Inaugurando no Brasil o conceito que dá nome à obra, o livro “Memórias e Narrativas: História Oral Aplicada” foi lançado em 2020 com o objetivo de favorecer a discussão sobre memória de expressão oral em diferenciação de memória de expressão escrita, revendo a metodologia da História Oral adotada até o presente momento no país.

Como coautor, o docente da Faculdade de Ciências Humanas (FCH) da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), Leandro Seawright, atua junto a um dos pioneiros da moderna História Oral no Brasil, o professor José Carlos Sebe Bom Meihy, atual coordenador do Núcleo de Estudos em História Oral da Universidade de São Paulo (NEHO-USP).

“Chegamos em um momento de devolver ao público uma história oral que possa produzir, na medida da memória desse público, uma narrativa efetiva, de mobilização da sociedade, então, revimos toda a metodologia que ele construiu, inaugurando, assim, no Brasil, o que estamos chamando de História Oral Aplicada”, diz Leandro, referindo-se aos métodos desenvolvidos pelo professor José Carlos.

Em sua apresentação, o livro traz um pouco do conceito presente na História Oral que é o de “memória de expressão oral”: “é mais que reportagem, mais do que geração de novas pautas de debate e muito mais do que diagnóstico social. É sempre sondagem profunda, reflexão sobre o que é retido e reelaborado na intimidade da memória, substância que se projeta no diálogo entre partes interessadas na busca por entendimentos […]”.

Leandro, que é doutor em História Social pela USP e, atualmente, ministra aulas nos cursos de graduação e pós-graduação em História da UFGD, explica que há poucas décadas seria inusitado, no Brasil, se falar em analisar as histórias das pessoas, ou seja, a oitiva, a transcrição e a transcriação de relatos pessoais não eram levadas em conta quando da construção da história, em si.

“Mas, e se pudéssemos ouvir e analisar as histórias por meio de quem vivenciou experiências traumáticas como catástrofes naturais, ditaduras, pandemias, entre outros eventos ou fenômenos sociais? Interessam as memórias de todas as pessoas, desde os idosos até os jovens ou as crianças, além das mais variadas comunidades. História Oral é terreno comum, democrático, e, por isso, desde que bem tratada, volta-se para um estatuto próprio de operações e motivações sociais que instruem a proposta”, esclarece.

HISTÓRIA ORAL APLICADA

De acordo com o docente, fala-se em História Oral Aplicada em função de sua inclinação para o refinamento teórico-metodológico, ao mesmo tempo em que prioriza a linguagem em sentido amplo e, por conseguinte, a língua das pessoas comuns, seus modos de vida, seus pensamentos ou expressões autônomas. “História Oral Aplicada não é matéria exclusiva de historiadores, mas de pedagogos, sociólogos, filósofos, juristas, psicólogos, profissionais de saúde, entre outros públicos acadêmicos e não acadêmicos”, sugere.

Por meio de entrevistas específicas, a História Oral Aplicada qualifica a função dos trabalhos nos quais é empregada. O professor ilustra: “atualmente, as pesquisas em História Oral são as mais diversas. Dois de meus orientandos, por exemplo, estudam as questões indígenas. Um deles se propôs a ouvir as narrativas de famílias afetadas com o fenômeno do suicídio entre os povos originários e, o outro, que é da etnia Guarani, estuda as memórias de Porto Lindo. Há, ainda, pesquisas sobre as várias formas de violência, xenofobia, ditaduras e outras feições antidemocráticas. Destacam-se estudos com quilombos e pessoas atingidas por catástrofes naturais”, cita.

Leandro enfatiza que a memória “por escrito” percorre caminhos próprios paralelos, diferentes da “pronunciada verbalmente”. Ou seja, não se tratam de duas memórias distintas, mas que possuem autonomias expressivas próprias. Com a nova obra, portanto, o que os autores buscam é argumentar em favor de uma forma de produção de documentos, indicando critérios para formulações da expressão da memória falada, gravada, materializada do oral para o escrito e disposta ao público.

Gostou da temática? O livro foi lançado pela Editora Contexto e pode ser adquirido pelo link https://www.editoracontexto.com.br/produto/memorias-e-narrativas-historia-oral-aplicada/3210268.

SOBRE O AUTOR

Leandro Seawright é doutor em História Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP). Atua como professor dos cursos de graduação e pós-graduação (mestrado e doutorado) em História da Universidade Federal da Grande Dourados (FCH/UFGD) e como diretor do Laboratório de Estudos em História Oral Aplicada da FCH/UFGD. Foi pesquisador da Comissão Nacional da Verdade, da Presidência da República, entre 2012 e 2014. Foi pesquisador (2006 – 2020) e coordenador (2015 – 2017) do Núcleo de Estudos em História Oral (NEHO/USP). Especialista em História Oral e Memória de Expressão Oral, é também historiador das religiões e do protestantismo brasileiro em sua interface com a história política do Brasil Republicano. Para mais detalhes, acesse: www.leandroseawright.com.br.

SAIBA MAIS

A obra foi lançada com recursos do edital PROPP nº 14/2019, referente ao Programa de Apoio à Pesquisa da UFGD. O objetivo do edital é expandir as atividades de pesquisa, ampliar a produção científica de qualidade e fortalecer os programas de pós-graduação da Universidade. Participaram da seleção servidores efetivos da UFGD (professores e técnicos) que coordenam projetos de pesquisa cadastrados na Coordenadoria de Pesquisa da Pró-reitoria de Ensino de Pós-graduação e Pesquisa (PROPP). O orçamento total disponibilizado pelo PAP foi de R$ 305 mil, destinados a financiar manutenção de equipamentos laboratoriais, materiais de consumo, serviços de tradução, revisão e versão, publicações de artigos e livros e inscrições em eventos.

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