Porcos com pérolas: Um dos papéis da Educação?
Leia o artigo – 29/05/2008
Mario SáPessoas não são porcos. Há que se ter claro isso aqui nesse início. No entanto, os adágios populares utilizam com bastante freqüência metáforas desse tipo. Dito isto, inicio uma reflexão a partir do adágio “não se deve lançar pérolas aos porcos”. Ele é usado como forma de dizer que não devemos ofertar algo de valor àqueles que não possuem condições de fazer proveito, bom uso dele. Segundo essa lógica, devemos guardar as pérolas para os aptos ao seu uso.Muitas vezes é assim que nós professores nos sentimos em sala de aula. Ofertando pérolas aos porcos. É vergonhoso confessarmos esse sentimento, mas ele é mais freqüente do que pensamos. Com certeza para aqueles que pensam a educação como um elemento transformador de nossa sociedade fica, de certa forma, uma frustração; um constante perder de tempo.Penso que esse olhar sobre os educandos e a educação se dá por um conjunto de análises equivocadas sobre os papéis da educação. Sim, os papéis da educação, pois a mesma os têm em forma plural. Ao pensarmos no processo ensino-aprendizagem em seu contexto ideal imaginamos alunos com as habilidades e competências exigidas para a aquisição daquele conjunto de conhecimentos que estamos prontos a fornecer-lhes. Esses seriam aqueles discentes que iriam ou irão tornar-se as elites pensantes dirigentes do país. Os grandes novos nomes do futuro Brasil e, quiçá, mundo. Cabe então uma questão: o papel da educação é o de formar unicamente esse tipo de futuro cidadão? É nele que se resume o nosso papel? Definitivamente não! Temos que contribuir na formação de outros tipos de profissionais que ocuparão outros espaços na sociedade. Espaços esses os mais variados possíveis. E, mais que profissionais, temos que contribuir na formação de cidadãos mais cônscios de seus papéis e seres humanos mais felizes.No âmbito da aquisição do conhecimento há que perceber o grau que o aprendiz possuía quando entrou e o quanto ele se transformou ao longo do processo. E, o mais importante: quanto vale aquela aprendizagem em sua vida profissional, política, social e pessoal. Alguém que nada sabia e sai conhecendo um terço daquilo que lhe foi proposto é um aluno trinta por cento melhor. E se aquele aprendizado for significativo ele poderá ter uma percentagem de benefícios bem superior. Em um grupo de alfabetização de adultos o aprendizado mínimo do vernáculo escrito é, muitas vezes, um grande produtor de auto-estima para as pessoas que passam a dominar, ainda que parcialmente, a forma escrita da língua. É possível, com ele, identificar a direção escrita no letreiro de um ônibus, saber em que fila se deve ficar, ler o nome de um logradouro, etc.Não pretendo deixar brechas para que algumas Instituições de Ensino e educadores concluam: então podemos fazer qualquer coisa de qualquer jeito que, ao final, haverá um ganho. Não! Não é isso que escrevo. Devemos oferecer o melhor aprendizado possível, no entanto sem perdermos de vista o ponto de partida de cada aprendiz, o de chegada e o significado das mudanças com essa aprendizagem. Vale também frisar que esse não é um papel exclusivo dos profissionais da educação. Os estabelecimentos de ensino têm que fornecer as condições mínimas necessárias para que o processo aconteça.Há que se ter em mente que as pérolas são percebidas e utilizadas de formas plurais e não são jóias de uma única forma de uso. Continuar lançando pérolas, as melhores possíveis, aos nossos alunos é fundamental. No entanto caberá, dentro das possibilidades de cada um, a escolha de onde colocá-las. É bem possível que muitos de nós nunca venhamos a ter em nossas listas de chamadas futuras pessoas de destaque em nossa sociedade. Mas também não teremos porcos. Teremos seres humanos que cresceram, em diferentes medidas, que tenderão a ser melhores. É preciso lembrar também que a sociedade em que vivemos e propomos contribuir na transformação é extremamente maior que esse pequeno grupo chamado de ponta. Lançar pérolas é o nosso papel. O que será feito com elas… Professor de História
Fonte: Folha de Dourados



