos, por exemplo. Claro que não é a taxa que nós sonhamos que eles pudessem pagar, até para auxiliar as políticas públicas, mas já é alguma coisa que nunca existiu no país.

E aos idosos?

Também peço aos idosos que ainda vão votar que lembrem que temos várias questões para resolver.

Aposentadoria, INSS e tantas outras questões podem avançar quando temos uma representação política na Câmara e no Senado que pensa dessa forma.

“Também peço aos idosos que ainda vão votar que lembrem que temos várias questões para resolver”

Não alguém que esteja lá para acumular patrimônio e, quando sair, tenha fazendas, empresas e dinheiro.

A senhora fala muito em representar Dourados e a região. Sua experiência universitária também passou pela expansão do ensino superior no Estado?

Sim. Eu conheço muitos municípios porque estive lá trabalhando.

Em Cassilândia, por exemplo, hoje existe uma unidade com curso de Agronomia e pós-graduação. Na época, fui eu que negociei para receber aquela fazenda e implantar o curso de Agronomia.

Mundo Novo hoje tem um curso de Agronomia voltado para assentados, pequenos produtores, indígenas. Eu estive lá construindo politicamente, defendendo a proposta dentro dos conselhos.

Como pró-reitora, você tem que ir aos conselhos, defender e vencer no voto.

Todas as propostas que levei, graças a Deus, foram aprovadas.

“Quando deixei a pró-reitoria, em 2023, deixei várias coisas aprovadas, outras implementadas e outras em processo de elaboração”

Maracaju tem curso de Agronomia. Direito tem nove cursos que começaram como propostas temporárias e agora estão se tornando permanentes.

Também tivemos Engenharia, Engenharia Civil em Nova Andradina.

Quando deixei a pró-reitoria, em 2023, deixei várias coisas aprovadas, outras implementadas e outras em processo de elaboração.

A senhora acredita que essa experiência pode ser levada para a política?

Com certeza. Eu poderia chegar a um município e dizer: “Não, aqui não vamos fazer isso porque o município é pequeno ou porque não tem isso”.

Nunca fizemos dessa maneira.

Sempre procuramos entender a motivação, a necessidade e a realidade daquele município, para além das questões políticas da região.

É isso que quero levar também para a política.

Para finalizar: por que a população de Mato Grosso do Sul deveria apostar nessa chapa?

Quero pedir um voto de confiança a toda a população de Mato Grosso do Sul, especificamente de Dourados e da região, que represento neste momento.

Também aos municípios onde já estive atendendo, em nome da universidade, políticas e questões que os municípios sonhavam.

Eu conheço essas realidades. Não apenas como acadêmica, mas como pessoa.

“Precisamos trabalhar para eleger pessoas progressistas, capazes de dialogar e construir um novo projeto de nação”

Se tivermos no Senado, no futuro, uma maioria progressista, as coisas podem mudar muito rapidamente.

Estamos vendo a pauta da escala 6×1 travada, a questão do marco temporal indígena, a questão tributária, a soberania e tantas outras coisas que ficam emperradas porque a maioria que está lá não quer que avancem.

Se o Brasil escolher novamente um projeto liderado pelo presidente Lula, acredito que isso pode acontecer e nós vamos trabalhar para isso.

Mato Grosso do Sul também precisa ter representantes.

O Vander é o senador do presidente Lula porque ele é do PT.

Precisamos trabalhar para eleger pessoas progressistas, capazes de dialogar e construir um novo projeto de nação.

É isso que espero. É isso que gostaria que as pessoas entendessem em relação à minha presença nessa chapa, pela primeira vez na política partidária.

Maju relembra trajetória na educação, das cotas e fala da disputa pelo Senado com Vander
Depois de gravar no Studio Nexus 5.0, a Professora Maju conversou bastante sobre política com o diretor da Folha de Dourados, o jornalista José Henrique Marques – Foto: Maria Eduarda Oliveira
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